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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 16/25

Ia cantar hinos evangélicos nas penintenciárias

Gafieiras – E quais são os planos para o futuro? Depois desses dois discos, o que vem mais? A senhora tem algum projeto, algum disco que sonha em fazer?
Dona Inah – Ah, eu vou fazer esses dois discos agora que são coisas que quero fazer e eu quero trabalhar. Ah! Tá muito fraco o negócio, mas eu não quero saber, quero trabalhar, quero mostrar o que eu sei fazer. Dinheiro ajuda muito, mas não traz muita felicidade pra ninguém! Não, quero trabalhar!
Gafieiras – Quem viveu com pouco sabe qual é o valor, não precisa de muito.
Dona Inah – E eu falo sempre, trabalhei muito, cantei muito pra hospitais, asilos, e acho que é muito importante a gente fazer isso também. Isso eu faço e não quero ganhar nada porque é muito importante.
Gafieiras – Dona Inah, a senhora sempre teve uma fé na música, né?
Dona Inah – Eu sempre tive.
Gafieiras – De onde a senhora acha que veio isso?
Dona Inah – Não sei, acho que é a minha fé em Deus. Meu Deus é muito grande, meu, não, nosso. É só a gente saber pedir, confiar nele, que ele dá tudo pra gente.
Gafieiras – Essa fé se manifesta por meio de alguma religião?
Dona Inah – Eu fui evangélica um tempo, mas não é por isso, não. Hoje eu não freqüento igreja, porque eu acho que meu Deus tá aqui. A partir do momento que quero uma coisa, eu peço direto a ele, não vou pedir ao soldado, não vou pedir ao juiz. Se eu vou a um fórum, quero falar com o juiz. “Ah, mas o policial tá aqui!” “Mas eu quero falar com o dono da boiada! Não quero falar com os bois, né? Vou dar um jeito nem que eu passe por debaixo da porta!”
Gafieiras – Mas como era a religião na casa da senhora?
Dona Inah – Meu pai virou evangélico, depois a família toda, e eu cantei muito em igreja evangélica, mas eu sei lá, eu achei que não devia sair da minha espiritualidade. Eu saí da igreja, parei de freqüentar, porque quando eu quero uma coisa, eu sempre peço a Deus na minha casa, não importa o lugar que estiver para conseguir as coisas. O que vale é a fé. Pode demorar dez anos, mais Ele vai te dar.
Gafieiras – O que a senhora cantava na igreja?
Dona Inah – Cantava hinos evangélicos.
Gafieiras – A senhora lembra de algum?
Dona Inah – Eu lembro.
Marco – Ela compôs hino evangélico.
Gafieiras – Como era?
Dona Inah – Deixa eu ver se lembro de um agora. [ canta ] “Há homens que buscam glória / Das glórias que acabam-se aqui / Há outros que buscam fama / Mas nunca se sentem feliz / Eu canto e dou glória a Deus / Sou feliz no caminho em que estou / Eu vou seguindo meu bom Jesus Cristo / Que é meu mestre / Meu bom salvador.” Eu sonhava com hino, acordava a noite e escrevia.
Gafieiras – E com o samba, a senhora sonha?
Dona Inah – Com samba é mais difícil, mas com hinos eu sonhava à noite.
Gafieiras – Continua sonhando com hino, não?
Dona Inah – Não, agora não mais, mas eu me lembro de muitos hinos que eu escrevi.
Gafieiras – E havia algum crivo, os pastores falavam “Isso aqui a senhora não pode, isso não ficou bom”?
Dona Inah – Não! Mas sabe por que eu saí da igreja? Eu era de uma igreja. Minha família toda e eu fazíamos parte de uma legião de pastores que visitava a detenção, cadeias e eu ia também, colocava o violão debaixo do braço e ia cantar hino lá na penitenciária, em lugares assim, pra molecada que estava na detenção, no tempo em que a detenção era na Tiradentes. Eu ia sempre todo domingo cantar na penitenciária. Conclusão: as meninas que cantavam na igreja que eu pertencia não gostavam. Mas por quê? Eu achava que não estava fazendo nada de errado. Não quero que ninguém seja crente, mas pelo menos vou lá e canto pra eles. Aí, quando foi um belo dia, ele me chamou – eu fazia programa na rádio evangélica América – e falou “Se você continuar a cantar com outros pastores por aí, a gente vai ter que mandar você embora da igreja!”.
Gafieiras – Eram pastores de outras igrejas?
Dona Inah – Eram, porque eu pertencia à Assembléia de Deus e esses pastores com os quais eu saía eram missionários, não eram pastores de outras igrejas. Todos eram missionários evangélicos. Era uma seita pra divulgar a Bíblia; não era como o que tem hoje, (de uma igreja só). Nós íamos independentemente de qualquer dinheiro, de qualquer tudo. E quando chegou um belo dia, ele falou que se eu continuasse a fazer programas de rádio de outras igrejas, ele ia me mandar embora. Eu falei “Então pode me mandar agora que não venho mais. Vou pertencer à minha igreja, aquela que eu quero, aquele que eu tenho vontade.
Gafieiras – Mas nessa época a senhora cantava na noite também?
Dona Inah – Não, parei por uns tempos.
Gafieiras – Mas por causa da igreja?
Dona Inah – Isso.

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