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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 5/23

Meu primeiro sonho foi ter um bicicleta

Gafieiras  Engraçado, o drum’n’bass é uma música que nasceu na periferia, mas depende da sensibilidade pra ser um bom DJ, né? Ao mesmo tempo, é um negócio tecnológico e que custa muito caro. Você tinha noção disso?
Patife  Você vai ver nos próximos minutos como eu não tinha noção. Resumindo rapidamente a minha vida inteira: desde pequenininho sempre tive muita dificuldade. Em casa tudo sempre foi muito básico: arroz, feijão, batata frita. E a gente não morava em favela. Não éramos pobres de não ter nada. Éramos pobres, mas meu padrasto trabalhava e ganhava o suficiente somente pra botar o rango, somente aquele básico. Ele não podia me dar um skate, um Rainha, que eu sempre quis. Meu sonho era ter um Rainha, um Adidas.
Gafieiras  Um disco…
Patife  Um disco? Não tinha, não tinha.
Gafieiras  Sua mãe trabalhava?
Patife  Minha mãe nunca trabalhou. Quero dizer, ela trabalhou agora, de 92 até 95, quando meu padrasto faleceu. Aí, eu era o único que trabalhava em casa, de office-boy. Ela teve que começar a trabalhar, porque eu não segurava a onda nem a pau. Eram seis pessoas dentro de casa, né? Foi sempre assim, tudo contadinho. E quando o meu pai se separou, eu tinha sete anos. Foi uma dificuldade, mexeu muito comigo! Isso me fez amadurecer. Por essa dificuldade, eu quis ter dinheiro rápido, de qualquer forma. Eu entregava panfletos. Três casas pra baixo de onde minha vó morava com a minha mãe havia uma fábrica onde eu ficava passando Kaol nas calotas dos ônibus e caminhões pra ficarem cromadas e bonitinhas. E os caras me davam dez cruzeiros. Isso eu juntava e comprava uma besteirinha. E fui tendo cedo gosto por grana. Trampar pra ter uma grana e comprar o que eu gosto. Então, com 11, 12 anos comecei a entregar pizza onde meu pai trabalhava. Eu ficava pedindo dinheiro pra comprar as coisas e ele não me dava. Eu falava, “Então me leva pra trabalhar, pra limpar as mesas, ganhar caixinha.” Por exemplo: com um ano de pizzaria, comprei um toca-discos, um receivere uma caixa. “Porra, dá pra ter os meus bagulhos sem minha mãe me dar.” Só que era foda! Eu estudava de segunda à sexta. De sexta à noite, sábado e domingo entregava pizza. E, ir pra escola na segunda era muito foda. Aí, comecei a ter grana. Sempre trabalhei. O meu registro, mostro minha carteira de trabalho… Fiz 14 anos e logo depois a mulher me registrou. Foi sempre assim. Eu via que estava sendo feliz somente com aquele pouquinho. Mesmo com isso nunca deixei nada pra trás do que eu queria. “Bom, quero fazer isso? Então, se eu entregar tantas pizzas assim, assim, assim, de repente a caixinha dá pra parcelar.” Até os 17 anos tudo foi beleza. Quando cheguei aos 18, a ambição mudou. Eu já queria um toca-discos Tecnmix, um Gradiente. Eu já trabalhava registrado, já sabia mais. Se eu fosse mandado embora, receberia fundo de garantia, seguro-desemprego, etc. “Ah, agora tenho 18, vou comprar um carro, vou namorar.” Na época não gostava de levar a namorada em casa de bus. Financiamento. Aí começo a mudar a cabeça. “Vou entrar num financiamento, pego um cartão de uma pessoa emprestado…” E foi nisso que os meus sonhos nunca bronquearam. Por exemplo: minha mãe nunca deixava. Ela falava, “Não faça isso, não faça isso!”, porque vinha de uma criação em que “Somos pobres. A gente não tem condição para fazer isso!” E meu pai era de uma família, “Não, meu filho, você tem que tentar. A sua mãe tem medo de tudo!” Então, fui indo. Para eu entrar num avião, falava, “Cara, é coisa de quem tem dinheiro, cartão de crédito e tal, etc.” Mas não deixava, porque era um troço daqui de dentro, sabe?
Gafieiras  Uma necessidade.
Patife  Exatamente, uma necessidade, um sonho, porque todos os sonhos que eu tive até essa época da viagem pra Londres eu já havia realizado… Meu primeiro foi ter um bicicleta. Minha vó, coitada, trabalhou um ano costurando roupa, fazendo negócios… Ela pegou o dinheiro todinho e me deu uma bicicleta quando eu tinha 11 anos. Depois foi um Atari. Meu avô me deu um Atari. Aí havia um robô, o Arthur. Eu era doido pra ter aquele robô. Meu vô me deu. Então, os três sonhos de moleque, beleza! Aí, com 13, 14 anos comprei, com a minha grana, o meu toca-discos. “Pô, cara, tudo é possível! De um jeito ou de outro, com toda a necessidade que eu passava, morando na periferia, tendo a oportunidade de fazer besteira, como eu tive várias, como uns amigos que cresceram juntos, que carregaram minhas caixas, tal, me roubaram, infelizmente. Eu, não. Tive exemplo na minha família. Tio na cadeia que íamos visitar aos domingos. Minha mãe já tinha esse trauma. Isso nunca me fez falar, “Não, vou desistir!” Sempre tive a felicidade de fazer as coisas que eu queria, mesmo sem condição, sem nada.

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Música eletrônica
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