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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 5/17

Luiz Gonzaga e eu apoiávamos Collor

Pavan – Dominguinhos, você disse que não se falavam em forró, falavam em baião, né?
Dominguinhos – Só baião.
Pavan – Qual é a diferença do baião para o forró, xote…?
Tacioli – (…) Arrasta-pé?
Dominguinhos – O baião tem uma batida, o forró tem outra, que é mais suingada, é diferente e tem mais palavras, né? E o baião é mais liso. O xote é um gênero muito bom de se tocar, de você dançar e tudo; cansa menos. [risos]
Tacioli – Tem que ser menos atleta.
Dominguinhos – O arrasta-pé é mais perigoso ainda, vige Maria!
Tacioli – Dominguinhos, ainda sobre a questão do Quarteto Novo. Você sofreu algum tipo de patrulhamento musical em algum momento da sua vida?
Dominguinhos – Teve. Na época da revolução, os próprios colegas tinham mania de ficar podando você se você gostasse de alguma figura. Por exemplo: tive uma polêmica muito forte com Fagner na época em que Collor foi presidente. Eu já conhecia o Collor. Eu, Luiz Gonzaga, a gente se conhecia. E ele e eu apoiávamos Collor. Fiz muito show pra ele. Ganhei muito dinheiro tocando lá pelo Nordeste. Ele nem ia aos comícios. Eu ficava tocando do trio e Fagner não gostava disso. Eu dizia: “Mas, rapaz, a gente vive num país democrático, como é que você tem que dizer o que é que eu devo gostar ou não? Eu gosto, você gosta do outro, mas eu não tenho que ir atrás de você, entendeu? Isso é uma coisa que tem que ser respeitada”. E Geraldinho Azevedo sofreu muito na unha desse povo, sofreu muito mesmo. Um dia desse ele estava contando essa história. E assim, muitos, né? Mas o fato é que com o surgimento de Lula mais político, o meio musical se ouriçou muito para o lado dele. Eu fui um dos caras que ele nunca procurou, mas eu fazia (show pra ele) – eu, Gonzaguinha, Bete Mendes, Moraes Moreira – lá no ABC de graça pra arranjar dinheiro pro PT. Eu nem sabia que o PT estava sendo formado. Eles me chamavam pra eu ir lá tocar. Aí tinha aquelas coisas todas de sindicato. Até Gonzaguinha fazia um show no Tuca. E no final do tinha uma faixa escrita “PT saudações”. Eu digo: “Olha só!”.

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Pavan – Mas você não sabia dessa coisa de partido?
Dominguinhos – Eu sabia que ele estava fazendo…
Pavan – Você sabia que era uma coisa política.
Dominguinhos – Sabia que era coisa política, agora que eles estavam…
Pavan – Porque os shows do Primeiro de Maio no Rio, você participou também, né?
Dominguinhos – Participei de tudo. Eu vivia enfurnado naquele Riocentro. Eu, o Chico… No dia da bomba, eu devia estar lá dentro tocando. [ri]
Pavan – Então, a sua participação lá era pela amizade com os músicos ou pela política?
Dominguinhos – Não, era pela amizade. “Bora, Dominguinhos, vamo lá, dá uma força aí!” E eu ia.
Tacioli – Mas, Dominguinhos, quando eu falei do patrulhamento, referia-me a um patrulhamento mais musical, como se nos anos 50 ou 60, período pós-bossa nova, quando você começou a tocar, o meio artístico dizia “Ah, isso não é legal!”…
Dominguinhos – O Tom e o João Gilberto. Uma turma enorme…
Tacioli – Pois havia o patrulhamento sobre a guitarra, de que não podia tocar guitarra, tinha que ser com violão. Você sofreu algum tipo de…
Dominguinhos – Não, não, não. A gente só tinha que tocar bem.
Manu Maltez – Porque aconteceu isso com a sanfona, né?
Dominguinhos – É.
Manu Maltez – Que era um instrumento muito usado e depois, a partir de um momento, ela quase sumiu…
Dominguinhos – Não, ela foi subjugada. Mas não tinha o patrulhamento de você tocar assim ou assado, não tinha, não. Era uma coisa muito livre, sempre foi. Era uma época em que a gente estava muito novinho. Como qualquer jovem, eu gostava muito de rock, tocava muito rock na sanfona.
Tacioli – Você gostava, Dominguinhos?
Dominguinhos – Gostava. Acompanhei muito a carreira do Beatles, desses mais velhos que estão todos ainda aí, graças a Deus. E sempre me dei bem, ninguém nunca disse faz assim ou faz assado. Tinha aquele grupinho da bossa nova, que era lá de Ipanema, aquele pessoalzinho que tem muita gente aí que participou e que ninguém toca no nome, como é o caso do Johnny Alf, né, que era um dos grandes compositores dessa época. Ele já vinha antes tocando bossa nova.

No Teatro Dulcina (RJ), Johnny Alf abre sua turnê com Zezé Motta, na temporada 1978 do Projeto Pixinguinha. Foto: Funarte

Tacioli – E você acompanhava o Johnny Alf?
Dominguinhos – Não, não…
Tacioli – No sentido de assisti-lo em uma boate…
Dominguinhos – Ah, sim, de saber a música dele…
Tacioli – E escutar…
Dominguinhos – Gravei música dele em um disco vinil que eu fiz, Dominguinhos e a maravilhosa música brasileira. Tinha música dele, tinha música de Gil, de Caetano, de Chico. O Amilson Godoy fez os arranjos.
Tacioli – E qual era a marca, o RG, a coisa mais importante da música do Johnny Alf pra você?
Dominguinhos – Era a harmonização dele, era muito bonita, as melodias que ele fazia cantando era muito profunda. Johnny Alf merecia uma melhor sorte no meio musical, porque realmente foi um dos grandes baluartes…
Tacioli – Pouco reconhecido…
Dominguinhos – Muito pouco.
Tacioli – Você acha que ele sofreu muito preconceito…?
Dominguinhos – Não, ele tinha um jeito próprio, ele só gostava de tocar naquelas boatezinhas, aquelas coisas, fazia os showzinhos dele por ali. E eu acho também que ninguém abria muito pra ele. De que adiantava você abrir um bocado de coisa, de perspectiva, e ele não querer, né? Ele tinha essa coisa com o pessoal da noite, vivia a noite direto.
Tacioli – Faltou ele participar mais da turminha da bossa nova?
Dominguinhos – Talvez isso aí, mas ele tinha o trabalho dele, não precisava desses caras. Ele já fazia uma música de altíssima qualidade e só tocava o que era dele mesmo. E todo mundo tocava as coisas dele, que ele harmonizava bem. Muito bom o Johnny Alf.
Manu Maltez – Dominguinhos, a gente nota em você essa coisa de agregar que faz parte do seu jeito. Até em discos, de gravar com outras pessoas. Mas tem um cara que me lembra um pouco esse seu jeito sereno que é o Paulinho da Viola. Imagino um disco de vocês dois…
Dominguinhos – Nós fizemos um show juntos aqui em São Paulo. Ele, o Ney Matogrosso, numa produção de Myriam Taubkin. Tivemos juntos no teatro. Ele cantou “Asa branca” e outras coisas. Eu acompanhei.
Manu Maltez – Até pra quebrar essa história de que sanfona não entra no samba…
Dominguinhos – Gravei à beça.

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