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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 11/25

A maior escola de música que tive foi a noite

Gafieiras – Como é o dia-a-dia da senhora?
Dona Inah – Meu dia-a-dia? Eu trabalho o dia inteiro em casa, onde dificilmente escuto música.
Gafieiras – Quando a senhora escuta música, Dona Inah?
Dona Inah – Às vezes, quando vou ensaiar, quando tenho que aprender uma música, fico escutando duas, três, quatro, cinco vezes… Não preciso ouvir mais porque eu já sei. Aí vou aprender só a letra. Em casa dificilmente eu ligo o rádio.
Gafieiras – Quando liga, ouve o quê?
Dona Inah – Quando eu ligo, eu ouço… Gosto daquele canal de samba de raiz pela televisão, pela net, pela Sky, que eu tinha também, então, fico ouvindo música samba de raiz. Músicas boas! Gosto de todo tipo de música, latina, tudo.
Marco – Uma vez o Heron me disse que você gostava de bolero e de vários gêneros, mas por uma questão estratégica, você escolhia o samba para não perder o foco. É isso mesmo?
Dona Inah – Com certeza, porque a maior escola de música que eu tive foi a noite. Na noite eu comecei a trabalhar com grandes orquestras; antigamente tinha orquestra, 15, 20, 30 orquestras na cidade e eram todas orquestras que faziam o baile aos domingos. Era tudo pra dançar! Eu era cantora, crooner de orquestra. Então, foi a maior escola, coisa que pouca gente hoje consegue ter, porque aprende alguma coisa em casa e tudo bem. Na noite você aprendia tudo.
Marco – Como é era aquela música do Canhotinho?
Dona Inah – Você aprendia o samba, bolero, rumba, mambo, folk, todo estilo de música você era obrigado a cantar para o povo dançar. Não ia cantar só samba pra eles dançarem… Então, aprendi a cantar qualquer tipo de música, em qualquer ritmo.
Gafieiras – Mas a senhora estava contando do seu dia-a-dia, Dona Inah. O que a senhora faz em casa?
Dona Inah – Bom, agora, como eu mudei, estou desmanchando caixote pra guardar as coisas… Mas em casa, eu trabalho, eu lavo, passo, cozinho, faço meu serviço todo. Gosto de fazer isso.
Gafieiras – A senhora tem netos?
Dona Inah – Tenho neto e tenho bisneto.
Gafieiras – E como a senhora é como avó?
Dona Inah – Eu sei lá…
Gafieiras – Os netos chamam de Inah?
Dona Inah – Não, meus netos me chamam de vó.
Marco – Mas tem umas netas que nem ligam, são casadas e não estão nem aí…
Gafieiras – Mas tem algum neto que canta?
Dona Inah – Não, nenhum deles. Agora, tenho dois netos que são maravilhosos, são pequenos. Não sei quando crescer (como ficarão), porque os outros não estão nem aí! Nunca foram me ouvir cantar.
Gafieiras – Nenhum deles?
Dona Inah – Não, nenhum deles.
Gafieiras – Por que a senhora acha que (eles não foram ouvi-la ainda)? A senhora os convida?
Dona Inah – Eu convido, morei na casa deles muito tempo. Ficava lá junto com eles, mas “Ah! Vó, não vou com você não!”…
Gafieiras – Isso te entristece?
Dona Inah – Não! Por que triste? Cada um faz o que gosta.
Gafieiras – Mas será que eles não gostam de samba?
Dona Inah – Talvez não gostem, porque nesse ponto eu sou muito enérgica com eles. Eu não gosto de coisas erradas. Não sei se eu ia chamar a atenção deles em algum lugar e eles iam achar ruim, entendeu? Mas acho que eles não gostavam quando eu pegava no pé deles pelo que eles faziam. Então, deixei pra lá, que cada um faz o que quer, como deve, aonde a cabeça vai. Mas tem uma coisa: não quero que venha chorar depois no meu ombro. O que a gente pode fazer é aconselhar, é falar.
Gafieiras – Mas nem o CD eles ouvem?
Dona Inah – Ouvem porque eu dei pra eles o CD, né?!

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