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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 1/25

Corri do boi, mas não pude correr da avó

Gafieiras – O especial infantil para adultos do Gafieiras desse ano (2007) fala sobre a casa da vó. Então, na entrevista de hoje, a gente vai falar tanto de sua história como artista, quanto de sua história de vida. Quais lembranças a senhora tem da casa da vó?
Dona Inah – Eu tenho tantas lembranças da casa da vó. As duas vós – da parte de minha mãe e de meu pai – foram mais que mães pra mim. Minha mãe trabalhava na roça. Quando não tinha férias da escola, eu ficava com minha avó, mãe de meu pai; quando tinha férias, ia pro sítio, casa dos meus avós maternos, e ficava lá alguns dias. Elas eram maravilhosas, pessoas muito boas; (tenho) muita lembrança boa. E muita lembrança porque eu apanhava muito da minha vó. Da minha mãe eu não apanhava, mas da minha vó eu apanhava. Todo dia, duas, três vezes por dia.
Gafieiras – Mas por que apanhava?
Dona Inah – Ah, porque eu era capetinha, né?
Gafieiras – Geralmente a vó somente afaga, né?
Dona Inah – Não, a minha vó batia. Hoje, eu dou graças a Deus por toda a chinelada que eu levei da minha vó. Ela era dessas negas véias, do tempo da escravidão…
Gafieiras – A vó materna?
Dona Inah – A vó paterna.
Gafieiras – Como ela se chamava?
Dona Inah – Joana. Eu a chamava de mãe Joana. Ela foi escrava. Eu conheci a mãe dela, que era minha bisavó, que morreu com bem mais de 100 anos, entendeu? Então, elas eram enérgicas. Enérgicas mesmo! A gente levava surra direto. E quando eu não queria apanhar, eu subia num pé de mangueira. Subia e ficava o dia inteiro trepada num pé de manga até meus tios virem da roça.
Gafieiras – Onde?
Dona Inah – É cidade de Araras, onde fui criada, onde eu nasci.
Gafieiras – Era na cidade mesmo?
Dona Inah – Era na cidade mesmo. Eles moravam na fazenda, mas depois foram pra cidade. Eu também nasci numa fazenda, mas que pertencia à cidade de Araras.
Gafieiras – E qual era a parte da casa da vó que você mais gostava?
Dona Inah – Ah, eu gostava do quintal, porque podia me esconder dela quando ia apanhar. Era um quintal enorme. Em qualquer buraquinho eu me enfiava. Mas a casa da minha avó era muito boa, muito gostosa. Todos os meus tios eram músicos e a gente se reunia lá, onde se fazia música.
Gafieiras – E a sua avó cantava também?
Dona Inah – Não, minha avó não cantava, não. Minha avó era mais parada por causa da época dela, mas gostava. Meus tios todos eram músicos; meu pai era músico. Da casa da minha avó eu me lembro de tudo, tudo.
Gafieiras – Descreve como era, Dona Inah.
Dona Inah – Descrever a casa da minha avó?
Gafieiras – É, somente pra entender a casa da avó da senhora, (a casa) da mãe Joana. Vocês não moravam na casa junto dela, né? Quero dizer, a casa de vocês era uma, e a casa dela era outra?
Dona Inah – Isso, era outra.
Gafieiras – Como era a casa?
Dona Inah – A casa dela ficava quase no centro da cidade. Era daqueles casarões antigos, velhos. Uma casa germinada. A (casa) do lado eles alugavam quando chegava circo na cidade. Então, o pessoal do circo ia lá. Do outro lado, era uma sala enorme. Dentro da sala tinha uma divisória que era um quarto. Havia um corredor, tinha um outro quartinho que era o da minha avó, das minhas tias. Um outro quartinho menor, era do meu tio que era casado. Era um corredorzão grande. A cozinha lá embaixo numa escadinha assim; havia um fogão de lenha…
Gafieiras – O que saía desse fogão de lenha?
Dona Inah – Ah, saía muita comida gostosa. Era comida de pobre, mas gostosa. Arroz e feijão, aquela sopa de minestrone que eles falavam “minestra”, arroz misturado com feijão, com tudo, um monte de coisa; era gostoso! E saindo pela porta da cozinha tinha um tanque, um banheiro – porque banheiro não ficava dentro de casa naquela época. Tinha um quintal grande, um pé de manga, que aquele não me sai da lembrança, não. Era o meu escape quando eu ia apanhar.
Gafieiras – E a senhora apanhava porque, o que a senhora fazia?
Dona Inah – Porque eu fazia coisa errada. Ela falava: “Não vai fazer isso!”, e aí é que eu ia fazer. Eu e o meu primo, já falecido faz muitos anos. Fomos criados juntos. Minha mãe ia pra roça e eu ficava na casa da minha avó. E ela batia, e batia pra valer, mas a gente nem ligava mais porque acostumou. Quando dava pra correr, a gente corria, quando num dava, a gente apanhava, fazer o quê?
Gafieiras – A senhora lembra de uma dessas aventuras que mereceram surra?
Dona Inah – Olha, tem várias. A gente era muita curiosa. Minha avó falava: “Não vai em tal lugar que…”. Bom, uma vez, na cidade, passava boiada que ia para o matador. Antigamente não tinha caminhão, nada disso. Então ela falava: “Não vai sair pra rua porque a boiada daqui a pouco vai passar e tem boi bravo…”. Nós ficávamos no meio da rua brincando, né? E eu ainda falei: “Vou desafiar pra ver se tem boi bravo mesmo”. E fiquei no meio da rua. Quando a boiada veio, eu corri tanto de boi, eu corri tanto… Virei numa esquina lá pra me salvar do boi… Quando a boiada passou, eu levei uma chinelada. Corri do boi, mas não pude correr da avó. Então, eu era assim quando tinha sete, oito anos. Mas eu adorava a minha avó.

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