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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 6/17

Na escola batiam muito na gente

Tacioli – Você nasceu em Garanhuns?
Dominguinhos – Foi.
Tacioli – E saiu de lá com 15 anos?
Dominguinhos – Não, com uns 13 anos.
Tacioli – Treze anos?
Dominguinhos – É.
Tacioli – Que lembranças você tem desse período, dessa primeira infância de Garanhuns? Como era a cidade, quais os lugares que você gostava de frequentar?
Dominguinhos – Eu não frequentava lugar nenhum! [ri] Eu era garotinho e no dia em que conheci Luiz Gonzaga – sem saber quem era – eu tinha oito anos. Tocava na porta do hotel em que ele estava hospedado, o Tavares Correia. Tá lá, do mesmo jeito que era naquela época, muito verde, charrete. E a gente chamava (o hotel) de sanatório, porque tinha muito velho que ia pra lá passar o fim de semana. E botaram a gente tocando lá na porta. Não deixavam a gente tocar lá dentro para não atrapalhar os hóspedes. Aí botaram a gente para tocar numa sala com um cidadão. Era ele, Gonzaga. Aí ele deu um bolo de dinheiro pra gente e também deu o endereço, que foi a coisa mais importante. Nesse mesmo dia apareceu uma senhora, Almerinda, que era diretora da escola comercial de Olinda, um internato e externato. “Vocês não querem estudar? Vocês estão na idade de estudar? Você já está com nove anos?” E aí eu digo: “A senhora fala com meu pai, porque a gente não pode resolver nada”. Aí ela foi falar. Meu pai deixou a gente ir. Passamos uns quatro anos internos, todos na mesma época.
Tacioli – Foi bom ficar interno?
Dominguinhos – Foi bom porque alguma coisa que eu aprendi foi lá. Era uma época meio pesada, porque eles batiam muito nas crianças, de palmatória, e muitas vezes até com “arreio” de bater em cavalo. Mas o que eu aprendi foi ali. Ela tornou-se empresária. Vendia os showzinhos da gente, vestia a gente muito bem. O dono da Rádio Clube, Arnaldo Moreira Pinto, deu uma sanfoninha de 48 baixos pra gente, um acordeonzinho. Moraes passou logo a tocar, depois eu, e depois o Valdo. Rapaz, foi uma coisa bonita! Esse tempo era pesado. Quando nós voltamos, saímos de lá, fomos expulsos.
Tacioli – O que você fez, Dominguinhos?
Dominguinhos – Não, não, não fizemos! Era o seguinte: como eles batiam muito na gente, Moraes, que era o mais velho, pulava o muro do colégio, que era muito alto, e ia para a casa do dono da rádio. Ele descobriu onde o dono da rádio morava. E o homem passou a se incomodar com ele. “Ei, você não tá num horário de estudar, meu filho?” “É que estão batendo na gente!” Fez uma denúncia! Aí mandaram um órgão visitar o colégio pra ver o que é que estava acontecendo. A gente apanhava mesmo, rapaz, seis bolos na mão, tu já pensasse?! Era de palmatória, não era brincadeira! A gente ficava de mão inchada. E ela vendia a gente na casa dos meninos mais ricos, tudo vestido de pinguins. Aí ela expulsou a gente por conta disso (da denúncia do Moraes). Nós voltamos para Garanhuns pior do que a gente tinha ido. Voltamos com a roupinha do corpo. Ela segurou tudo, inclusive os instrumentos. Voltamos zerados.
Pavan – Até então nem você e nem seus irmãos nunca havido estudado?
Dominguinhos – Não, não, somente quando nós fomos pra lá.
Pavan – Vocês estudaram nesses três anos.
Dominguinhos – É, entre três e quatro anos e aí acabou-se.

Capa de Fim de festa, LP de estreia de Dominguinhos (1964). Foto: reprodução

Capa de Fim de festa, LP de estreia de Dominguinhos (1964). Foto: reprodução

Tacioli – Chegou e apanhou em casa também?
Dominguinhos – Não, não! Meu pai levou um susto! O transporte naquela época era trem, que ia de Recife para Garanhuns, uma Maria Fumaça. Nós chegamos e o pai disse: “Vá lá, minha Nossa Senhora! Vocês fugiram?”. “Não, pai, a mulher mandou a gente embora! Sem instrumento, sem nada! Ela não tinha necessidade disso.” Agora, eu tinha tanta consciência do bem que eles tinham feito que, uns 15 anos depois, eu estava com Luiz Gonzaga e voltei lá. Fiz uma visita à escola, que estava funcionando lá em Olinda. Não sei se vocês já foram em Olinda, Pernambuco. Quando você sai de Recife, uma ladeira bem alta assim, a escola era ali, do lado direito, junto à Prefeitura. E aí fui lá no colégio visitar (a Dona Almerinda). E ela parou a sala de aula. “Isso aqui é como um filho pra mim! Estudou aqui.” [risos] E eu, besta, naquela conversa mole, levei um disco que eu tinha feito, que era o Fim de festa. Aí eu esqueci de perguntar: “Ah, Dona Almerinda, e aqueles instrumentinhos que a gente tocava?” Estavam lá com ela, né? Podia ter me lembrado disso. Depois ela vendeu o colégio e hoje em dia é uma residência, sabe? Mas eu podia ter me lembrado disso aí, pedir (os instrumentos) pra ela. Ela daria; ficou toda feliz de me ver.
Pavan – Apesar de apanhar, você tinha gratidão…
Dominguinhos – Ah, tinha demais, porque foi o lugarzinho em que eu aprendi alguma. Não vou esquecer.
Pavan – E depois você voltou a estudar no Rio?
Dominguinhos – Voltei nada. [risos] Com 17 anos já era pai e fui tocar cada vez mais. [risos]

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