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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 19/25

Eu bebia muito, tomava todas

Gafieiras – Nessa época havia grupos que eram importantes para o artista cantar, como a orquestra do Severino Araújo [ n.e. 1917 | Clarinetista e compositor pernambucano, é líder da célebre Orquestra Tabajara ]…
Dona Inah – Todas as orquestras eram boas. Severino Araújo foi destaque; tinha o Silvio Mazzuca [n.e. 1919-2003 | Pianista e maestro paulistano, dono de uma generosa carreira discográfica construída principalmente nos anos 1950 ], tinha o Clóvis Eli, tinha o Tobias Troisi [ n.e. Violinista que primava por tangos e boleros ], tinha o Simonetti [n.e. 1924 – 1978 | Enrico Simonetti, instrumentista e maestro italiano, um dos diretores e fundadores da gravadora RGE. Permanceu no Brasil entre 1949 e 1963 ], com quem eu trabalhei, havia muitas orquestras que trabalhavam a semana toda. Tinha lugar pra trabalhar; hoje já não tem mais. Muitos músicos bons estão passando necessidade… Na década de 70 (tinha muito) piano bar. No Bar Brahma eu trabalhei com um pianista. Trabalhei no Fasano.
Gafieiras – Quem era o pianista do Fasano?
Dona Inah – No Fasano tinha orquestra…
Gafieiras – O Fasano que era o da…
Dona Inah – O da Paulista. No Brahma era piano bar na época da Nora Ney, daquelas músicas de dor de corno, como diziam. A gente tomava umas e outras e depois chorava. Eu já tomei muito, hoje, não, mas eu tomava.
Gafieiras – Por que a senhora parou de beber, Dona Inah?
Marco – Essa história é interessante.
Dona Inah – Eu bebia muito, tomava todas. Eu ia pras boates e tinha que arrumar dinheiro pra levar pra casa. E, como cantora, ganhava mais do que aquelas mulheres que eram dançarinas na época. Eu ganhava a comissão por bebida e eu era meio sacana. Os rapazes vinham e falavam: “Deixa eu beber com você, cantora!”. Aí eu pedia uísque. Vinha mais refrigerante que uísqeu. Depois eu comecei a beber uísque puro. Aí, tinha noite que eu bebia mais de 15 doses de uísque por noite. Comecei a ficar meio tereré, né! E me viciei na bebida.
Gafieiras – A senhora era casada nessa época?
Dona Inah – Eu era casada. Depois me separei, mas eu era viciada em bebida. Gente do céu, eu bebia demais!
Gafieiras – Mas era somente à noite?
Dona Inah – Comecei a beber de dia e de noite. Já dormia com a garrafa de pinga do lado da cama, acordava de noite, virava a garrafa… E um belo dia, quando eu morava em Taboão da Serra e trabalhava no quilômetro 28 da Anchieta, peguei um ônibus e desci na Brigadeiro. Peguei um outro pra chegar aqui em Pinheiros. Quando o ônibus fez aquela voltinha da Henrique Schaumman ali, e endireitou, fui parar embaixo do motorista. O motorista parou o ônibus e eu só olhando pra cara dele, bêbada, que não sei me fingir de sã. O ônibus parou e ele me ajudou a levantar. “A senhora tá bem?” “Não, tô bem!” Aí levantou um cara no fundo e falou “Essa vagabunda não tem nada! Tá cheia de cachaça! Vem atrapalhar a gente! Eu tô perdendo hora de serviço por causa dessa vagabunda!” E falou, falou, falou… Eu abaixei a cabeça, desci do ônibus e sentei num banco da Henrique Schaumman que tem até hoje. Sentei e chorei muito. “A minha hoje é ser chamada de vagabunda perto do público!” Cheguei em casa e falei pra minha filha: “Não me faça mais caipirinha de manhã que eu não vou beber mais!”.
Gafieiras – Quando foi isso?
Dona Inah – Foi em 1973, 74, mais ou menos.
Gafieiras – A senhora trabalhava somente cantando nessa época?
Dona Inah – Só cantando.
Gafieiras – E a Prefeitura?
Dona Inah – Na Prefeitura comecei atrabalhar em 1980. Fiquei dez anos lá. E eu bebia todas nessa época. Aí me levaram na Associação dos Alcoólatras Anônimos, no Caxingui, onde me perguntavam: “A senhora tá doente. Quer falar alguma coisa?”. Eu falava que não estava doente nada, que não queria me tratar, que não tinha nada. E quando chegou um dia, falei: “Quero ir lá sozinha hoje!”. Cheguei lá e falei “Quero me tratar! Eu preciso me tratar!”.
Gafieiras – Essa época de beber todas durou quanto tempo?
Dona Inah – Ah, durou muitos anos, durou muito.
Gafieiras – Mas a senhora fazia besteira?
Dona Inah – Não, besteira eu não fazia. Só ficava bêbada.
Gafieiras – Isso atrapalhou sua carreira de alguma forma?
Dona Inah – Eu sei lá se ajudou ou se atrapalhou… Acho que prejudicou um pouco, não sei, mas tudo tem a hora certa pra acontecer na vida da gente.
Gafieiras – E agora a senhora não bebe mais?
Dona Inah – Ah, tomo um copo de cerveja de vez em quando. A gente vai numa festa, tomo uma caipirinha, mas tomo uma só! Na segunda já fico meio tereré, então paro.
Gafieiras – A senhora tem algum cuidado com a voz?
Dona Inah – Não só tomo gelado.
Gafieiras – Nunca teve cuidado, Dona Inah?
Dona Inah – Muito pouco.
Gafieiras – Mas a voz nunca deixou a senhora na mão?
Dona Inah – Deixar na mão mesmo, não.

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