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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 20/25

Tem que sentir amor, senão o samba fica vazio

Gafieiras – Em que ano a senhora chegou em São Paulo?
Dona Inah – Em 54.
Gafieiras – Como foi a primeira impressão de São Paulo? Foi a primeira vez que a senhora veio pra ficar?
Dona Inah – Ah! Foi tudo! Meu pai quis vir porque achou que eu ia ser uma cantora um dia, né!
Gafieiras – Nessa época ele já acreditava? Ele não havia deixado a senhora vir (para São Paulo) quando o Luiz Gonzaga a convidou, né?!
Dona Inah – Mas depois ele ficou desempregado e tinha arrumado emprego aqui em São Paulo, entendeu? Ele vendeu uma casa que tinha lá (em Araras), viemos pra cá e minha irmã ficou doente. A doença dela acabou com o dinheiro todo da casa. Foi quando eu ganhei o concurso! Ganhei cem cruzeiros de prêmio. E uma outra firma me deu mais cem cruzeiros de prêmio e uma (câmera) Kodak, da Foto Léo. Então, ganhei duzentos cruzeiros de prêmio. Era um dinheiro bom na época. Meu pai deu como entrada num terreno onde construiu a casa dele.
Gafieiras – Onde vocês foram morar?
Dona Inah – Em Camilópolis, em Santo André.
Gafieiras – E foi tranquilo, Dona Inah? Ou a senhora se assustou de vir para uma cidade grande?
Dona Inah – Não, não, eu não assustei, não, porque vim pra cá pra vencer, mas não pensei que fosse pra passar tantos anos assim. Mas passou e pra mim parece que foi ontem.
Gafieiras – A senhora tinha uns 16 anos?
Dona Inah – Dezoito anos.
Gafieiras – E a senhora se lembra quando a Carmem Miranda morreu [ n.e. 1909-1955]?
Dona Inah – Eu lembro, eu era mocinha ainda. Ela morreu em 52, 53, né?
Gafieiras – Era uma das cantoras que a senhora imitava?
Dona Inah – Era. Eu imitava a Ademilde Fonseca, cantava chorinho como ela, numa boa. Hoje não canto mais, mas eu gostava de imitar cantoras.
Gafieiras – Hoje em dia, que cantores e cantoras a senhora admira?
Dona Inah – Cantoras…? Como sambista tenho uma grande admiração pela Beth, pela Fabiana Cozza! Fabiana é uma grande sambista! Tem várias sambistas, mas tem sambistas e sambistas, né? Pra gente cantar samba tem que sentir aqui, não é só cantar música de dor-de-cotovelo. Se não sentir aqui, não canta samba também, não. Tem que soltar pra fora e por no coração.
Gafieiras – E se o cara for um guapo, ele pode cantar outro tipo de samba? O que diferencia um sambista do outro sambista?
Dona Inah – Você tem o sambista que canta artificialmente, que abre a boca pra cantar, que quer o dinheiro. E tem sambista que canta mesmo o samba, o sambão, ele sente aquilo que está cantando. Vem de dentro pra fora! Até pra cantar samba tem que sentir. Tem que sentir amor, senão o samba fica vazio.

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