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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

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Ao som da orquestra invisível

Dona Inah sabe muito bem o que tem de fazer. Além da vida doméstica – adora costurar –, seu negócio é cantar. Sempre foi, desde a meninice em Araras, onde nasceu. Mas somente nesses últimos dez anos que a carreira de Ignez Francisco tomou o espaço que merece. Gravou seus dois primeiros discos, viajou pelo Brasil e Europa, e ainda conquistou um Prêmio Tim. Pouco? Não para essa mulher que completa 75 anos em maio e já passou por poucas e boas, sem nunca deixar de soltar a voz.

Em agosto de 2007, numa tarde de sábado no Bar do Cidão, em São Paulo, a equipe do Gafieiras conversou durante mais de três horas com a cantora. A pedido, remodelou a infância marcada pelo racismo e as lembranças que guardava de suas avós, fundamentais em sua formação. Revelou histórias da família musical descendente de escravos e engavetadas pelo mesmo coração que confessou a difícil relação com os netos.

De gargalhada fácil e contagiante, Dona Inah contou que foi dama de honra do casamento de Inhana, sim, aquela que dividiu a vida e o palco com Cascatinha, disse que imitou Dalva de Oliveira e outros ídolos, e que esboçou uma carreira artística quando se mudou para São Paulo, em meados dos anos 1950. Foi na terra grande que encarou boates e dancings, que se encantou com as orquestras e que animou salões ao lado das mais diferentes combinações instrumentais. De dia, era babá, doméstica ou cozinheira. Anos depois, limparia banheiro público.

Com a presença de Marco Bailão, violonista e companheiro de Dona Inah, do Cidão e de sua esposa, Rose, o bate-papo não deixou de colocar à mesa assuntos espinhosos. Da vida noturna, além do repertório, Inah carregou o gosto pela bebida. “Eu bebia muito, tomava todas!” Depois de anos, largou o vício e foi cantar hinos evangélicos em penitenciárias. Afirmou sua fé na música e em Deus, com quem estabelece diálogo direto. “O que vale é a fé. Pode demorar dez anos, mais Ele vai te dar!” Entre os pedidos para o divino deve estar o de cantar novamente com uma grande orquestra. “É a melhor coisa do mundo! Vou fazer ainda, não sei quando, mas vou fazer.” Você duvida?

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