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Entrevistas de música brasileira

Dominguinhos

Dominguinhos por Jefferson Dias/Gafieiras

Dominguinhos

parte 9/17

O Chico levou 15 anos para botar a letra

Manu Maltez – E com o Chico Buarque, você leva a música e ele põe a letra?
Dominguinhos – Tem caso esporádico, porque ele sempre teve seu trabalho. Ele não precisa de (parceiro). Acho que ele só pega um parceiro ou outro, né? Hoje em dia, ele faz isso com os músicos que tocam com ele. O Jorge Helder sempre tem composto com ele. Esse ano ele botou uma letra numa música de João Bosco, “Sinhá”, que é uma das mais bonitas do disco. [n.e. CD Chico, de 2011] A coisa é (mais ou menos) assim: “Ah, Chico, fique com essa fitinha. Um dia tu bota uma letra! “. Aí ele botou letra em duas.
Manu Maltez – Demorou?
Dominguinhos – A primeira demorou uns dois anos. Aí o Roberto Carlos tinha pedido uma melodia a ele. Ele tinha essa mania de ir lá pra fora para gravar. Disse: “Ó, Chico, eu vou viajar e queria levar uma música sua”. Aí ele me ligou: “Ó, Neném, aqui não tem nada. Eu não tenho nada pronto, mas eu tenho uma música sua aqui e eu botei umas palavras. Vem pra cá pra gente gravar aqui num cassetezinho e o Roberto leva pros Estados Unidos”. Aí fui pra lá. Eu nem me lembrava mais da música. Ele botou pra tocar várias vezes até que eu aprendi. Ele mostrou a letra: “Tantas palavras”.

E depois ele cantou para uma novela da Bandeirantes, numa época em que (Roberto) Talma tinha saído da Globo para Bandeirantes. E foi o próprio Chico, com arranjo de Amilson Godoy, que gravou essa música. Depois ele regravou, mas já mudando. Na verdade, ele disse que essa música era para um filme de Ruy Guerra. E aí o Roberto foi, voltou, e entregou a fita ao Chico. Ele disse: “O homem não gostou, não. Deixou a fita aí. O que é que eu faço?”. “Tu mesmo grava, rapaz, quando tu fizer um disco!” E ele fez isso mesmo.
Manu Maltez – Naquele disco vermelho…
Dominguinhos – Não é?
Manu Maltez – É.
Tacioli – Mas você já mandou várias fitas para o Chico?
Dominguinhos – É, ele tem…
Tacioli – (…) Tem uma coleção de fitas… [risos]
Dominguinhos – O Gil também tem, o Djavan…
Tacioli – O Djavan também tem?
Dominguinhos – Também! Ele botou uma letra numa (música), mas ele tem um bocado. O marido da Glória Pires, o Moraes…
Tacioli – O Orlando…
Dominguinhos – Orlando! Viu a fita minha com ele e pediu a ele, “Me dá essa fita aí, que eu vou colocar uma letra, que eu gosto das melodias do Dominguinhos.” Aí ele deu, o Orlando fez primeiro do que ele, sabe? Aí passou um tempo, ele pegou a melodia e botou letra. Ficou muito bonito porque ele escreve pra caramba. Mas, era assim, rapaz… Aí o Chico tinha ficado com a fita. Um dia ele me ligou – a gente se encontrava sempre. “Olha, Neném, o negócio é o seguinte: botei umas palavras em uma música sua e eu queria que você viesse para o Rio pra gente gravar junto”. Aí eu fui e aprendi de novo a melodia, porque eu não sabia. Ele levou 15 anos (para colocar a letra). Mas agora eu tenho um parceiro que bateu o recorde: é o Fausto Nilo. Ele diz que está terminando uma música que tem 32 anos que ele está com ela. [risos] Ah, bom, então não vou falar mais nada, Ave Maria!
Manu Maltez – É uma ópera!
Dominguinhos – “Rapaz, termina logo e me manda isso aí! Trinta e dois anos, Fausto! É uma dádiva de Deus!” Aí ele disse: “Mas ainda falta um negocinho aqui…”.
Tacioli – Mas, Dominguinhos, a fita que você manda é uma cópia?
Dominguinhos – Eu mando a (fita) que eu fiz mesmo! Não fico com nada! Eu não fico com nada!
Pavan – Aí você esquece a música…
Dominguinhos – Um dia se eu escutar, eu vou lembrando, ela vai voltando, a melodia vai entrando na sua cabeça… Tem agora uma novela chamada Fina Estampa em que a Ivete (Sangalo) está cantando uma música que a primeira parte todinha é de uma música do Chico, mas com outra letra. Eu não sei se ele já viu isso aí. Parece que é uma música dele com o Cristovão.
Manu Maltez – A melodia é igual?
Dominguinhos – É, é igual. [silêncio] Rapaz, como não tomaram uma providência logo?! [n.e. Sobre as músicas “Todo o sentimento”, composta por Chico Buarque e Cristovão Bastos e lançada em 1987, e “Eu nunca amei alguém como eu te amei”, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle, gravada em 1994 por Roberto Carlos e em 2012 por Ivete Sangalo]
Tacioli – Você já teve algum caso desses?
Dominguinhos – Não, não, não. Jorge Ben é que teve. Na época roubaram uma música dele, mas isso é tão comum… Se aparecer uma parecida aí, eu não estou nem aí…

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