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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 2/23

Eu escutava a história arte da música erudita

Gafieiras  Você quer beber alguma coisa?
Patife  Quero água, por favor. Sem gás.
Gafieiras – Você traz quatro águas. Sem gás.
Gafieiras  Fale um pouquinho mais sobre essa história do drum’n’bass. Ele é um gênero aberto? Por onde chega, ele é capaz de receber e de incorporar informações…
Patife  É muito esquisito como surgiu, cara. Quando comecei a ir mais pra Londres tive contato com os caras que o criaram. E a história era assim: o que aconteceu nos guetos em Londres foi o dub, pesado mesmo, instrumental [cantarola], o raga e o rap. E uma outra massa tocava os acid house, que era a coisa do Bizarre Inc [n.e. Grupo inglês surgido nos anos 90 em Stafford], Inner City [n.e. Duo americano formado em 1988 por Paris Grey e Kevin Saunderson] e por aí vai. Certa época, os caras começaram a colocar o acid house no 45 e o dub, e mixavam as duas coisas. A galera ia à loucura. Chegaram numa conclusão, “Poxa, por que na hora de produzir as músicas, a gente não aumenta o BPM [n.e. Batidas por minutos]? Em vez de ficar 130, vamos colocar 160 pra ver o que dá.” Era assim [cantarola], “Tum-tsi-tum-tis-tum”. Aí [cantarola mais rápido] “Tum-tsi-tum-tis-tum-tsi-tum”. E se quebrar? [cantarola] “Tum-tacata-ta-tum / Tum-tacata-ta-tum”. E se colocar um raga em cima? [cantarola] Aí, dominou. Começou crescer, crescer. E foi quando eu conheci o drum’n’bass. Eu estava já tocando ohardcore, que era o acid house acelerado. Quando se fala em hardcore, todo mundo pensa que é banda de hardcore. Aí teve essa parte na história da dance music. O raphardcore era onde o ectasy dominava na época. Foi nessa época, de 93 para 94, em que me deparei com isso. Havia muito raga, até por isso no início se intitulou jungle, e não chamou de drum’n’bass exatamente. Falei, “Nossa, meu Deus do céu, reggae comjungle é o que há. Aí, me identifiquei muito com isso. Ninguém tocava! Eu comprava os discos ali perto da Praça da Sé com um tal de DJ Marko, que depois virou Marquinho Marky MarK, que virou Marky Mark, e agora é Marky. Ele falava comigo, “Meu, toco numa casa na Penha chamada Showbusiness. Coloco esse tipo de som lá e vai maior bem”. “Nossa, cê toca isso?!” “Eu toco!” Aí comecei a freqüentar e não acreditava na reação das pessoas. Passou um ano. Havia um lugar em Interlagos, pertinho de onde eu morava, que se chamada Arena [n.e. Arena Music Hall, em Interlagos, SP]. Eu freqüentava muito. Passou um ano depois disso, comecei a tocar exatamente esse tipo de música. Em 95, os raga sumiram radicalmente e começou a vir aquela coisa melódica, bem atmosférica e supercabeçuda. Foi quando o Goldie [n.e. Nome artístico do DJ e produtor inglês Clifford Price, nascido em 1966, e um dos responsáveis pela popularização do drum’n’bass] lançou o primeiro álbum, Timeless [1995]. Era uma coisa muito diferente do que a gente fazia. Me pegou por dentro. “Que negócio musical!”, e comecei a tocar aquilo. Mas ninguém assimilou, porque era uma coisa mais tranqüila. Havia deixado aquela euforia de lado, né? Aí em 97, veio djzinho misturando rap, mas de uma forma mais séria, não tão estabanada. Foi quando apareceu o Roni Size. Aí veio o DJ Hype. O negócio ficou mais sério e… drum’n’bass! Quem deu essa guinada, de chamar de drum’n’bass, foi a Björk. Na época ela estava com caso com o Goldie e o drum’n’bass era um nome mais sério, ia tirar essa história do crack, do gueto, do ectasy. Aí, começou aquele novo estilo, drum’n’bass. Mas não era! Era filho do jungle. Tenho várias compilações com o nome drum’n’bass seletion, que são dessa época do jungle, 94.
Gafieiras  Você acha esquisito definir seu estilo como drum’n’bass, não?
Patife  É, na verdade, bati o pé e falei, “Meu, não tá dando certo, o coração não tá segurando essa onda. Vou tocar somente drum’n’bass!” Isso foi em 98, quando ainda, lá na Arena, essa casa em que trabalhei por quatro anos, sexta, sábado e domingo, tocando de tudo, começou a cair. O axé já não funcionava mais. O pagode não funcionava mais, a lambaeróbica não funcionava mais… Aí cheguei pro dono e falei, “Ó, meu, tu arruma outro!” Era uma sensação, né, cara? O que salvava a noite era essa porra de lambaeróbica à uma e meia da manhã. O drum’n’bass chegava às quatro, cinco, pra terminar, porque todo mundo esperava, principalmente aqueles que gostavam. Então, não estava dando mais nada certo. Fui e falei, “Ó, quero sair. Arrume outro DJ.” Tinha meu trampo de dia, ganhava o dinheiro que era pra sustentar a casa… “Me dá a noite de quinta. Quero fazer somente drum’n’bass das 7 às 11!” Aí me identifiquei com aquilo. “Quer saber? Vou ficar com isso mesmo!” Então, em 98 decidi levantar a bandeira mais alta ainda. Foi um problema, pois não havia festa pra tocar. “Cê tá louco, quer tocar só drum’n’bass? Não dá, não dá!” Hoje, depois de ter entrado na Trama, depois de ter lançado uma compilação, de ter lançado uma segunda, de tudo isso que aconteceu, do lance de remix, de produzir música, de fazer música – na verdade eu não faço (eu explico melhor depois isso aí) –, muita coisa mudou na minha cabeça e dentro de mim em termos de musicalidade, de se expressar mais na música. Sentar no estúdio com o produtor, com um músico mexeu muito comigo e o meu gosto musical amadureceu demais. Isso num espaço de dois anos. É muito esquisito, porque sempre fui uma pessoa muito limitada com música e muito preconceituoso. E hoje, não. Minha cabeça mudou muito. De sexta pra sábado eu checava e-mail de madrugada e escutava a história da arte da música erudita. Cê tá doido?! Quando ia escutar isso com 15 anos? Com 20 anos?
Gafieiras  Esse preconceito passava por onde?
Patife  Eu era ligado em dance music, pista. Isso é que movimenta! Hoje vejo que não é. Então, o meu negócio era club, dance, dance, dance, era dance music”. Se você falasse rock and roll, banda, “Não! Que essa porra!”
Gafieiras  No lançamento de seu segundo disco, você falou que seu vizinho ouvia jazz e queria mostrar pra você…
Patife  E eu falava, “Cê tá doido, meu?!”
Gafieiras  E hoje você faz jazz!
Patife  Não foi pelo amor, foi pela dor. O que aconteceu? Nessa transição de 95 para 96 foi quando a coisa mudou. Pintou um cara chamado Adam F. [n.e. Adam Fenton, produtor inglês nascido em Liverpool em 1972] no drum’n’bass, um puta nome dodrum’n’bass… Ele veio para o Free Jazz. “Pô, como vai ter um artista de drum’n’bass vai no Free Jazz?” E uma coisa que eu não sabia é que eu sempre adorei muito o som de saxofone. Gostava do som, não gostava de jazz propriamente. Não conseguia entender jazz, primeiro porque eu achava que era uma música de rico – eu era de grupo de rap, da periferia. Eu tinha aquela mente fechada de… “Meu, música deboy!” Que grande idiotice! Achava que aquilo não servia pra mim. Aí teve essa história do drum’n’bass no Free Jazz, foi quando comecei a abrir a mente devagarinho. Isso foi tudo gradual, devagarinho, devagarinho. Havia uma música que eu gostava, que era jazz e eu não sabia. Achava que era funk, que era qualquer outra coisa menos jazz, e foi isso. Na verdade, a visão foi aberta de 98 pra 99, quando entrei na Trama e tive contato com os artistas. Ir pra fora também mudou muito a coisa…

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