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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 2/17

Eu frequentava muito a casa do Garrincha

Max Eluard – Mas já foi melhor tocar na noite, em boate, em casas (noturnas)?
Dominguinhos – Em boate foi, mas tá tudo acabado, no Rio de Janeiro, aqui (em São Paulo). Eu toquei muito na noite do Rio, nos dancings; toquei nas boates quase todas no Rio de Janeiro, em Copacabana, Leblon, Ipanema, tocava em tudo quanto era lugar. Como músico mesmo, de dez às quatro da manhã, sabe?
Tacioli – Que tipo de música você tocava?
Dominguinhos – De tudo. Era época de chachachá, mambo, beguine, bolero. E eu toquei com alguns chefes de orquestra que, eram chefes de orquestras e cantavam o mambo, sabe?! Era lindo naquele tempo. Aí eu tocava música americana. A gente improvisava muito. Fazia tudo isso, né?
Tacioli – Isso era anos 50, né, Dominguinhos?
Dominguinhos – É isso aí! Cheguei (no Rio) em 54, o Maracanã tinha sido inaugurado em 50, né? Aí eu fui, até como um botafoguense, assistir ao Vasco e Flamengo. No Maracanã cabia umas 200 mil pessoas naquele tempo. Fui ver dois grandes times.
Tacioli – Quem ganhou esse jogo?
Dominguinhos – Eu não me lembro, não. Mas eu só me lembro que era um clássico extraordinário. Aí depois eu fui ver o Botafogo jogar com Garrincha. Aí, pronto, fiquei ali mesmo.
Manu Maltez – Foi aí que você virou botafoguense?
Dominguinhos – Foi… em 54.
Tacioli – Você gostava de ir aos jogos…?
Dominguinhos – Sempre gostei, jogava também. A gente tinha um time em Nilópolis chamado Santos Futebol Clube.
Pavan – Modesto, hein, modesto! [risos]
Dominguinhos – Tudo de branco, os ‘negão’ tudo de branco. [risos] Eu me criei em Nilópolis, né?
Manu Maltez – Você jogava em que posição?
Dominguinhos – Ponta-direita.

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Tacioli – Você tinha uma jogada que era sua marca, Dominguinhos?
Dominguinhos – Eu corria muito, tinha bom equilíbrio, não caía a toa. [risos]
Tacioli – Mas era um ponta-direita goleador?
Dominguinhos – Era, eu fazia muito gol de falta. Gostava de bater falta, batia bem. Geralmente era meio perigoso.
Max Eluard – Jogava na força ou colocado?
Dominguinhos – Não era força, não, era colocado. Aí o Mané conheci em 58.
Manu Maltez – O Mané Garrincha?
Dominguinhos – É. Eu tocava numa gafieira chamada “Seu Defeito”, em Bento Ribeiro. Tinha acabado a Copa; ele foi lá com a vedete da época, Angelita Martinez. Era uma mulher muito bonita. Foi com ele… Era um baile que tinha três, quatro vezes por semana, só. E só entrava preto. Acho que o mais clarinho era eu mesmo, mas o dono era Joel, um cara que trabalhava no cais do porto. Eles eram muito elegantes, chegavam arrumados e tal, aí tiravam o revólver, botavam lá na gaveta, iam dançar e se divertir. A gente tocava, no domingo era mais cedo. Quinta e sábado. Era um gafieira no subúrbio do Rio.

Garrincha dribla Hilario em jogo do Brasil e Portugal, em São Paulo, 1962. Foto: reprodução

Manu Maltez – E o Garrincha dançava?
Dominguinhos – Não, não, ele foi lá ser homenageado. Eu já o conhecia. Ele olhou assim e disse: “Ei, o que você tá fazendo aqui?”. Eu digo: “Eu é que pergunto, meu amigo. Porque realmente você é que tá por fora”. Aí a gente já tinha amizade. Eu frequentava muito a casa dele com a Elza, na Rodrigo de Freitas. Uma mansão linda! Depois eles venderam essa casa e se mudaram pra Ilha do Governador. Aí ele já estava muito bichado também. O joelho tomou muita injeção. Naquela época os times brasileiros que tinham grandes craques jogavam muito lá fora, e o Botafogo só ia por causa dele.
Manu Maltez – Todo mundo queria vê-lo em tudo quanto é canto do mundo.
Dominguinhos – É, todo mundo.
Tacioli – E como era o Mané nessa proximidade que você tinha com ele, Dominguinhos?
Dominguinhos – Muito simples, muito bom, uma pessoa de coração bom, sabe? Sem frescura, nada.
Tacioli – Era uma figura engraçada?
Dominguinhos – Era, muito brincalhão, só vivia de molecagem.
Manu Maltez – E ele gostava de música mesmo ou gostava mais da Elza?
Dominguinhos – Ele gostava, e a Elza era uma sambista… Era e é, né? Taí lutando até hoje. Acompanhei muito ela na época de rádio, porque eu tocava na Rádio Nacional, tocava na Rádio Mayrink Veiga, que a revolução fechou [n.e. Referência ao Golpe Militar de 1964]. Toquei na Tupi, Rádio Mauá, Rádio Tamoio. Tudo isso era ao vivo. Eu tocava em todas essas emissoras, mas só tinha contrato com a Nacional. Aí me dei muito bem nessa época, as novidades eram constantes, musicalmente falando. Hoje em dia não tem nada.
Tacioli – Eu não sabia de sua proximidade com o Mané. Ele morreu em 83, né?
Dominguinhos – É, morreu novo… [n.e. Mané Garrincha, a “Alegria do Povo”, foi bicampeão mundial (1958 e 1962). Morreu em 1983, aos 49 anos de idade, vítima de cirrose hepática decorrente do alcoolismo]
Tacioli – Você acompanhou bem sua trajetória, né, de 58 a 83…
Dominguinhos – Acompanhei bastante. A gente estava sempre juntos. Ele era uma pessoa muito educada, muito legal. Muito brincalhão, mas educado, não maltratava ninguém, não tinha cara feia, essas coisas, só vivia brincando. Não gostava de treinar. O futebol era mais artístico que tínhamos no Rio de Janeiro, jogadores assim de um quilate que a gente não vê hoje. Hoje qualquer um é craque, qualquer um. Naquela época tinha Didi, Quarentinha, Nilton Santos, Garrincha, Joel – que era um ponta do Flamengo –, Índio – que era um centroavante do Flamengo –, Rubens, que era meio gol quando ele batia falta…. Todos tinham jogadores, Ipojucan, Danilo, Barbosa, goleiro do Vasco. Manga no Botafogo. Rapaz, era um salseiro. Era coisa bonita de se ver esses caras jogando. Agora o futebol está muito pobre.
Manu Maltez – Você acompanha o Botafogo ainda?
Dominguinhos – Acompanho. Levou duas pisas agora. [ri]
Manu Maltez – Levou uma vareada ontem. [risos]
Dominguinhos – O time já é ruim, ainda bota o terceiro time. O que é que ele quer é apanhar de muito mesmo.  [n.e. O time carioca do então técnico Caio Júnior foi eliminado da Copa Sul-Americana no dia 26 de outubro de 2011 ao perder de 4 a 1 do Independiente Santa Fé, em Bogotá, Colombia]
Pavan – Você acha que o título brasileiro esse ano não chega?
Dominguinhos – Eu acho que não! O Botafogo não chega, não. [n.e. O título do Campeonato Brasileiro de 2011 ficou com o Corinthians]
Manu Maltez – Infelizmente.
Dominguinhos – Eu sou corintiano aqui em São Paulo. Mas, na verdade, sou mais botafoguense pela trajetória. E no Recife sou Sport desde garotinho também.
Tacioli – Mas dá pra dividir o coração?
Dominguinhos – Não! Quando joga Botafogo e Corinthians, por exemplo, torço sempre pelo empate. [risos]
Tacioli – E com o Sport?
Dominguinhos – O Sport, não, eu quero que ganhe deles todos! [risos] Sabe por quê?
Manu Maltez – O Sport em primeiro lugar…
Dominguinhos – Porque o cabeça chata sempre foi muito maltratado aqui em São Paulo e no Rio. “Esses comedores de macaxeira, chegam aqui morrendo de fome!”
Max Eluard – Como foi isso, você sofreu preconceito quando chegou no Rio?
Dominguinhos – Ah, sofri, mas Gonzaga sofreu muito mais. Luiz Gonzaga sofreu muito preconceito no Rio para se estabelecer. Mas eu não, já peguei o caminho meio aberto. Teve algum preconceito e tal…
Tacioli – Você lembra de algum, Dominguinhos, algum que te marcou?
Dominguinhos – Aqui tinha casa chamada Garitão.
Tacioli – Garitão?
Dominguinhos – É, na Avenida São João, uma casa grande, e tinha um grupo tocando rock, outro tocando jazz, outro tocando bossa nova. Tudo dentro daquela casa, tudo dividido. E um dia me levaram, eu a Anastácia e Jorge Paulo, o Bandeirante do Norte, que é um paulista que fazia somente programa de nordestino. [n.e. Chapéu de Couro, programa radiofônico do cantor e produtor artístico Jorge Paulo] Ele trabalhava na Bandeirantes também. E aí ele arranjou um contrato pra me levar e a Anastácia, que é minha parceira. E eu fui, um zabumbeirinho, um triângulo. Rapaz, quando anunciaram a gente, choveu papelzinho, sabe como é? Aviãozinho e vaia! Eles não queriam saber de música nordestina. Nessa época eu já tinha feito o “Lamento sertanejo”, mas não tinha a letra ainda. Toquei o “Lamento sertanejo” e pelo meio fiz um improviso. Aí eles começaram a ver que não tava ali nem um cabeça de bagre, sabe, que eu não tava ali somente pra tocar “Asa branca”. Tinha a veia do instrumentista, (veia) jazzística, que a minha vida no Rio era tocar essas coisas mesmo. E aí eles foram aceitando aos pouquinhos e a gente pode trabalhar em paz.
Manu Maltez – Você teve que ganhar o público ali na marra.
Dominguinhos – Foi na sanfona, na sanfona mesmo.

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