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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 22/23

Ó, mãe, essa é sua casa!

Gafieiras  Você é mais feliz hoje por ter tudo estabilizado, não ter que lutar pelo básico?
Patife  Hoje tenho tudo o que eu queria. Tudo tudo, tudo! Tenho um caranguinho, tenho um par de MK-2, que é o sonho de todo DJ, tenho um mixer, que é o meu titaniozinho, uma coisa que nunca pensei em ter. Mais o que vale pra mim são esses vagabundos que tão do meu lado desde que eu tinha sete anos e estudava na 1ª, 2ª séries. E todo mundo tá em volta hoje, com o mesmo pensamento, com a mesma coisa… Eu não sei se sou mais feliz hoje, cara, porque sempre fui radiante. Se um dia interessar, vocês podem ir conversar com o meu chefe ou com a minha mãe, minha vó. Elas podem relatar momentos que eu nem lembro, de falar “Ah, havia uma época em que você ouvia de canto, quieto…” Eles devem ter algum depoimento. Sei que fui muito, muito feliz. Sempre fui muito feliz. Hoje posso dizer até que sou menos feliz. Há uma meia dúzia de pessoas que durante o meu crescimento eu queria muito poder fazer algo. , Hoje tenho condições, mas vocês acreditam que essas pessoas deixaram o mundo? Fiquei meio triste, porque especialmente de uns três anos pra cá, vi uma puta luz no fim do túnel. Há muitas coisas, em termos que coração, que a gente pode fazer pelas pessoas, mas há muitas outras coisas que a gente também quer fazer materialmente, entendeu? A última pancada foi meu pai, tá ligado? Era um cara para quem eu queria pagar aquelas dívidas que ele tinha. Eu queria dar uma vida pra ele igual aquela que tô conseguindo dar pra minha mãe, tá ligado? Fomos comprar uma casinha, “Ó, mãe, essa é sua casa! Não é igual a essa do mutirão que tivemos que ficar aqui seis anos – aos fins de semana – para construir.” Com a situação que tenho hoje, e até com a que demonstra que vou vir a ter, fico meio… Penso, “Porra, podia tá todo mundo vendo agora esses momentos que tô vivendo!” Como o meu padrasto que quis me mostrar um caminho. Eu estava seguindo um e ele, “Meu, você tem esse caminho de homem, meu! É isso aqui que é a vida”. Penso ainda, “Se estivesse aqui o meu tio, de repente tivesse tomado outra cabeça”, sabe? Combinar com outro tio também, irmão do meu pai, que morreu há sete anos e que me dava o maior incentivo pra mexer com música. Ele tocava violão, adorava Bob Marley, quis ter uma carreira de artista e não conseguiu. Ficou frustrado, tá ligado? Hoje eu queria que ele estivesse aqui. São seis ou sete pessoas… Feliz pelo que tenho hoje, não, mas sou mais feliz por ter conquistado isso e poder desfrutar de tudo que esse lance de DJ me proporciona. A minha vida inteira sempre amei viajar, cara. Para Aparecida do Norte fui umas 15 vezes, somente pelo fato de da minha vó ir. Sempre fui louco por bus. Com 15 anos já dirigia. Muita gente me perguntava quando comecei a carreira, “E se você não fosse DJ, o que você seria?” Motorista de bus de viagem ou motorista de caminhão. Um dos tios que faleceu também foi motorista de uma transportadora. Vira-e-mexe eu ia pro Rio com ele, de caminhão. Adorava. Aí, às vezes, o cara fala, “E se hoje muda tudo. Se você perde o tesão ou sei lá?” Ah, bicho, juro, compro um caminhão e vou pra estrada dirigir! Adoro. Às vezes deixo de ir para o Rio de avião e vou de bus. Sou mó carente de sono hoje em dia, né? Pego aquela parte de baixo que vira quase uma cama…
Gafieiras  Pelo menos são seis horas pra você dormir.
Patife  Nem vejo, cara! A última vez em que fiz essa trip de busão, o motorista foi e me balançou, “Ô, chegamos! Estamos na garagem!” [risos] Mas falo, cara, hoje sou grato demais, pois o que aconteceu na minha vida… Até porque houve muita batalha, né? É igual aquela história. Se você beija uma mina fácil… Agora, se é aquela pra quem você paga um pau, que você chaveca uma vez e não dá certo, chama pra sair e não dá certo. E aí, um dia você a beija, cara! Nossa! Então, o que tenho hoje é igual a isso. Nossa, foi muito difícil, até pela discriminação, nego fechando a porta, “Não, aqui não pode tocar isso, não”. E hoje…

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Música eletrônica
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