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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 3/17

Gonzaga me chamava de filho postiço

Pavan – Dominguinhos, você falou que não era somente “Asa branca”. A comparação que sempre fazem em relação à sua música é com a de Gonzaga, que é a mais óbvia.
Dominguinhos – É.
Pavan – Só que eu acho que tem uma coisa de harmonia e de desenhos melódicos quando você acompanha alguém que é muito além de Gonzaga. Tirando o Gonzaga, quais são as outras referências?
Dominguinhos – Além de Gonzaga ser um harmonizador muito bom para a época dele – algumas músicas ele toca em acordes, toca acompanhando muito bem –, ele deixou um manancial de valsas e choros, formidável, difíceis de solar. Nessa época Sivuca estava chegando no Rio, Hermeto (Pascoal) também estava ali. Todos eram meus amigos. Do Hermeto eu já conhecia o seu irmão; eu tocava na Rádio Difusora de Garanhuns, que hoje em dia é o Jornal do Comércio, e o irmão de Hermeto, o Zé Neto, tocava no regional da Rádio Difusora, a rádio jornal. E aí a gente fez amizade nesse tempo. Depois, Zé Neto veio pro Rio, eu também… Continuamos amigos. Ele morreu cedo. Dizem que o albino não segura muito a idade. Mas Hermeto já tem 70 e lá vai e tá aí, parece um garoto. Por falar nisso, lá perto de Brejo da Madredeus, em Pernambuco, tem uma aldeia só de albino. As coisas mudaram muito, né? Sei que peguei Sivuca, peguei Orlando Silveira, que foi com quem mais eu tive assim contato, com quem aprendi alguma coisa de música. Ele tocava muito e me deixava tocar no lugar dele no Regional do Canhoto, que era o melhor regional do Rio de Janeiro, com Dino no sete cordas, Meira no de seis, Gilson no pandeiro, Canhoto…
Tacioli – Cavaco…
Dominguinhos –(…) No cavaco e Orlando e Altamiro Carrilho eram os solistas. Aí o Orlando arrumava um arranjo pra fazer…. “Ô, pode fazer em meu lugar?” E o pessoal me aceitava bem, sabe? O Orlando me abriu muitas portas; ele acompanhava muito Gonzaga, fazia arranjo pro Gonzaga. O Gonzaga sempre gostou de abrir o leque pra todo mundo. Tinha vez que a gente gravava de três sanfonas: ele, Orlando e eu, três acordeons. Quando comecei a acompanhar Gonzaga tinha 16 anos. Ele me botou pra tocar “Forró no escuro”. Gonzaga foi realmente a maior sombra que eu tive pra descanso. [risos] Eu gostava dele e estava lá todo dia, fazendo mandado, nem que não fosse, ia pro estúdio com ele, ele ia dirigindo e eu carregava sanfona, ficava por ali… Hoje é o que os meninos fazem comigo.

Mestre e aprendiz: Luiz Gonzaga e Dominguinhos em 1957. Foto: Ed. Globo

Tacioli – Você se vê nessa mesma troca que o Gonzaga teve com você, de você para com os meninos?
Dominguinhos – Ah, tem. Sempre tem um rapazinho que tá começando, tem alguma chance de fazer um número, uma coisa, pode ir, acho ótimo, acho bonito.
Tacioli – Qual é uma característica, uma mania do Luiz Gonzaga que ninguém sabe?
Dominguinhos – O Gonzaga era muito estourado, sabe, ele não deixava nada pra amanhã. Quando anunciei que ia casar, eu estava com 17 anos, bicho, já ia ser pai. A Janete está lá em Inhaúma hoje em dia. Ela foi a minha primeira mulher. A gente começou a namorar com 14, 15 anos e com 16 ela já estava grávida. Aí fui comunicar a ele. “Seu Luiz, eu vou me casar!” Ele deu um murro na mesa. “Você é doido, rapaz! Você é doido! Acabou-se, você acabou-se pra mim, pode ir se embora e não me apareça mais!” “Mas, Seu Luiz, …” E ele: “Não, senhor, não tem conversa! Casei com 34 anos e quase não caso. Agora vem tu com 17, rapaz, você é doido, vá se embora!”. Aí eu fiquei calado e fui embora. A Janete já estava com um barrigão. Aí nós casamos no civil e ele foi o padrinho. Ele e Dona Helena. [risos] Foi o padrinho. Depois, ele tinha uma fazenda chamada Asa Branca, que está até hoje em Miguel Pereira, linda. Ele mandou a gente passar a lua de mel lá, imagine, lua de mel. E eu fiquei lá com a Janete bem uns oito dias. Mas eu estava sempre com ele, viajando. Ele era uma figura bastante polêmica nas coisas que ele não gostava, porque não deixava pra depois, sabe? Ele falava logo o que estava incomodando. Não deixava ninguém sem saber que ele estava incomodado com aquilo ali. Principalmente a figura que tinha aprontado, entendeu? Dirigindo levei muito grito dele. A primeira viagem que eu fiz foi numa Kombi, aquela kombizinha que não tem nem janela, o pessoal botava o dedo…
Tacioli – Somente havia o quebra-vento?
Dominguinhos – É, só o quebra-vento…
Tacioli – E você que pilotava a Kombi?
Dominguinhos – É, fui dirigindo pro Nordeste. Depois, no outro ano com uma rural. Uma rural zero quilômetro que ele havia comprado. Ele tinha feito o “Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, o primeiro livro dele. [n.e. Escrito pelo amigo Sinval Silva e lançado originalmente em 1966, O sanfoneiro do Riacho da Brígida  Vida e andanças de Luiz Gonzaga – O rei do baião é considerado a primeira biografia do músico pernambucano]
Tacioli – (A rural) já tinha janela, né?
Dominguinhos – A rural era bacana, me lembro até hoje, era verdinha. Era carro bom mesmo. Nós fomos pro Nordeste levando aquele livro. Fizemos uma novena na terra dele – ele é dali de Araripe, não do Exu, é dez quilômetros de lá. É onde ele nasceu e Seu Januário vivia. Aí a gente foi fazer alguma coisa, porque ele era muito inquieto. “Vamos lá em Exu!” E eu: “Vamos!” Na minha volta – eu vinha dirigindo bem devagarzinho, a estradinha de terra – um porco cismou de atravessar. Quando chegou no meio (da estrada), ele voltou. Eu, “bah!” em cima do porco. Mas eu tinha dado uma buzinadinha, “tum-tum”…
Pavan – A buzinada livrou a consciência.
Dominguinhos – Não! E o Gonzaga do outro lado: “Tá vendo por que você matou o porco? Porque você não sabe nem buzinar!” [risos] Aí eu dava era risada, porque não tinha outra coisa pra fazer.

Tacioli – Boas lembranças dessas viagens?
Dominguinhos – Muito boas, aprendi demais. Ele tocava muito sanfona com um microfone só em cima de um caminhão. De dia eu fazia a propaganda na cidade, uma cornetinha em cima da rural, e às sete horas ele se apresentava. E eu fazia a abertura, tocava bossa nova, tocava bolero, tocava Roberto Carlos, essas coisas. Que esse Roberto já é véinho, viu, porque não é de hoje que ele faz sucesso.
Pavan – Você já cantava nessa época?
Dominguinhos – Eu já cantava, porque ele tinha botado na minha cabeça que eu devia cantar. Ele disse: “Olha, Neném, o negócio é o seguinte: enquanto eu só toquei, não consegui agradar completamente. Aí comecei a cantar, mesmo com minha voz assim – o pessoal não gostava muito, os diretores de rádio não deixavam eu cantar, nem ninguém deixava eu gravar”. E naquela época você tinha uma música ou duas boas, você ia para sua gravadora e gravava. Não gravava dez, 12 músicas, não! Era uma ou duas que você tinha, ia lá e deixava.
Tacioli – No 78 (rotações) mesmo?
Dominguinhos – É o 78, depois o vinil, né, e teve o 45. Aí Gonzaga começou a se dar bem pra gravar. Antes os caras não queriam que ele gravasse, não queriam que ele cantasse. Na Rádio Nacional ele era acompanhador. Tinha até o pai de Edu Lobo, Fernando (Lobo), que era o diretor da Rádio Nacional nessa época. Ele até botou um papel na parede: “Luiz Gonzaga é músico acompanhador, não pode cantar!”. E ele foi vencendo isso tudo, mas ele passou muito perrengue também. Quando eu me criei lá junto com ele, Gonzaguinha (1945–1991) era menino ainda, mas não morava com ele. Gonzaguinha morava com a mãe lá no Morro de São Carlos. Depois é que ele começou a estudar e se formou em Economia. Gonzaga pagava o estudo dele. Mas nunca morou com ele. Até que ele saiu do morro e foi direto morar com Seu Luiz. Os dois estavam sempre num pé de guerra. Se juntavam, separavam, juntavam e separavam. Ele recebia os direitos do Gonzaga para pagar os estudos. Aí quando fazia uma raiva, o Gonzaga (dizia): “Agora você vai se virar sozinho!”.
Tacioli – Fechava a torneira.
Dominguinhos – [ri] O Gonzaguinha era meio comunista, assim, aquela coisa da esquerda. E ficou tuberculoso uma vez, quase morreu. Aí o Gonzaga o chamou e disse: “Olhe, você não tem nem corpo pra aguentar o repuxo. Não tome cuidado, não! Eu vou lá só levar o cigarro!” [risos]
Tacioli – E você se dava bem com o Gonzaguinha?
Dominguinhos – Demais, fizemos música juntos, tudo. A gente se criou junto ali.
Max Eluard – Você se sentia meio filho do Gonzagão também?
Dominguinhos – É, porque acho que eu era o sanfoneiro que ele gostaria de ter. O Gonzaguinha era um violeiro, bom instrumentista, e sempre escrevia muito. E eu me lembro que uma vez em Exu, o Gonzaguinha tava lá e começou a cantar umas coisas dele. Eu digo: “Ô, Luiz, porque você não toca violão no show? Você toca muito bem”. “Ah, você acha que eu toco bem?” “Acho, rapaz, e ninguém vai saber acompanhar as suas coisas como tu mesmo!” Aí ele passou a tocar o violão, rapaz, e tinha uma harmonia bonita. Mas o Gonzaga me chamava de filho postiço, acho que por conta disso mesmo.

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