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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 14/17

Tem um jeito de tirar (as músicas) das editoras

Pavan – Você falou dos direitos autorais dessas músicas, Dominguinhos. A sua obra é sua? Como é hoje em dia?
Dominguinhos – Não. São músicas feitas e entregues a várias editoras e elas criam dificuldade. Eu mesmo libero a minha parte. Minha parceira ou parceiro libera também, mas a editora tem outras músicas que não são minhas. São (músicas) do Gonzaga, outra é de outra pessoa. Elas criam muita dificuldade.
Pavan – Então, essas músicas que você não está conseguindo a liberação não são suas, são de outros artistas?
Dominguinhos – De outros artistas. Porque eu mesmo libero a minha parte. Ligo pra eles e peço pra liberarem. Eles podem até cobrar uma taxinha da editora, mas não fica tão pesado, né?
Tacioli – Mas com relação às suas músicas, você pensa em mudar esse sistema?
Dominguinhos – Eu penso, porque agora muita coisa mudou, sabe? Você grava uma música hoje e um cara quer editar. Aí você edita por dois, três anos. Depois se você estiver esperto, antes de três meses de acabar o contrato, você tranca, e a editora não pode renovar mais. Mas eu nunca liguei pra isso, rapaz! Eu tenho um caminhão de música tudo editado. Agora estou vendo que tem um jeito de tirar das editoras, como o Chico conseguiu, o Gil conseguiu…
Tacioli – O Jobim também, não?
Dominguinhos – Conseguiu.
Pavan – E, Dominguinhos, você tem centenas de músicas gravadas e um monte de sucessos. Você conseguiria viver somente de seus direitos autorais?
Dominguinhos – Não, nem pensar! [risos]
Pavan – Nunca conseguiu ou agora é que está mais difícil?
Dominguinhos – Não, nunca.
Tacioli – Sempre teve que tocar?
Dominguinhos – É, para ajeitar o pirão! [risos] Sempre!
Tacioli – Mas teve algum momento em que você passou dificuldade depois de já estabelecido como músico profissional?
Dominguinhos – O autor aqui no Brasil pode ter muita música de sucesso, mas ele tem problemas de direito, problemas com o ECAD, com as editoras. E aí você ganha muito pouco, mesmo tendo muita música, sabe? E aí, não adianta, você tem que sempre fazer os seus showzinhos, as suas coisas. Eu acredito que se eu vivesse em outro país talvez isso acontecesse, porque o pessoal fala da organização de lá de fora, onde o autor tem os seus direitos preservados. Aqui é uma confusão muito grande.
Tacioli – Você já pensou em…?
Dominguinhos – Tenho pensado de retirar, sabe?
Tacioli – Sim, mas de viver fora do Brasil?
Dominguinhos – Não.
Tacioli – Nunca pensou?
Dominguinhos – Deus me defenda!
Tacioli – Mas por causa do avião?
Dominguinhos – Não por causa do avião, porque eu iria de navio, né? [risos] Já até acertei com uns camaradas aí para arranjar uns 30 shows para eu ir de navio, né? Aí já vou tocando no navio, ganho uns dolarzinhos…
Tacioli – Igual ao Roberto Carlos. [risos]
Dominguinhos – Isso!
Tacioli – Cruzeiro com Dominguinhos.
Dominguinhos – A ideia é sair daqui de cruzeiro, passar um tempo lá e depois voltar. Aí é legal! Mas ficar lá, não, acho que não, a gente está acostumado aqui, rapaz! Tem muito país bonito aí, país bom de se viver, mas a gente é estrangeiro em qualquer lugar que chegar… A qualquer momento pode se dar mal.
Tacioli – Você teve algum lugar onde sua música transitou melhor?
Dominguinhos – Não. Eu recebo direitos do mundo todo. Mas se o caixa quiser, me paga do bolso, sabe? Que é pouco demais, rapaz! É show que o pessoal faz lá, é disco que eles tocam na rádio na Holanda, nesses países todinhos, da Itália, do Canadá, o diabo a quatro onde vou. Ih, deixa assim mesmo…
Pavan – Nunca uma música sua, uma melodia sua, ganhou uma letra lá fora?
Dominguinhos – Não, somente o “Xodó” [n.e. “Eu só quero um xodó”, sua parceria com Anastácia, 1973] que alguém na Itália fez uma versão.
Tacioli – Você gostou, Dominguinhos?
Dominguinhos – Gostei. Foi até uma cantora bem antiga, Ornella… Ela tinha muito cartaz na Itália. Eu nunca mais ouvi falar nessa mulher. Ela fez lá uma letra em cima de “Xodó”… [n.e. “Lui qui, lui lá”, versão assinada por Sergio Bardotti e gravada pela cantora milanesa Ornella Vanoni em 1974, mesma época em que registrou músicas de Vinicius de Moraes e Toquinho]  E muita (versão) instrumental: o Henry Mancini chegou a gravar essa música com a orquestra dele. “Xodó” tem mais de 200 regravações, sabe? Mas isso não bota ninguém pra frente, não, não bota mesmo. É só pra você dizer que tem.

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