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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 20/23

O que é a vida? Nascer, sofrer, se foder e morrer?

Gafieiras – Você é religioso? Você fala muito em Deus.
Patife  O meu padrasto falava muito de espiritismo, Alan Kardec. Ele lia muito isso. Aí começou a me levar e minha irmã na rua Santo Amaro onde tem um negócio chamado “Federação Espírita do Estado de São Paulo”. Comecei a freqüentar. Eu não gostava, não gostava, achava que espiritismo era macumba. Cara, fui e estou lá há três anos. Eu me identifiquei. Não fui pra a igreja católica. Cês não iam me achar muito arcaico. Pecado é você olhar a mulher dos outros, é transar antes de se casar. Aí fui indo e levando as duas coisas, nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Aí ia pra Federação e falava da vida após a morte. Eu não me senti bem na igreja, mas no espiritismo me senti confortado com muitas coisas. Algumas delas aconteceram pra provar pra mim mesmo coisas da vida. E acho que é essa coisa mesmo, de crítica, da gente não precisa entrar. Então, eu me considero um cara espírita. Sim, acredito no espiritismo.
Gafieiras  E ele ajudou a você entender esse ambiente em que você vivia?
Patife  Ajudou muito, cara, porque você via toda aquela coisa e falava, “Por que, meu, por que tenho que morar debaixo de um teto com um cara que acabou de sair da cadeia, sendo que meu pai bom? O que eu aprendi com esse cara, meu? Meu pai não teria como me ensinar. Hoje eu digo, meu pai no céu, os dois no céu, sei lá onde estão, mas, sabe quando você já tá entrelaçando com o cara? E quando eu começo a me entrosar com a história do som e da música, o cara vai embora. Aí, é quando vem essa história, “Pô, meu, por quê?” Com 13 anos, cara, segurar uma onda dessa? Não posso, meu! O cara tava com carrinho de rolimã na rua, era o que eu fazia, até os quinze anos de carrinho de rolimã na rua, eu sempre adorei. Aí, meu Deus do céu, cara, será que é a prova da vida? É o que a vida? É vir aqui, nascer, sofrer, se foder e morrer? Não pode ser. Eu me perguntava… Havia época em que eu chorava, cara, chorava, e minha mãe via, “Por que cê tá chorando?” “Não, mãe, tá doendo, tô com dor no coração”. Aí inventava, “Tô com saudade de fulano que morreu, tô com saudade…” Mas não era, era uma paranóia de, tipo assim, nasci, só vivo no hospital, não tenho saúde, não respiro, vivo nessa confusão. Por que, meu? Mas era feliz. Eu tinha isso em alguns momentos, tipo depois das novelas das oito ou então no domingo, quando tinha que voltar…
Gafieiras  Depois do Fantástico…
Patife  Cara, cê tem isso também? Era o Show de Calouros e o Fantástico! A musiquinha do final do Fantástico era uma dor, dor de coração. Puta, cara, vai acabar o Show de Calouros e eu vou ter de ir embora da casa da minha mãe. Era aquilo, oShow de Calouros, o Vale Tudo por Dinheiro, a última coisa, o último momento…
Gafieiras  Mas você aceitou essas respostas?
Patife  Todas. Hoje nada mais na minha vida é obscuro, nada, completamente.

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Música eletrônica
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