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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 4/23

Acumulei uma dívida de 35 mil em passagens e discos

Gafieiras  Vocês tinham consciência do que haviam feito?
Patife  Nada!
Gafieiras  Havia um movimento ou era somente vocês mesmos?
Patife  Era só a gente. Aí, na mesma época, ficamos sabendo que havia o Calbuque [n.e. Nome artístico do DJ e jornalista Carlos Albuquerque, um dos precursores da música eletrônica no Rio de Janeiro] e o Marcos Mesquita no Rio, que também em 94 já estavam colocando uma galerinha. O Calbuque fazia umas noites chamadas Febre[n.e. Primeira festa de drum’n’bass do Rio de Janeiro, promovida inicialmente em 1997]. A gente ficou sabendo disso somente em 96, 97. E havia um pessoalzinho em Brasília e em Porto Alegre entre 97, 98. Acabou, deixei passar uns 15 dias, liguei pra ele de novo, “E aí, meu, ligou?” “Não!” Nisso, eu já havia feito três quintas, e a cada quinta estava melhor.
Gafieiras  Sempre a Movement?
Patife  Sempre a Movement. Aí aconteceu uma zica danada. A Toco fechou. O Marky ficou sem emprego. O único núcleo que havia na Zona Leste fechou. A Over Night também já havia fechado. Falei, “Por favor, cara, de verdade, tenho a maior fé nisso. Não tenho nenhuma pretensão! A gente queria deixar esse nome somente por segurança, pra não chegar um gringo doido e atirar na gente. Se você não ligar, vou ligar, meu! Vou dar o número do seu telefone e mandar o cara pedir mais detalhe pra você. Vou fazer umas frases com o dicionário.” E fiz mesmo, cara! Peguei o dicionário de inglês que eu usava no ginásio e juntei umas palavras. Liguei pra ele e, “Tá bom, tá bom. Vou ligar! Ah, mas não tenho o número.” “Se é esse o problema, eu tenho. É tal”. Aí, ele ligou pros caras.
Gafieiras  De onde vinha essa certeza?
Patife  Não! A parada era somente essa: autorizar o nome gringo pra ficarmos tranqüilos. Depois que ele ligou, que fez o contato, caiu… Em casa, com o Márcio, falei, “Meu, e se esses caras se interessarem em ver o que a gente tem? Tamos fudidos! Mas a gente sabe o que está fazendo. A gente tem os discos. A gente acompanhou a história do período. A gente pode falar como surgiu e tudo.” É muito doido, cara! A gente vê e arrepia. Aí o Adrian, que morou 13 anos na América do Sul com a família – o pai trabalhava na Philips e vivia rodando o mundo -, nem quis falar com o Andy. “Ah, quero falar com esse Patife”. Aí, o Andy, “Ah, Adrian, mas ele não fala inglês.” “Mas eu falo espanhol. Morei na América do Sul 13 anos. À uma e meia da tarde da segunda-feira manda ele ligar pra mim que estarei esperando”. Ich! Deus do céu! Foi num final de semana. Essa ligação foi na sexta. E eu não dormia, não conseguia fazer nada. E numa época financeira…
Gafieiras  Braba?
Patife  Braba! Não tenho vergonha de falar isso. Minha irmã tava trabalhando, tava fácil pra eu vir pro centro… Era assim, vivendo de centavos, de migalhas mesmo. Aí cê me pergunta, “Mas, pô, meu, como você conseguia comprar os discos e manter a história?” Era cartão de crédito de um, cheque da minha irmã… Então, com o dinheiro do final de semana da Arena, eu chegava na segunda e cobria o cartão de um, a luz… Era assim, vendendo a janta pra comprar o almoço. Aí chega eu, bonitão, nessa segunda-feira. Fui telefonar na casa da minha mãe. Ligar pra Londres. ” Adrian? Please?” E, meu, quem disse que eu consegui entender o cara? Primeiro, que eu tava nervoso. Eu tava com o telefone assim, ó! E mamãe, “Calma, menino, calma. Fala com o homem!” Aí, passando um tempo, ele viu que eu tava nervoso e, “Ei, amigo, fica tranqüilo. [imitando sotaque hispânico] Mas, do que tu necessita?” “Ah, preciso usar nome ‘Movement’, porque tenemos uma noche aí, legal” Aí, o cara entendeu. Sei que deu 1h40 de ligação.
Gafieiras  Pra Londres!
Patife  Pra Londres! Segunda-feira, 1h da tarde, horário de pico na Telefônica, né? A conversa terminou. “Ei, estou interessado em ajudar tu noche, pode usar nombre ‘Movement’”. “Tudo bem, mantenha contato.” “Vou ligar para o Andy e a gente mantém contato”. Cara, botei o telefone e, “Caraca, meu! Imagina se a gente tem uma cena, as pessoas cantam, tá legal, tá bacana… E, se de repente, meu, os caras vêem o CD que o Marky já lançou, vêem que já existe uma história?” Aí, fiquei doido, fiquei doido. Era a época da Copa do Mundo de 98. Sentei com o Marky e disse, “Quem sabe os caras querem dar apoio.” “Ih, meu!” Somente o Márcio, que é o cara com quem eu moro hoje, falou, “Ó, meu, pega firme nisso!” Aí liguei para o Koloral e ele, “Meu, manda os caras mandar uns discos pra nós, uns promos”. Olhem isso! Ninguém acreditava, cara, e isso me deixou muito puto nesses primeiros meses. Nessa mesma semana, olhem a loucura, Copa do Mundo… “Cê quer saber? Vou pra Londres conhecer esses caras pessoalmente.” Como? Vendendo o almoço pra pagar a janta… Não estava mais tocando como DJ registrado. Foda-se! “Marky, cê tem umas fitas de vídeo da Toco, algum recortes de jornal em que cê já saiu?” “Já saí nuns dois ou três, mas não era no seu tempo”. Aí havia uma fita de vídeo em que ele foi DJ da Xuxa, quando a história de DJ deu um rumo de novo. Peguei os dois CDs que ele já havia lançado pela Toco. Liguei pro Copine de novo, “Copine, fiz contato com os caras em Londres. Aí, meu, não sei, mas sinto uns frios na barriga. Vou lá conhecer esses loucos de perto”. Ele falou, “Vamos lá!” Fizemos a pesquisa dos vôos mais baratos. A Transbrasil facilitava em 12 meses. Doze de R$ 148,00 na época. Cara, foi a passagem mais cara que eu paguei. Época de Copa e tudo. Essa foi foda pra pagar. E ainda mais com as contas telefônicas. Eu ligava pro Andy, ligava pro Adrian. Sei que a primeira deu quase R$ 800,00 de conta. Com o que aconteceu, não pagou, lógico. Depois de três meses o telefone funcionando, ele ficou somente recebendo, depois somente recebendo a cobrar. E depois desligou, cara! Sabe quando fui ligar o telefone da minha mãe de novo? Em junho de 2000. De 98 pra 2000. Porque enrolou: passagem aérea com comprar disco, com não-sei-mais-o-quê. Não tenho porque ter vergonha de falar isso. Já limpei minha conta de novo, os cheques, meu nome no SPC em fevereiro do ano passado. Eu consegui acumular uma dívida de 35 mil, cara. Somente com isso, passagem e disco.

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