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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 15/17

"Tem bailarina?"

Tacioli – Quando nasceu esse medo de avião?
Dominguinhos – Eu andei por mais de 30 anos dentro de avião, do ruim ao melhor. E aí, o medo foi se acumulando.
Manu Maltez – Você gravou uma música que fala de avião, em que você está lá em cima pensando…?
Dominguinhos – Foi o Belchior.
Manu Maltez – Não, não, não é “Medo de avião”! É uma música, um xote, alguma coisa assim…
Dominguinhos – Sim, é do Germano Junior. [risos] Ele inventou uma música e eu fui gravá-la com ele. [n.e. “Eterno rei do baião”, do cantor, ritmista e radialista Germano Junior]
Manu Maltez – Mas a música não fala mal de avião.
Dominguinhos – Não, não! Ele é um bom compositor e eu fui lá gravar com ele, mas aquilo não tem futuro, não! [risos]
Pavan – Você falou da viagem de Kombi…
Dominguinhos – Sim, de rural.
Pavan – Em que você foi dirigindo a rural, né?
Dominguinhos – Foi!
Pavan – E hoje, você também vai dirigindo para os shows que faz no Nordeste?
Dominguinhos – Vou! Vou eu e outra pessoa.
Pavan – Eu queria saber qual é a logística disso, Dominguinhos [risos], porque você vai e demora pra chegar, não?
Dominguinhos – É, são três dias daqui a Recife (viajando) somente de dia, né? E à noite você se aquieta.
Pavan – Mas como é que você aproveita? Faz shows pelo caminho?
Dominguinhos – Não, não… Primeiro porque não dá tempo. Segunda viajando o dia todo, terça o dia todo, quarta um bom pedaço do dia, e aí você chega no Recife. Mas se você for para Fortaleza, você só chega no quarto dia, é mais longe. Belém também…
Pavan – Então, mas você aproveita para fazer vários shows?
Dominguinhos – Aí é que está o negócio: você ajeitar uma temporadazinha no Recife, em Fortaleza, ali no interior. Aí dá certo!
Manu Maltez – Mas você gosta de guiar, de viajar, pegar a estrada?
Dominguinhos – Gosto, eu sempre gostei.
Pavan – E você pilota, né?
Dominguinhos – Eu e mais uma pessoa.
Pavan – A revista Quatro Rodas devia contratar você, Dominguinhos! [risos]
Dominguinhos – É!
Pavan – (Para fazer) os guias, avaliar as estradas…
Dominguinhos – Falei até com a Toyota pra eles me arranjarem um legal pra eu fazer as viagens.
Manu Maltez – E você tem já um itinerário, você já sabe os lugares que são bons, em que você gosta de parar, né?
Dominguinhos – É. Então, vou num lugar certinho para parar, um lugar legal para dormir… Se a noite chega sete horas, oito horas, eu consigo enxergar e a gente adianta um pouquinho mais para poder dormir num lugar mais legal. Pelo menos para que você fique seguro um pouquinho, porque a estrada está muito perigosa.
Pavan – Dominguinhos, você participou de vários festivais.
Dominguinhos – Participei.
Pavan – Mas quando é véspera de São João, que tem um pessoal mais novo, você se sente reconhecido por eles? Você se acha valorizado? Como é?
Dominguinhos – É uma coisa linda! Eles têm muito respeito e todos querem tirar foto e conversar. Geralmente tem um sanfoneirinho que se chega mais e tal e é fã mesmo. Eles todos são jovenzinhos, mas tem ideia do que vem acontecendo na música… Então, eu estou muito feliz com essa parte aí. Eu toco com qualquer um. Outro dia fiz duas apresentações com os Aviões do Forró lá na Bahia. [ri] E teve um show na Fazenda de Manuel Itargolo em que eles estavam tocando eaí não dava tempo porque eu ia tocar em um lugar bem longe ainda naquela noite. Aí o Avião começou a tocar e parece que não queriam parar mais. Aí falamos com o diretor do grupo e ele mandou o pessoal parar e abrir uma janela. A gente montou o nosso negocinho e toquei uma meia hora ainda.
Tacioli – Mas não com eles?
Dominguinhos – Não! Eles ficaram de…
Tacioli – Ah, eles ficaram (esperando)… Pensei que vocês tivessem dividido o palco.
Dominguinhos – Depois eles voltaram e continuaram o show deles.
Pavan – E a plateia, como recebeu?
Dominguinhos – Muito bem, muito bem.
Tacioli – Porque são propostas artísticas distintas.
Dominguinhos – Totalmente diferentes. Mas eles mesmos são fãs, entendeu? Então ajuda muito…

Pavan – E o que eles fazem é forró, Dominguinhos? Como você classifica?
Dominguinhos – Não, é uma coisa que não acharam nome ainda, né? [risos] Eu acho que… [risos] [silêncio] [risos] (…) mas forró é que não é mesmo! Forró precisa de zabumba, de triângulo, e eles não usam isso. No máximo uma sanfona.
Tacioli – O grupo Aviões do Forró também tem as mocinhas que dançam?
Dominguinhos – As bailarinas? Tem, tem, tem! Eles não podem fugir disso, todos eles.
Tacioli – Você já recebeu algum tipo de sugestão de produtor, de empresário ou de gravadora nesse sentido?
Dominguinhos – De empresário, não. Mas é assim, às vezes, o cara não tem muita noção do seu trabalho e pergunta: “Tem bailarina?” [risos]
Tacioli – Ainda hoje, Dominguinhos?
Dominguinhos – Ainda hoje perguntam ao empresário. Já dei até entrevista sobre isso. Digo: “Rapaz, você é doido? Nessa altura do campeonato botar três, quatro mulheres bonitas, com as coxas tudo de fora, e aí, quem vai olhar pra mim?! Para com isso!! Tá louco?! Um abraço!”. [risos]
Tacioli – Os Demônios da Garoa tiveram que mudar um pouco o percurso para ficar de acordo com o mercado.
Dominguinhos – É, atuando…
Tacioli – O Tonico e Tinoco também sofreu uma tentativa semelhante. E você, fora esse evento da sugestão das garotas, você já teve outra experiência?
Dominguinhos – Não que eu me lembre, não. Mas, se bobear, eles entram mesmo tinindo pra mudar seu trabalho, sabe? Só que hoje em dia tem uma consciência maior: o pessoal me contrata e sabe que o meu trabalho é um, o do Aviões do Forró e do Calcinha Preta é outro. E isso ajuda muito. Eu não tenho que estar dando satisfação.
Tacioli – Mas esse reconhecimento demorou?
Dominguinhos – Não, não demorou, não! Aliás, o pessoal me respeita como se eu fosse um músico diferente daquilo que está acontecendo ali, com aquelas bandas e tudo mais. Porque é diferente mesmo, né? Não adianta você querer achar que a gente vai. Uma produção de uma banda dessas tem tudo. Eu entro com cinco, seis gatos pingados no palco. Não tem produção nenhuma! Eu tô usando o som até das outras bandas que já estão tocando, porque eles gostam dessas coisas, iluminação… Eu uso tudinho deles e eles gostam. Não tem nem perigo de falhar porque é deles mesmo.
Tacioli – E se falhar a culpa é deles…
Dominguinhos – Se falhar a culpa é deles… [risos]

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