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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 12/17

Vinha uma vontade imensa de chorar

Tacioli – Dominguinhos, o que te angustia, que te dá medo?
Dominguinhos – A morte… É a coisa mais certa que tem e que a gente não tem uma explicação. Em 2006, 2007 eu fiz uma operação de câncer no pulmão. Eu já estava com o dia da operação marcado, voltei do Ceará, encontrei com o Yamandu Costa e fizemos um disco, com a direção de Zé Milton, lá no Rio. E eu estava com aquela operação marcada. Ia para o estúdio e passávamos dois, três dias nós gravando o primeiro disco. [n.e. CD Yamandu + Dominguinhos, 2007. Três anos depois lançaram Lado B – Dominguinhos e Yamandu Costa] Eles nunca souberam de nada. A minha dor era só eu no quarto. Eu não ia nem ao restaurante, porque a qualquer momento vinha uma vontade imensa de chorar. Aí eu ficava no quarto… Ele (Yamandu) só soube depois de muito tempo de lançado o disco.
Max Eluard – Por que que você não quis compartilhar esse momento?
Dominguinhos – Rapaz, era uma ambiente tão benéfico, tão bom, sabe, que eu não queria chegar com nota triste. As notas tinham que ser musicais… [risos] Aí depois eu contei a ele. “Mas, rapaz, por que você não me falou nada?” Ainda faço quimio e tudo maltrata a gente… E eu sei que estou aí, estou tocando, estou podendo cantar ainda, fazendo as minhas coisas. Isso aflige, isso dá um bocado de pensamento, porque por mais que você viva, você quer viver, né? Tendo um pouquinho de saúde melhor ainda, entendeu? Todos nós somos assim. E é uma coisa tão profunda que a gente não sabe qual é o momento: pode dormir e não acordar mais.

Pavan – Dominguinhos, quando as pessoas têm um problema de saúde geralmente elas recorrem a alguma coisa ou à família ou a um amigo ou à religião. No seu caso, qual é o seu suporte?
Dominguinhos – Eu acho que, além da religião – eu sou católico –, as pessoas rezam muito por mim. Tenho muitos amigos e amigas que estão sempre me mandando mensagens. Isso me agrada! Como a família do Waldonys, lá no Ceará, que é um grande músico. É Waldonys, com W e Y no fim. Waldonys!
Tacioli – Eu conheço a figura!
Dominguinhos – Conhece?
Tacioli – Conheço, sim.
Dominguinhos – Pois bem, ele é meu afilhado desde os 10 anos de idade. Ele vai fazer 40 no mês que vem. A família dele é uma família de gente muito católica: Joana D’Arc, Eurídice, tem irmã freira, irmão padre, essas coisas. Eles rezam muito, fazem novenas em casa, trezenas, e meu nome está sempre ali. E a minha família aqui: Guadalupe, Liv… Agora eu tenho um netinho. Tenho mais seis netos lá no Rio. Tenho uma da idade de Liv. O Mauro casou cedo também. Tem (um neto de) 30 anos, o outro tem 22, um outro tem já está fazendo a maioridade agora… E assim vai! O pessoal todo está sempre (rezando). E alguns irmãos ainda. Eu tenho cinco irmãos além de mim, lá em Nilópolis, Nova Iguaçu…
Tacioli – Você tem quantos irmãos originalmente?
Dominguinhos – Rapaz, chegou a 16!
Tacioli – Dezesseis!?
Dominguinhos – Foi… Meu pai e minha mãe são alagoanos, ali de Palmeira dos Índios. O meu avó era uma pessoa muito astuta. Ele tinha muitos filhos. Teve 30 (no total) com várias mulheres. Ele dava um pedaço de terra a cada um. Aí meu pai plantava, botava mandioca, melancia… Mas quando era na hora de colher, (meu avô) tomava… [risos]
Tacioli – Astuto, hein?
Dominguinhos – Isso era com todos os filhos, não somente com o meu pai, não. Minha mãe era muito novinha e trabalhava junto com ele. Tinha 11 anos e já estava prometida a um agricultor dali… Mas pai gostava dela. E o que ele fez? Aproveitando que meu avô roubava tudo o que ele produzia, ele roubou a minha mãe e botou em Arapiraca, na casa de um amigo dele… Era pra esperar ele fazer 18 anos; ela tinha 13, 14 quando ele casou com ela. Aí foi pra Garanhuns e todos os filhos nasceram ali. Alagoano não nasceu nenhum, mas eu sou quase alagoano. Só nasci em Garanhuns. E também tem mais um detalhe: a minha mãe teve muito filho e ela se esqueceu que já tinha o José Domingos de Moraes, que é o meu irmão mais velho, aí ela colocou…
Manu Maltez – O mesmo nome?
Dominguinhos – Botou o mesmo nome! [risos]
Tacioli – Então você é o José Domingos de Moraes II?
Dominguinhos – Segundo!
Tacioli – Um nobre, né? [risos]
Dominguinhos – Mas não é? E meu irmão tocava pra caramba. Depois passou para o piano na época da bossa nova. Ele se deu bem com piano, teclado. Era um bom acordeonista também. Ele é falecido. Morreu com 57 anos lá em Salvador. Arranjou uma tuberculose, não cuidava. Ele era boêmio, tocava só na noite… Aí chutava e a bicha foi sucumbindo, tomando conta…

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