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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 12/25

Eu não podia cantar no canto orfeônico porque era filha de negros

Gafieiras – Dona Inah, a senhora contou um pouco do passado de sua família e falou da escravidão, do sofrimento. Esse passado sofrido influenciou de alguma maneira sua trajetória de vida?
Dona Inah – Sempre marca as pessoas…
Gafieiras – Muito?
Dona Inah – Marca, sim, viu, filha, porque a gente passa às vezes por coisa que, sabe como é que é? Existe ainda, existe…
Gafieiras – A senhora está falando de racismo?
Dona Inah – Existe ainda, não muito, mais existe.
Marco – Ela morou numa cidade que tinha muito esse foco de racismo. Ela tem muito isso, não gosta de falar, mas tem muita história dessa época de infância.
Dona Inah – Na escola, na hora do recreio e na saída, os negros eram separados dos brancos. No recreio, às vezes, um chamava o outro de neguinho e, na saída, um ia para um lado, o outro para o outro, esperava na praça e quebrava o pau, né! Aí a gente brigava.
Gafieiras – A senhora também brigava?
Dona Inah – Ah! Brigava! Era pedrada, era paulada, era reguada, era tudo! “Vou mostrar pra você quem é negrinha!” e quebrava o pau.
Gafieiras – Isso lá em Araras?
Marco – Não podia cantar no canto orfeônico porque era negra.
Dona Inah – É, não podia cantar no canto orfeônico da escola porque eu era filha de negros. Não podia entrar no clube da cidade porque eu era negra. Tanto que a primeira cantora (negra) que entrou no clube fui eu. Eu fui por intermédio da família Zurita, que inclusive uma hoje é presidente da Nestlé. O Inácio Zurita Junior foi quem me pôs no clube para cantar. Eu não entrava no clube. De jeito nenhum! Daí, fui a primeira cantora negra que cantou no clube da cidade. E tudo isso marca (a gente), mas hoje em dia já nem ligo pra muita coisa não, viu. Mas (ainda) existe (racismo).
Gafieiras – Hoje ainda tem?
Dona Inah – Hoje tem, mas é mais disfarçado. Antigamente era ali mesmo: o pessoal ia na praça passear, branco tinha que entrar aqui, preto tinha que passar por lá. Não se misturava, entendeu? Hoje, não, hoje é tudo mais aberto.

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