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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 16/17

Não tenho medo do povo

Tacioli – Dominguinhos, Sivuca teve um namoro com a música clássica…
Dominguinhos – Tocou muito.
Tacioli – Você já se aproximou dela, já teve interesse em ter esse flerte com a música clássica?
Dominguinhos – Não, não tive, não! Cada macaco no seu galho. [risos]
Pavan – Mas você ouve?
Dominguinhos – Ouço… Tenho vários colegas que tocam peças e adoro ouvi-los tocando.
Manu Maltez – E o que você ouve em casa?
Dominguinhos – Eu só escuto esses cantores daqui, esses manjados, Djavan, Chico [risos] e alguma coisa do Emílio Santiago, que é cheio de bossa, canta muito! E a música nordestina…Tem um compositor complicado lá da Paraíba, de Taperoá. Ele é muito bom. O nome dele é Galeguinho, mora em João Pessoa. Mas é muito complicado! Ele, Elomar, Vital Farias… Outro dia ele (Vital) mandou todos os seus discos. Estou escutando as coisas dele. Ele tem coisa bonita demais. Vital Farias, extraordinário. Geraldo de Azevedo: gravei outro dia no disco dele, que fez todo de São Francisco, né? E eu cantei uma música com ele falando do (rio) São Francisco, em que toquei minha sanfoninha…
Tacioli – Que é mais recente, né?
Dominguinhos – Que é mais recente. Tem umas coisas que eu escuto, de uns colegas que realmente valem a pena: quando Alceu e Zé Ramalho dão uma enveredada para o lado nordestino… [risos]
Manu Maltez – Ele acabou de gravar um disco só com Beatles.
Dominguinhos – É, eu sei… [risos]
Tacioli – E você gosta dessas experiências do Zé Ramalho?
Dominguinhos – Eu gosto. Ele é um intérprete, além de compositor, que pode tentar tudo.
Manu Maltez – E ele fez: gravou tudo com zabumba, com sanfona, viola…
Dominguinhos – Pois é, vai tentando fazer uma coisa diferente para ver se o pessoal presta atenção. [risos]
Tacioli – Mas isso é uma coisa importante para o artista?
Dominguinhos – A inovação?
Tacioli – Pensar sempre a renovação?
Dominguinhos – É. E é muito! É bom que as pessoas possam sempre fazer essas coisas. Eu dou o maior valor. Eu não tenho coragem, sabe, mas o cara que tem coragem de sair medindo essas coisas e entrar no mercado, tem condição… Ah, tomara que faça sempre!
Tacioli – Pensando nessa questão que a gente colocou agora, Dominguinhos, do artista se renovar, onde você se renova?
Dominguinhos – Rapaz, eu não sei dizer isso, não! Eu não sei responder isso, porque é uma coisa que fica mais na ótica de vocês mesmos, se tem alguma coisa que estou fazendo que não está no beabá. Eu mesmo falar fica estranho… [risos] Ai, meu Deus do céu!
Tacioli – Dominguinhos, parece que você gosta muito da voz, né? Você falou de vários cantores, Djavan, Emílio Santiago… Uma turma que tem uma voz bem…
Dominguinhos – Marcante.
Tacioli – (…) marcante. Qual foi a sua reação quando você ouviu João Gilberto? Quando ele lançou o “Chega de saudade”, você havia chegado no Rio havia pouco tempo.
Dominguinhos – Pois é, na minha época de Rádio Nacional ele estava lá. E o interessante é que o João Gilberto cantava pra fora. Ele não tinha aquela [imita] “ei, ei, ei”. Não, o violãozinho dele cantava pra fora. Depois ele começou a sussurrar… [risos] Esquisito! [risos] Ele e o Roberto Carlos… Roberto Carlos cantava bossa nova também, gostava de samba… Mas o João… Um dia, rapaz, ele estava tocando na Rádio Nacional com violãozinho dele. Aquele “papapa”… Aí um navio apitou – porque ali é o cais do porto, onde ficava a Rádio Nacional, na Praça Mauá. Ali tem navio de todo porte. E um navio deu um estrondo daquele, uma buzinada possante. Ele parou e disse: “Se apitar de novo, eu não toco mais!”. [risos] O navio vai saber que ele estava cantando? [risos] Ele gosta do meu trabalho, fala sempre com um rapaz, o Raul Henrique, deputado federal lá em Pernambuco. Ele liga pra ele e fala duas, três horas na madrugada. Mas não encontra com ele! É assim…
Tacioli – E o João nunca ligou pra você, Dominguinhos, para conversar de madrugada?
Dominguinhos – Não, não… Ele ligava para Toquinho para encher o saco dele. O Toquinho que contou. Ele ligava todo dia e dizia: “Você não tem ideia do trecho daquele samba?”. Aí cantava no telefone pra ele… “Você não tem ideia do que você fez aqui!” E cantava o trecho… Aí Toquinho disse que teve um dia que não estava muito bom da cabeça e mandou o João Gilberto para aquele lugar. “O senhor me respeite! Está pensando que eu só tenho essa música, rapaz, que só fiz um trechinho?! Tá maluco?!” [risos] Tem muita história interessante de João Gilberto. Tem uma que ele vai pra Juazeiro, em um teatro de lá. Ele só aparece no teatro de madrugada, quando não tem ninguém. Não quer ninguém veja…
Tacioli – Tem algum outro artista que era bem esquisitão?
Dominguinhos – Não, não teve. Todo artista é meio… Tem horas que eu mesmo me estranho… O Zé Ramalho: a gente todo ano faz um show em Aracajú, no São João de lá, o Forró Caju. Vou eu, Geraldinho (Azevedo), Zé Ramalho, Alceu… Aí eu faço a abertura e depois ele chega pra cantar. São dois palcos. Aí, salta do carro, entra no palco, pega a guitarra e toca; depois o carro já está com a porta aberta, ele não fala com ninguém… [ri] É esquisito, não é, não?
Tacioli  É esquisito… E a sua esquisitice, Dominguinhos?
Dominguinhos – Eu acho que eu não tenho coisas muito relativas, só se alguém contar… [risos] Eu não tenho muita coisa… Sou muito simples, não tenho medo do povo. Onde tiver gente e quiser tocar comigo, pode falar, pode pedir autógrafo, pode fazer o que quiser. É apenas um minutinho que você perde com um fã. E você está ganhando muita coisa! Eu não tenho essas besteiras comigo, não! Mas tem umas pessoas que você tem que respeitar esse lado deles, que são assustadas com multidão, né?
Pavan – Conta um sonho que você tem ainda, Dominguinhos…
Dominguinhos – Continuar tocando, fazendo um pouco de música e ir mais a frente um pouquinho. Enquanto puder ir tocando, eu acho que está de bom tamanho pra mim.

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