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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 8/17

Achei (a letra de) "Tenho sede" meio estranha

Manu Maltez – Nos lugares em que você tocou, isso no começo (de carreira), lá pro Norte, você viu muita briga? Quando você estava no salão e a coisa ficava feia, você tinha que sair correndo ou continuava tocando?
Dominguinhos – Tinha muita briga de faca. A gente estava tocando em um lugarzinho, num cantinho e, de repente, parava a festa e começava uma briga. A janela era baixinha e meu pai botava a gente pra fora… [risos] Quando acabava (a briga), a gente voltava.
Manu Maltez – Voltava a tocar?
Dominguinhos – Voltava a tocar, e geralmente tinha alguém furado.
Manu Maltez – E seguia a festa…
Dominguinhos – Seguia a festa.
Tacioli – Dominguinhos, você falou do Jorge Veiga. Uma de suas características era a divisão rítmica, como também era a do Jackson do Pandeiro. E sempre falaram dessa briguinha entre os dois por conta da gozação de quem era o “rei do ritmo”…
Dominguinhos – Nessa época tínhamos algumas pessoas que, como Miltinho, que tocava pandeiro, fazia muita bossa – ele era o mais bossista, que brincava com a divisão. E depois veio o Jackson, que revolucionou, porque ele tinha uma divisão extraordinária e tocava muito pandeiro. Jorge era mais um gozador que, como a Emilinha (Borba), que era a favorita da Marinha, a Marlene era não-sei-o-quê, ele representava os aviadores. Enquanto a gente dava uma introdução, ele fica esperando para entrar com “Senhores aviadores do Brasil / Queiram dar o prefixo das vossas aeronaves…”. [risos] E aí falava um bocado e dava certinho com a introdução pra ele entrar cantando. [risos]
Tacioli – E sempre elegante, né?
Dominguinhos – Muito elegante… Eu acompanhei muito Ataulfo Alves. Um dia fomos para Miraí, que é a terra dele, perto de Muriaé. Ele levou um regional da Rádio Nacional e nós fomos lá acompanhá-lo…
Pavan – Dominguinhos, você está sempre falando de sua fase de acompanhante, mas você se lembra da primeira música que fez?
Dominguinhos – Ah, sim, fiz muita música. Aos oito anos eu já tinha gravado uma valsa, “Saudade da minha terra”. Na época a gente estava em Recife. Moraes (Moreira) gravou “Casamento no Juazeiro”, que era uma música que ele fez a letra, que eu regravei duas vezes depois. E aí a gente vivia disso, compondo, só que como eu não sabia música, eu não marcava e ia pro beleléu. Eu já conhecia Anastácia; a gente tocava nas televisões daqui e do Rio. Um dia, Gonzaga chamou a gente para fazer uma viagem juntos. Dormimos em Aracaju, em um hotel que está lá até hoje, um lugar chamado Jacques Hotel, bem na entrada da cidade. Pois bem, eu estava tocando no outro dia e a gente dormiu. Tomei café e fiquei por ali agarrado ao instrumento. Aí fiz um baião. Anastácia, que estava em outro quarto, botou uma letra…
Pavan – Sem você saber?
Dominguinhos – Sem eu saber!
Pavan – Ela só ali na escuta…
Dominguinhos – Só na escuta… Quando terminei, que botei o acordeom em cima da cama, ela disse: “Olha, você se incomoda? Fiz uma letra nessa música que você estava tocando aí!”. Aí se chamou “Mundo de amor”, que foi a primeira música nossa que Marinês gravou. Ela era quem mais gravava música da gente. [n.e. Cantora pernambucana, 1935-2007, conhecida como “Rainha do Forró”] Aí passei a ter o conhecimento que podia fazer música, que tinha uma parceria. Ih, fizemos 210 músicas juntos.
Tacioli – Até então você não havia tido essa experiência?
Dominguinhos – Não, com ninguém. Foi ela que descobriu!
Manu Maltez – E aí você ficou animado?
Dominguinhos – Fiquei animado, fazendo música direto…
Pavan – Mas você compunha e…
Dominguinhos – Ia botando no baú…
Pavan – Tudo na cabeça…
Dominguinhos – É!
Pavan – Mas você escreve música ou não?
Dominguinhos – Não! Aprendi um pouco de cifra, essas coisas assim, mas pra ler com instrumento, não.
Pavan – Mas tudo o que você compôs foi na cabeça e mostrando depois para o parceiro?
Dominguinhos – Foi! E as fitinhas-cassete, gravações, um aparelhinho… Ligava o aparelhinho cassete e ficava tocando uma hora, duas horas; ficava tocando, fazendo música. Era igual a repentista: enchia uma fita de um lado e do outro.
Pavan – Mas isso não é improviso?
Dominguinhos – Não, a melodia era definida, era uma composição mesmo.
Pavan – Vinha na hora? Como era? Você falava: “hoje eu vou compor”?
Dominguinhos – É, sempre na hora.
Manu Maltez – Aí depois você escutava…
Dominguinhos – Pronto, ela escutava e ia tirando as arestas e colocando a letra certinho ali.
Tacioli – E você opinava nas letras, Dominguinhos? Dizia: “Não, Anastácia, essa letra não está legal!”?
Dominguinhos – Era muito difícil opinar.
Tacioli – E você lembra de alguma que você opinou?
Dominguinhos – Quando ela botou a letra em “Tenho sede”, eu achei meio estranho: “Traga-me um copo d’água…”. [risos] Ela já estava era na frente…
Manu Maltez – Mas você não disse nada?
Dominguinhos – Não! Eu achei estranho e ela viu que eu achei estranho, e disse: “Está gostando?”. Eu digo: “Não, tá bom…” [risos] Foi tudo bem, graças a Deus!

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