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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 3/23

Fui para Londres com 200 dólares no bolso pra ficar 22 dias

Gafieiras  Essa história foi rápida. Em 98 você começou a tocar somente drum’n’bass em sua noite. Em 99 saiu seu primeiro disco.
Patife  Foi no finalzinho de 99. O ano de 98 foi muito turbulento, só fui dar conta do que aconteceu em 2000, praticamente depois de todo resultado. Não sei se vocês querem que eu entre nessa parte, dessa conexão, como é que foi o nosso envolvimento com o drum’n’bass, uma coisa que veio da Inglaterra. De 94 até 97, ficamos com esse sonho, “Pô, a gente tem que ir pra Londres, tem que ir pra Londres, conhecer, conhecer!” Até porque, quando houve essa mudança, saiu o raga e entrou toda essa melodia, essa coisa mais musical, as pessoas não quiseram mais escutar. Então, a cena fez assim. A cena? Quem tinha clube fixo era eu, o Marky, o Koloral e o Andy. Era o Marky na Toco, o Andy na Goodnight, o Koloral no Palácio, na João Dias, e eu na Arena, em Interlagos. Era um grupo muito pequeno. A Toco tinha 5 mil no fim de semana que dançava/cantava. A Overnight tinha mil, dois mil. O Palácio, 2 ou 3 mil, e eu, na Arena, de mil a mil e quinhentas. Vamos supor que havia 30 mil que conheciam, vai. Só que aí houve aquela mudança e o tecno deu uma subida muito grande em 96. E todo mundo curtia tecno. Ficamos com aquela mágoa, aquele preconceito, todo mundo fechando a porta e os patrões da gente falavam “Pô, não é pra tocar isso! As pessoas não querem ouvir…” Depois o negócio começou a ficar mais sério, falando que era música de maloqueiro, que era música de periferia, etc. Grandes nomes que começaram a aparecer na mídia, em revistas nacionais, em matérias falando que era música realmente de periferia, que aquilo não ia pra lugar nenhum, que era uma febre somente em Londres e que ia passar. Sentíamos o contrário, que era uma música com a qual as pessoas se identificavam muito, que era uma música com muita energia e que, “Vamos ver o que vai acontecer!”. Em nenhum momento a gente acreditou que aquilo iria morrer. Não é possível, cara! “Olhe este selo, meu! Olhe isso, olhe aquilo!” Calhou que em 96 pintou o Dave Angel, um inglês que estudava Ciências Sociais em Edimburgo, na Escócia, e que participava da campanha da fome do Betinho. Então ele fazia essa ponte, Escócia/Rio de Janeiro, pelo menos umas três vezes por ano. E num problema de conexão de vôo, ele teve que ficar algumas horas em São Paulo, e parou no centro da cidade, parou na Galeria, e parou dentro da loja do Marky. Aí, poxa, meu! Nem foi direto no Marky… Ele parou na Discomania e quem estava lá era o Ramilson Maia. Ele falou, “Tem jungle aí?” “Ah, quem entende de jungle é o Marquinho na outra passarela. Vá lá!”. Aí, chegou, “Oi, sou da Inglaterra, gosto de jungle. Faço uns MC’s”. E o Marky, “Oi, também toco jungle aqui”. “É mesmo?! Tem jungle em São Paulo?!” “É, tem! Hoje, o Patife, que é um amigo meu, toca à noite. Não é somente drum’n’bass, mas podemos fazer uma bagunça”. E esse cara foi lá, passou a mão no microfone – isso na época em que estava legal ainda. Ele ainda perturbou a gente durante quase três anos, “Meu, cês têm que ir pra Londres, cês têm que ir pra Londres!” “Mas de que jeito, cara?” Meu, eu ganhava salário mínimo, trabalhava de dia como office-boy. Na época eu ganhava 50 contos por noite, mal dava pra comprar os discos, pois eu pagava quase 30 reais por disco. Enfim, “Vamos juntar dinheiro para ir para essa porra?” “Vamos”. E nunca dava, meu! “Eu consigo guardar 200 contos. E você?” “Eu consigo guardar menos dez na conta corrente. Tá negativo cem contos”. Não dá, nunca deu! Sei que aí chegou um dia e eu falei, “Vou fazer as reservas!” E eu sem nenhum puto ainda. Fiz a reserva no tempo em que a VASP ainda voava internacional, conexão em Bruxelas, que era o vôo mais barato que havia. Beleza. Dois dias antes de viajar eu tinha que pagar a reserva senão ia cair. Na época eu já estava trabalhando numa loja de disco em Santo André. “E agora?” Aí, liguei pra um amigo meu, um DJ famoso também, o Ricardo Copine, vários anos de dance music. “Puta, Copine, preciso ir pra Londres, cara! O que você pode fazer por mim?” “Meu, tenho um amigo que tem uma agência de viagem, vou lá, aplico o cartão em consórcio e depois você me paga”. E foi assim, comprei em oito meses e paguei R$ 110,00 por mês. Fui com 200 dólares no bolso pra ficar 22 dias. [risos] Acho que eu faria tudo de novo. “Vamos aí, come pão com manteiga. A casa nós temos pra dormir, que é o mais importante”. A gente foi, cara! Jesus Cristo! Eu consigo ver tudo de novo se eu fecho os olhos. Roni Size ganhando o Mercury Prize, um dos melhores prêmios da Polygram para destaque de banda, de artista. A Movement nascendo. Estava com seis meses no bar Rumba. Tava lançando a noite no The End. Era a gente se deparando com tudo isso. Vinil pra todo lado, as pessoas comprando, aquela agitação. Cê chorava sem querer, cara, de lágrimas. “Ah, não tem isso no Brasil!” Aí, “Controla, controla!” Eu já queria comprar todos os discos. Duzentos dólares não deu nem para a primeira semana. [risos] Aí, lá, meu, foi uma injeção, uma coisa inexplicável. Parece que pegaram a gente, colocaram-nos num hospital e injetaram. “Volta pra lá e, meu, mostra o que é o drum’n’bass.” Voltamos pra cá babando. Pode vir quem for, meu: o patrão, … Aí, tinha maior divisão antigamente: os houseiros, os trenceiros, os tecneiros… “Pode falar mal, foda-se! A gente não liga. Música de periferia? É! Música de maloqueiro? É! Foda-se! A gente não tá nem aí. É isso que vamos tocar e quem quiser ouvir vai ouvir!”. Aí, tinha a galera da nossa vila, uns da vila do Marky, e começamos a fazer umas festinhas pra 100, 200, aí a coisa começou. Devagarinho, devagarinho. A rádio Energia, hoje a 97, na época estava deixando o axé, e só pelo fato da gente ter ido viajar – porque quem tinha o nome na mídia era o Marky, e ninguém sabia quem eu era. Aí, antes dessa época, eu tinha um programa da Arena na 97, porque nessa época toda casa noturna tinha um programa na rádio. Aí, o dono da rádio chegou, chamou o Marky e falou, “Ô, meu, cê ainda toca na Toco? Vem aí, toque o que você quiser, mas os drum’n’bass toque somente um, sabe, antes de terminar o programa. Não toque muito!” Era assim, cara, era inacreditável, era inacreditável! Aí, beleza, “Não tem espaço, pelo menos toco um!” Aí em 98 foi aquela decisão que eu tive, “Cheguei pro dono da Arena e disse, ”Não agüento mais tocar esses negócios. Realmente é isso que eu quero fazer. Arrume outro cara, mas eu quero uma noite de quinta somente com drum’n’bass.” E nós, “Será que alguém vem escutar somente drum’n’bass, meu? Não temos nada a perder! Estamos na chuva, vamos nos molhar!” Márcio, que é um cara que mora comigo, “Como vai se chamar, mano?” Uma noite chamada “Movement”. O primeiro DJ tocava mais tranqüilo, o segundo mais ou menos, e o último sentava o pau. Aí, “Vamos nos chamar de Movement!” Beleza! Pra rua, boca à boca, o Marky falando no programa dele. Chegou à noite. Sete da noite, sete e vinte, dez para às oito, e uns dez gatos pingados. “Fodeu, cara! O cara não vai mais dar a noite pra nós!” Oito e quinze, mais uns 30. Quinze pra nove… Parece que abriu a porta do hospício. Havia quase 300 pessoas dançando, cara! Aí, pronto. Tava no bus indo embora, o Márcio, “Pô, é complicado, mano, usar esse nome. No ano passado já veio o Goldie, o Adam F., como convidado do Free Jazz… Vai que, meu, vem os caras da Movement aí, ou que os representem, ou alguém no Free Jazz e vê a gente usando esse nome?” “Ei, Patife, liga lá, fala pros caras liberar esse nome pra gente usar aqui no Brasil”. “É mesmo.” Olhem as idéias dos caras, na maior displicência, “Liga lá, meu!”. Como se fosse ligar pro amigo da esquina! “Como é que eu vou ligar, meu?! Não falo nem ”obrigado” em inglês.” [risos] “Ah, liga pro Adrian. Pô, o cara não deu a maior força pra vocês lá?” “Adrian, aconteceu isso, isso e isso, som de drum’n’bass pra 300 pessoas e colocamos o nome de Movement.” “Pô, cês são loucos!” Falei, “Somos nada, meu! E tô te telefonando procê ligar lá pros caras e pedir autorização pra gente usar o nome!” [risos] “Meu, cê sabe quem é a Movement? Cê sabe quem é a Vinyl Records? Cê sabe com quem você tá querendo que eu mexa?” “Eu sei, meu, mas, pô, é só ligar e falar, ”Ah, aqui é Adrian Harley. Tenho uns amigos no Brasil…” É simples!” “Ah, não, Patife, não vou fazer isso!” Meu, tive que perturbá-lo por uns dez dias.

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Música eletrônica
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