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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 13/25

Meu avô ia matar os dois: minha mãe e meu pai

Gafieiras – O canto orfeônico era aquele do Villa-Lobos, né?
Dona Inah – Na escola tinha aula de música, e havia uma matéria chamada canto orfeônico. A gente participava.
Gafieiras – Como eram essas aulas?
Dona Inah – A gente tinha que aprender a cantar vozes, e toda festa – como o Sete de Setembro – os alunos participavam, mas eu nunca participei. Todo mundo sabia que eu cantava e que eu gostava de cantar. A minha professora chorava porque não podia me por lá no meio. Era a professora de quarto ano, Odete Ferreira Rangel, não sei se está viva ainda, mas ela tentava me por (no meio do coral), mas as famílias dos alunos não admitiam. Eu não podia cantar na escola, não podia cantar em festinha.
Gafieiras – Tinham muitos negros na escola, Dona Inah?
Dona Inah – Não tinha muito. Era por isso mesmo que a gente brigava, os poucos que tinham… Havia umas sete, oito salas de aula, então se tivesse 15, 20 negros era muito. No recreio cada um ficava na sua rodinha. Dali a pouco chegava um branquinho e gritava “Ô negrada!”. A gente dava um jeitinho. “Vamos sair pela porta errada hoje!”, “Ah! Professora, vou ficar pra escrever a lição de casa que não deu pra escrever!” Então, a gente saía depois: a escola saía pra cá e nós por lá. Aí, chegava na praça e quebrava o pau. Brigava, brigava, brigava!
Marco – O professor de música também não queria dar aula.
Dona Inah – O Sr. Jacoli era o único professor de música da cidade. Meu pai foi falar com ele uma vez para me dar aula de música. Ele disse que não podia dar (aula pra mim), porque perderia alunos. Isso ele falou na minha cara! Chorei muito naquele dia. Eu tinha oito, nove anos.
Gafieiras – E o seu pai dizia o que pra senhora?
Dona Inah – Meu pai falava “Que nada, filha! Você vai aprender ainda! Papai vai te ensinar!”. Aí apareceu um português que tocava bandolim, o Totó, e falou: “Dou aula pra sua filha. Ensino bandolim pra ela!”. E ele ensinou bandolim. Até de graça ele me ensinou. Mas os professores da cidade não queriam dar aula porque eu era filha e neta de negro. Minha mãe era branca, mas meu pai era negro, era neto de africano com francês. E a mãe do meu pai era mulatona assim, quase negra, e meu avô era bem africano mesmo. E por parte de mãe, minha vó era índia e meu avô alemão. Era uma mistura doida.
Gafieiras – E essa vó índia?
Gafieiras – É eu ia falar isso… A senhora só falou da vó Joana e não da outra vó.
Dona Inah – Eu passava só minhas férias de escola com minha vó materna.
Gafieiras – Ela morava onde?
Dona Inah – Em uma fazenda.
Gafieiras – Em Araras também?
Dona Inah – Em Araras… Era uma fazenda que chamava “Cinco casas”. Tinha a fazenda “Matão” e a fazenda “Cinco casas”, que era pertinho assim. E as minhas férias eu passava lá. Eu tinha um tio da mesma idade. Nós íamos passear lá naqueles cafezais. Meu avô criava cabras que davam leite gostoso. De manhã, meu tio falava: “Inês, vamos levantar! Vamos tomar leite!”. A cabra estava tão acostumada com a gente que ela corria e ficava sempre na mesma pedra. A gente mamava todo o leite da cabra.
Gafieiras – Mas direto da teta?
Dona Inah – Quando meu avô ia tirar leite da cabra, cadê o leite? “Eu quero saber quem veio tirar o leite da minha cabra! Acabou o leite!”. Aí eu falava: “Ah! Mas tem outra lá!” “Mas o leite de lá não é bom!”
Gafieiras – Então, que a cabra ficava na posição?
Dona Inah – Ela gostava. Esse meu tio vive em Araras ainda. Nós éramos da mesma idade. Chegava lá e “Inês, vamos tomar leite!” Aí nós íamos pegar melancia no meio da roça. Pegava a melancia e se estivesse madura, a gente comia, se estivesse meio verde, a gente enterrava no meio da terra e deixava. Por isso que a gente apanhava, não tinha jeito! Aí, quando meu avô ia cortar melancia, estava cortada no meio, podre já. Mas era uma vida gostosa! Minha infância foi muito gostosa. Minha mãe trabalhava e meu irmão tomava conta (de mim). Eu tinha 12 anos. Eu queria brincar, mas meus irmãos me enchiam o saco e não me deixavam brincar.
Gafieiras – A senhora tinha muitos irmãos?
Dona Inah – Tinha cinco irmãos nessa época. Aí, quando chegamos (em Araras) não tinha calçamento, era só areia na cidade; nada era asfaltado. Então, o que eu fazia: pegava meu irmão e o levava pra brincar. Fazia um buraco e punha meu irmão de pé. Colocava areia até aqui. E ele brincava ali na areia. Um dia contei pra minha mãe: ela foi lá e viu. Levei uma surra tão grande.
Gafieiras – Dona Inah, mas a sua vó materna não tinha essa coisa de bater?
Dona Inah – Não! A mãe da minha mãe já era mais calma. Mas a mãe do meu pai era fogo.
Gafieiras – Mas ela era mais carinhosa?
Dona Inah – Ela era, embora a gente a via muito menos porque ela morava longe do sítio. Da cidade dava umas quatro horas de carroça. Então, era muito longe a fazenda onde ela morava. Eu ia lá somente nas férias de escola. Eu conheci mesmo minha vó e meu avô quando tinha sete anos. O meu avô não queria me ver, não queria ver minha mãe, não queria ver ninguém. (Isso tudo) porque minha mãe fugiu pra casar.
Gafieiras – Sua mãe era branca?
Dona Inah – Minha mãe era branca.
Gafieiras – E foi por isso?
Dona Inah – Foi. Minha mãe sempre contava que ela fugiu pra casar e, quando ela tava no meio do cafezal, meu avô tava no trilho com a espingarda pra matar os dois. E ficaram de mal muito tempo. Depois que nasci que meu avô fez as pazes com minha mãe e com meu pai.
Gafieiras – E o seu pai se dava bem com os sogros?
Dona Inah – Se dava. Depois meu avô ficou doente e meu pai deu muito apoio a ele. Então, ficaram amigos, mas demorou um pouco, mais de sete anos. Aí, toda época de férias de escola eu estava na casa do meu avô. Ele ia me buscar na minha cidade pra me levar pra lá.

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