gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 4/17

Na hora de improvisar fica tudo meio parecido

Pavan – E o aprendizado musical que você tem do Gonzagão, você perguntava coisas pra ele, como é que ele fazia alguma harmonia? Como era esse negócio, era só olhando?
Dominguinhos – Era só olhando, (ele) não passava nada, não. Ele só tratava de tocar, eu tava de olho e pronto. Eu tocava junto com ele. Eu sabia as músicas todas. Se ele largasse de tocar, eu estava firme ali, sabia as introduções, sabia o jeito dele puxar. Em algumas gravações, até perguntei a ele: “Seu Luiz, o senhor quer que eu toque com sua sanfona, assim já fica com o seu som?”. Ele gostava da Todeschini, da Universal, que era mais leve, feita no Rio Grande do Sul; era mais aberta pra tocar forró, tocar o baião, porque ninguém falava em forró, era só baião e xote. E aí, ele: “Não, pode tocar com a sua mesmo, não tem problema, não!”. Mas eu tocava também com a dele em gravações, ficava o som dele. Rapaz, era muito interessante!
Tacioli – Mas ele tinha uma relação de apego com o instrumento?
Dominguinhos – Não, não!
Tacioli – Era desapegado.
Dominguinhos – Era do mesmo jeito que eu sou. Agora mesmo emprestei minha sanfona – que tenho há mais de 20 anos – pra Mestrinho. Ele vai viajar com Gil, fez um show lá no Uruguai, voltou, tocou aqui no Canto da Ema e ficou mais uns dias. A (sanfona) dele não estava pronta. A minha sanfona eu não dou, não vendo, não empresto. Emprestei porque esse desapego é muito importante, porque não pode ficar achando que ninguém não pode tocar no seu instrumento. Por mim pode tocar, quanto mais toca, mais macia fica. [risos]
Tacioli – E sempre foi assim, Dominguinhos, esse desapego que você tem?
Dominguinhos – Sempre, sempre.
Tacioli – Mesmo criança quando você tinha um brinquedo ou panderinho que era seu?
Dominguinhos – Eu tocava pandeiro! Eu tocava pandeiro, meu irmão mais novo, Valdomiro, que estava em Nilópolis desde que chegou no Rio, e o Moraes, que era o mais velho, que tocava o acordeom de oito baixos. Aí ele largava, eu pegava, o outro também pegava. Ninguém tinha essa história.
Tacioli – E os Três Pinguins?
Dominguinhos – Também! [ri]
Tacioli – Era o nome do grupo, né?
Dominguinhos – Era, Os Três Pinguins.
Tacioli – Por que Três Pinguins?
Dominguinhos – É. Pinguim lá no Nordeste não vai se dar bem. [risos] Foram uns três, quatro anos, só. A gente era bem arrumadinho, tudo direitinho, gravatinha borboleta, jalequinho, parecia um pinguim mesmo.
Manu Maltez – Fraquezinho…
Dominguinhos – Calça preta, aquelas bluzinha assim, gravatinha borboleta. [ri]
Manu Maltez – Quantos anos você tinha?
Dominguinhos – Eu tinha nove anos, Moraes, 11, e o Valdomiro tinha uns três anos a menos do que a gente.
Manu Maltez – Dominguinhos, a gente entrevistou há um mês mais ou menos o Heraldo do Monte, que inclusive toca com você há muito tempo…
Dominguinhos – Ave Maria!
Manu Maltez – E a gente conversou um pouco sobre improvisação. Ele falou da época em que eles formaram o Quarteto Novo…
Dominguinhos – Foi…

Na sanfona, o jovem Hermeto Pascoal em disco de 1958. Foto: reprodução

Manu Maltez – (…) Que eles ficavam se policiando para não fazer o improviso jazzístico, mas de ter um própria, de buscar uma linguagem…
Dominguinhos – Brasileira.
Manu Maltez – (…) Brasileira e até nordestina de improvisação. Mas com você parece que isso é mais natural. Eu queria saber como foi essa época, se você improvisava de um jeito mais jazzístico antes, ou se isso foi uma coisa muito mais natural do que pra foi ele nessa época?
Dominguinhos – É, ele tocou muito com Hermeto, né? E o Hermeto não tem barreira. Quando conheci Hermeto lá no Rio de Janeiro tive mais conhecimento. Ele era do Regional do Pernambuco, que tocava pandeiro. Fez um disco antológico chamado Subindo o morro. [n.e. Na verdade, trata-se do LP Batucado no morro, 1958, de Pernambuco do Pandeiro e seu regional] Ele, de chapeuzinho de palha na cabeça, chapeuzinho que Joel de Almeida usava. Todos estavam com aquele chapeuzinho. Ele estava lá de sanfoneiro, tocando cada choro arretado. Eu tenho esse disco lá no Rio de Janeiro, na casa de Janete, que foi a minha primeira esposa. E aí o Heraldo tocou muito com ele, com Airto Moreira, com muita gente de gabarito. Mas eu não prestava muito atenção a isso, porque acho que na hora de improvisar fica tudo meio parecido. Às vezes eu assisto a uns shows de grandes músicos americanos, ingleses, que ficam improvisando, um larga, outro pega, um larga, outro pega, e pra mim tá tudo meio parecido. [risos] Ai, meu Deus, me dá uma agonia, começo a improvisar um pouquinho, já paro, aí boto logo outro pra tocar. [ri] Me dá uma certa agonia, sabe, o cara fica “tim tim tim” o tempo todo.
Manu Maltez – Mas o improviso é uma característica sua. Até em suas gravações tem (improviso) sempre atrás de você cantando, e (parece que) é o seu jeito de acompanhar…
Dominguinhos – É…
Manu Maltez – Vamos dizer, que tem um arabesco o tempo inteiro de ideias melódicas, até rítmicas que você…
Dominguinhos – É, você vai adornando o pavão…
Manu Maltez – (…) Que você cria embaixo um tecido vivo e que é muito rico e difícil de ouvir uma coisa assim.
Dominguinhos – Tem uma coisa importante disso que você está falando é que tocando com grandes músicos você só progride. E eu sempre toquei com Heraldo, com Cláudio Bertrami, que era um extraordinário contrabaixista, depois do Cláudio com Arismar do Espírito Santo, que é outro. O filho está no mesmo caminho, o Thiago. Então eu dei muita sorte nessa parte, porque aqueles homens tocando… Chicão, o Chico Midori, baterista, que era de um grupo com Amilson Godoy. Toquei com essa gente toda. Você dá o caminho, rapaz, e eles fazem aquilo aí ficar redondo, entende? É a vantagem de tocar com grandes músicos. Você vai dando o caminhozinho, quando dá fé, a coisa está toda bonita harmonicamente, sabe?

Capa do LP Domingo Menino Dominguinhos, de 1976. Foto: reprodução

Capa do LP Domingo Menino Dominguinhos, de 1976. Foto: reprodução

Manu Maltez – Tem um discurso oficial da música pop, de que na canção não pode ter muita coisa embaixo, tem que ser uma batida clara com alguém cantando. E a sua música prova que não precisa ser nada disso, porque elas são cantadas e está acontecendo toda essa festa embaixo.
Dominguinhos – É, é lógico.
Manu Maltez – E uma coisa não atrapalha a outra, né?
Dominguinhos – Não, atrapalha nada. Eu dei muita sorte. Toquei muito com Toninho Horta, que é um grande instrumentista.
Manu Maltez – Aquele disco Dominguinhos Menino, né?
Dominguinhos – É, também fiz um disco de São João, coro e sanfona, solando e ele era o guitarrista. Tocou o disco todo fazendo base e tocando do jeito dele, né? Toninho faz um dó que nem parece que é dó. [risos] Negócio sério. [risos]
Manu Maltez – O Luiz Gonzaga disse naquela gravação “Quando chega o verão”, que você urbanizou o forró… Como você vê isso?
Dominguinhos – Eu acho que ele quis encher minha bola, porque ele é que estava aqui no batente, no asfalto, trazendo tudo do Nordeste pra cá. Mas eu acho que pra encher a minha bola, ele disse que eu urbanizei o forró, mas foi ele mesmo (que o urbanizou). [risos]

Tags
Dominguinhos
de 17