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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 7/17

Jorge Veiga enchia o saco de Jackson do Pandeiro

Tacioli – Dominguinhos, perguntei dos lugares que você frequentava em Garanhuns, e se quando era moleque você brincava em algum lugar…
Dominguinhos – Ah, brincava, brincava…
Tacioli – Quais eram e como eram esses lugares?
Dominguinhos – A gente mesmo fazia os brinquedos, né? Carrinho de rolimã, que você descia aquelas ladeiras bem inclinadas e, vruuum!, caía lá embaixo, se ralava todo. Fazia torneio de pião, que era pra gente lascar o pião no meio. Jogava bola de gude, que a gente chamava lá de chimbre. E aí fazia os brinquedinhos com aqueles carretéis de linha grandes, com um arame, botava ali e saía pelo meio da rua, correndo desembestado. Tudo isso foi uma coisa muito boa pra mim, para meus irmãos, primos…
Tacioli – E como era Garanhuns nessa época?
Dominguinhos – Garanhuns, rapaz, pra mim não mudou foi quase nada. Tem muitas flores, tem um lugar chamado Pau Pombo, que tem água mineral à beça. Minha mãe lavava a roupa do Zé Cesário, que era dono de uma padaria, com água mineral, aquela água azulzinha. E a gente ia pra lá com ela, porque tinha muito menino. Já ajudava em uma coisinha. Chegava a época de manga, a gente ia roubar manga enquanto ela lavava roupa. Um dia levei um susto arretado, porque quando estava botando a mão numa manga bem grande, rosa, o cara estava com uma espingarda: “O quê que cê tá fazendo aí, moleque?!”. [risos] Aí, eu… [bate as mãos]. Eu (caí). Já pensou se ele atirasse? Negócio de sal, né?
Tacioli – Aí nasceu o ponta-direita?
Dominguinhos – É. [risos] Vige, debaixo do arame, já estava com a mão na manga, rapaz! [risos] Ô cara miserável!
Tacioli – Dominguinhos, mas como foi sua infância, a família era uma família pobre?
Dominguinhos – Pobre.
Tacioli – Como era o seu pai, o Mestre Chicão?
Dominguinhos – O Mestre Chicão era afinador de sanfona, tocador, mas às vezes ele passava meio ano sem tocar numa festa, sabe? A gente passou a tocar nas ruas, nas portas de hotéis, botequins, feiras… E sustentando a família. Botava o chapeuzinho e aí todo mundo botava uma pratinha.
Pavan – Mas ele ganhava a vida com isso ou tinha um trabalho na roça ou em alguma coisa assim?
Dominguinhos – Também, mas a roça era uma piada, porque o meu pai com a minha mãe tiravam os eitos de terra com muita ligeireza e a gente, pequenininho, só com a enxadinha fazendo tipo… Valia de nada! [risos]

Dois reis do ritmo: Jorge Veiga e Jackson do Pandeiro. Fotos: reprodução

Dois reis do ritmo: Jorge Veiga e Jackson do Pandeiro. Fotos: reprodução

Pavan – Mas seu pai ganhava então a vida arrumando sanfona?
Dominguinhos – Como agricultor.
Pavan – Como agricultor e consertando sanfona?
Dominguinhos – Consertando sanfona… Ele tocava muita sanfona de oito baixos, era uma beleza! Samba, choro e frevo, eram os gêneros de música da época. Tinha um rádio, a gente encostava o burro pra ver quando pegava direito, frequência média, como é, frequência modulada, (ela) fugia e voltava… Era uma época de Carlos Galhardo, Orlando Silva. E depois cheguei no Rio de Janeiro e conheci todos eles. Passei a tocar no regional da rádio. Se precisassem do regional, a gente já servia. Eu ficava ali tocando com eles… Jackson do Pandeiro…
Tacioli – Como foi isso pra você, Dominguinhos, tocar com gente que você ouvia desde pequeno?
Dominguinhos – Rapaz, eu nem notei, porque é tão engraçado essa coisavpor ser muito pequeninho naquela época… Cheguei lá com 13, 14 anos; com 15, 16 comecei a tocar na rádio. Aí a minha cabeça estava focada só no instrumento. E já estava casando, tendo uma filha, falecida aos 49 anos, a Lena. E eu fiquei assim, como uma pessoa que estava começando mesmo… Acompanhei, não sei se você já ouviu falar, Jorge Veiga, Marlene, Emilinha…
Tacioli – O Caricaturista do Samba.
Dominguinhos – Isso! Ele enchia o saco de Jackson do Pandeiro. Jackson estava lá no camarim esperando a hora de entrar, e ele sentado, um bigodão… Tinha o Gaúcho do Acordeom, que era um grande músico, tinha o Chinoca, que hoje em dia está lá no Rio, tem 81 anos, meu amigo desde esse tempo. O meu apelido era Neném. E o Jorge Veiga, muito sem-vergonha: “Esses paraíbas chegam aqui e pensam que podem passar na frente da gente!”. Aí ele se levantava e saía, sabe? Jogava o veneno e ia embora. E o Jackson: “Compadre, eu ainda vou dar uma peixeirada nesse camarada!”. [risos] Eu dizia: “Que besteira, Jackson, isso tudo é brincadeira dele!”. O Jackson era bravo demais…
Max Eluard – Ele ficava bravo mesmo!
Dominguinhos – Ele era bravo, brigava com dois, três… [risos]

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