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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 8/23

Bossa nova e MPB fui conhecer na Europa!

Gafieiras – Sobre ritmo, você disse que tem que explicar para o técnico o que você quer. Você procura ouvir música e ritmos brasileiros?
Patife  Isso é uma coisa engraçada. Nunca tive informação de música brasileira. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Geralmente a gente absorve aquilo que o pai e a mãe escutam em casa, e na minha casa era terrível. Amado Batista, sertanejo. Roberto Carlos nunca houve. Então, o que aprendi foi na rua. Eram os caras que escutavam mais samba-rock. Eram as festas de equipe de som. Bossa nova e MPB fui aprender na Europa!
Gafieiras  Na Europa?
Patife  É, em 1998, 99.
Gafieiras  Isso merece um capítulo à parte.
Patife  Totalmente à parte. Foi aí que a coisa começou a mudar. Eu estava no SESC em março de 2000 me apresentando. Aí, a Fernanda [n.e. Fernanda Porto] chegou, “Som legal esse drum’n’bass! Escuto há uns dois anos e acho legal seu trabalho, uma mistura de um monte de coisas.” As músicas que eu tocava eram melódicas. Até o momento eu não tinha feito nenhum remix. Ela falou pra mim, “Pô, tá aqui um CD demo. Tem uma música que fala de drum’n’bass e tal. Escuta aí.” Aí, me ligava toda semana perguntando se eu havia escutado o disco. “Pô, não escutei, não escutei.” Aí, no dia que em que escutei, cara…
Gafieiras  Você pirou a cabeça.
Patife  O dia em que escutei, falei, “Caraca, meu!” Mas, e o medo de ligar pra ela e pedir pra fazer um remix? Havia aquela que DJ vai destruir toda a música já feita. Só que eu já havia feito o remix do Max [n.e. Max de Castro], “Pra você lembrar”, mas não havia tanto vocal. Havia aquele preconceito, “Pô, música eletrônica com português, não sei, né?” Liguei pra ela, “Pô, Fernanda, escutei.” E ela, toda entusiasmada, “Poxa, escutou, que legal. O que você achou?” “Meu, adorei uma música que se chama ”Sambassim”.” “É mesmo?” “É. Eu queria ver com você se – [maior medroso, maior tímido] dá pra montar uma batida.” “Por que você não faz um remix, hein?” “Na verdade era isso que eu queria falar.” “Ah, poxa, faça. Inclusive conheço o Xerxes que há algum tempo vem dando um tapa em meu disco. Tô querendo lançá-lo independente. Vou ligar pra ele e falar que você se interessou. Aí tento o vocal lá. Vá lá e faça. Escolha o que você quer e faça.” Liguei pro Xerxes, que jogou o maior balde de água fria. “Meu, você tá querendo mesmo mexer com esse negócio?” “Ah, Xerxes, achei legal. Quero tocar. Já fiz o Max e tive o maior resultado bom.” “É, meu… Vem aí e escolha o que cê quer.” Como eu já tinha uma noção, já havia feito o Max, fui em meus discos e peguei umas coisas de break que eu tinha e falei, “Isso aqui desse jeito, assim, assim… Muito doido, cara!” Vi o negócio em minha cabeça. Fiquei escutando o remix umas 30 vezes antes de ir pro Xerxes. “Pô, vou pegar esse pandeirinho, esse agogô e fazer quatro compassos. Somente agogô, fazer quatro compassos, depois mais quatro compassos de pandeiro. Depois o triangulozinho. Aí, lá na frente, sem nada, somente o violão e a voz.” Conversei e montei direitinho na minha cabeça. Ficou incrível! Cheguei lá no Xerxes às quatro da tarde. Às três da manhã estava pronto, prontinho! Nessa época, o Marky estava fora. Eu era quem tomava conta da Lov.e. Aí, coloquei o CD em uma das noites. Primeiro: quem estava perto da cabine, olhou torto porque me viu botar um CD. Até então eu nunca havia tocado um CD. Botei o CD e todo mundo já assim, né? Fui mixando com canal fechado. Lá na frente- com grave e tudo – somente apertei e tum! “Sambassim!” [cantarola]
Gafieiras  E parou?
Patife – [cantarola] “Comecei um samba assim”. Aquele dia estava muito cheio. Sei que, literalmente, a casa inteira virou pra cabine. Nem tirei o fone. Eu batendo palma! A gente tem essa mania – coisa do drum’n’bass – que é voltar o ritmo, voltar para o início quando a música é legal. Aí viram que não era disco e quiseram saber de quem era o CD. Dei um pause no CD. Nesse momento deu uma… Não sei se era moleza, vontade de chorar ou uma engasgada… Sei que era uma gritaria danada. Fui para o início e soltei. Quando coloquei do início [cantarola], as meninas rebolavam, sambavam… Aí a Flavinha – dona da Lov.e – veio, “Que é isso? Que lindo!”. Cara, sei que tocou quatro vezes. Não botei outra música. Tocou quatro vezes, do início ao fim, e a galera aplaudindo. O público gostou!
Gafieiras  E os DJs não?
Patife  Fiquei tocando quatro meses assim, sozinho. Ninguém gostou. “Ê, meu, isso é pagode, isso é não-sei-o-quê. Falei, “Então é pagode?!” E começaram a me chamar de pagodeiro. Os amigos, os “brothers” de cabine! Meu, aí começaram a pedir muito. O Andy chegou, “Ó, meu, dá pra gravar um CD pra mim?” E o Ramilson, “Ó, meu, faz uma cópia pra mim”. E o Marky, uns cinco meses depois, falou, “Vou ter que tocar essa porra aí, meu! Me dá uma cópia”. Aí dei, também. Ninguém queria tocar porque não se identificou. Foi um choque, cara, foi um choque muito grande. Pra mim mesmo…
Gafieiras  Isso foi em que ano?
Patife  Foi em 2000. Foi em maio, junho de 2000.

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Música eletrônica
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