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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 18/25

Os maiores bailarinos do samba eram do Som de Cristal

Gafieiras – A senhora falou que cantar com as orquestras foi uma grande escola. A senhora se imaginaria hoje cantando numa orquestra?
Dona Inah – Eu tenho vontade, nem que for uma única vez, de cantar numa grande orquestra. A melhor coisa do mundo é cantar com orquestra. Muito gostoso! Eu vou fazer ainda, não sei quando, mas vou fazer.
Gafieiras – Quando foi a última vez?
Dona Inah – Foi lá atrás. Porque antigamente não tinha conjuntinho, eram somente grandes orquestras. Antigamente a orquestra tinha 28, 30 músicos. Aqui em São Paulo eu trabalhei no Som de Cristal, trabalhava-se em duas orquestras por noite. Trabalhei no Avenida Dancing, no Chuá Danças. Era maravilhoso, duas orquestras! Saia de uma orquestra, entrava em outra, e todos ganhavam. Não ganhava couvert, ganhava a noite.
Gafieiras – Eram dancings?
Dona Inah – Eram dancings. O Som de Cristal foi a gafieira número um de São Paulo.
Gafieiras – Onde ficava?
Dona Inah – Na Rego Freitas.
Marco – Som de Cristal era da década de 1970, 80…
Dona Inah – Os maiores bailarinos do samba eram Som de Cristal.
Gafieiras – A senhora já tinha visto o Cidão dançando lá?
Dona Inah – Eu nem sei…
Cidão – De 1969 até 80 eu apresentei o Som de Cristal. Nessa época tinha Garitão, Som de Cristal e o Tangará. O Tangará ficava onde está o Olimpo, na Rua Clelia.
Dona Inah – Eu fazia Som de Cristal e fazia Tangará. Eu vinha de bonde até aqui perto da igreja, é voltava de bonde de madrugada.
Cidão – Ali eu não frequentava…
Dona Inah – O Avenida Dancing era um táxi dancing.
Gafieiras – O que é táxi dancing?
Dona Inah – Era uma casa que ficava no bar Paladium, que existe até hoje, quase ao lado do Cine Rio Branco. Táxi dancing era uma casa que o pessoal ia lá pra dançar somente. Então, havia as bailarinas que ficavam na casa, que ganhavam a noite pra dançar.
Gafieiras – A Elizeth Cardoso foi uma…
Dona Inah – Os rapazes ganhavam um cartão que apresentavam quando iam dançar. As meninas que trabalhavam lá ganhavam pra dançar com os fregueses.
Gafieiras – Não havia dançarino? Era somente mulher?
Dona Inah – Era só mulher. Lá iam casais numa boa, mas as bailarinas ganhavam pra dançar com os fregueses.
Gafieiras – E havia paquera ou era somente dança, Cidão?
Cidão – Às vezes até pintava…
Marco – Lá dentro era isso.
Dona Inah – Mas o objetivo não era paquerar, era dançar.
Cidão – Naquele tempo a gente ia pra dançar, esquecer as tristezas.
Dona Inah – Lá dentro era festa. Hoje em dia o pessoal fala de boate como lugar de vagabundo, mas não era lugar de vagabundo. As meninas ganhavam a noite pra ficar lá dentro. Elas chegavam às 22 horas e tinha show de striptease, tinha show de música, tinha tudo ali. As meninas ganhavam a noite e a comissão sobre bebidas que faziam os caras gastarem. Então, se o uísque custava cinco reais, eles pagavam uma porcentagem desse valor pra elas. Elas ganhavam a noite e a comissão da bebida. Chegavam às 22 horas, assinavam o ponto e saíam às quatro horas, assinando o ponto. Agora, da porta pra fora, (cada uma) fazia o que queria. Mas lá dentro, não.
Gafieiras – O que era diferente da noite daquela época para a de hoje?
Dona Inah – Naquele tempo tinha muito trabalho.
Marco – Não tinha a violência que tem hoje.
Dona Inah – Eu fazia duas, três casas por noite. Não ganhava couvert (artístico): ficava lá 45 minutos, depois 45 lá (em outra casa) e ganhava a noite. Hoje em dia, em 45 minutos você não ganha nada.
Gafieiras – Esse tempo em que a senhora cantava em boate era com orquestra ou com conjuntos?
Dona Inah – Em boate geralmente era com conjuntos, mas dois conjuntos. Entrava uma, saía o outro. Não parava a música nos dancings e nos salões. Havia a matinê dançante nos clubes. Todo sábado tinha baile. O fim de semana todo o pessoal tinha onde dançar, onde passear, porque havia música toda semana.

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