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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 19/23

Cachaça dos dois lados, da parte de mãe e de pai

Gafieiras  Fale uma letra de rap.
Patife  Que a gente tinha?
Gafieiras  É, de um rap de sucesso…
Patife  Puta, de sucesso eu não lembro. Havia uma letra pro Carandiru… Lembro somente dos outros que não fizeram sucesso, mas a do Carandiru era… [canta] “Terror no Carandiru / Terror no Carandiru / Muito sangue, muita morte no Pavilhão Nove”. Fizemos em virtude daquela coisa que aconteceu lá, do massacre. “Terror no Carandiru”. Não vou lembrar mesmo, mas tem uma que a gente falava …. Eu me lembro dela inteirinha, [canta] “Eu disse vítimas da fome, da violência / Cedo demais perdendo sua inocência / Vivem rodeadas em um mundo ingrato / Em ruas, favelas ou num orfanato / Como é difícil entender tanta demagogia de políticos ricos / Desprezam as crianças desse país”. Era uma parada assim. “Políticos / Tomem uma atitude / Pois não se esqueçam que seus filhos cresceram com saúde / Se preocupam com si próprios e pouco com a fome / Egoísta, desumano é seu único nome / Mas são todos / Isso eu não quis dizer / Mas como dizem por aí / Que tem muito pouco no poder”. Essa música era bem bacana.
Gafieiras  Como foi isso em sua casa?
Patife  Do que me lembro, é estranho, cara, minha família sempre foi muita confusão. Cachaça dos dois lados, da parte de mãe e de pai. Meu pai faleceu em novembro. Fiquei normal, porque foi de repente, foi atravessar a rua e um carro o atropelou. A gente tinha um laço muito forte. Cuidava do coração, mas sempre foi muito saudável. Então, quando eu penso na minha irmã, lembro sempre da minha mãe brigando com o meu pai na casa da minha avó. Ela precisava ir ao Fórum com meu tio. Aí meu pai bebia também. Na hora em que minha mãe chegava em casa, meu pai tava cheirando à pinga ou tava um pouco alegre. Depois meu pai saiu da vida da minha mãe e essa separação foi um baque pra mim, porque logo depois minha mãe queria que eu fosse morar com ela, mas eu gostava de ficar com o meu pai, por causa da minha avó. Foi mó conturbado. Entrei na escola tarde, com 8 anos. Sempre teve muita confusão, mas fui muito feliz.
Gafieiras  E o amor nessa loucura?
Patife  Ah, eu tive na casa da minha avó, sempre. Por isso eu gostava de ficar com minha avó. Nunca tive minha mãe por perto, porque ela sempre estava envolvida com isso: um dos tios que tomou muito mé e um atropelo. Ele viveu no… como chama o hospital de louco de Mococa? Minha mãe sempre tava indo pra Mococa nos fins de semana. Fim de semana indo pra casa do meu tio, no Fórum. Aí meu tio sai da detenção, entra na penitenciária, depois vai para Campinas. E de outro tio, que depois morreu, minha mãe teve que ir atrás de papel de INPS, essas coisas. Então, por quase 10 anos, minha mãe viveu para a família dela, para os irmãos. E havia o padrasto, mas com o padrasto eu não me dava muito bem. Era um cara rígido que minha mãe acabou conhecendo na prisão, que dividia a cela com o meu tio ou alguma coisa assim. Então se vocês já presenciaram alguma situação de amigo ou de familiares, é assim, no caso do filho: se você sai pro lado da sua mãe, a avó, as irmãs da sua mãe dizem o seguinte, “Cê tem que ficar com sua mãe, porque foi ela quem o criou, foi ela quem deu a luz, é ela quem vai saber te educar. E seu pai é um cachaceiro. Seu pai é não-sei-o-quê.” Meu pai tomava pinga, mas nunca deixou faltar nada dentro de casa. Sempre trabalhou. Meu pai não caía na rua. Ele tomava e ficava alegre, mas… Aí, vou pro lado da minha mãe… Lado do meu pai, meu vô português, que era onde eu gostava de ficar, minha avó falava assim, “Sua mãe tá morando com um homem que tava na cadeia. Esse homem não tem nada pra te ensinar. Você vai morar numa pensão.” Porque minha avó, mãe da minha mãe, tinha uma pensão com quarto que morava dez negos. E em um deles era o quarto em que eu morava, junto com minha mãe, minha irmã e o meu padrasto. Então, era uma confusão! Aí chegou uma época em que inventaram de ir no juiz, fazer audiência… “Ó, você vai ter que escolher: ficar com seu pai ou com sua mãe.” E eu, pô, por vontade própria, falei, “Quero ficar com meu pai. Não preciso ir ao juiz!” Mas minha mãe não queria me deixar com meu pai. Aí acabaram que, graças a Deus, por senso de cada um, “Ah, tudo bem, cê fica um pouquinho com quem cê quiser…”. Então era foda porque meu pai morava num lugar e minha vó morava em outro e eu ia numa escola. E tinha que se matricular noutra escola, então isso ficou muito conturbado. Mas eu gostava de ficar com meu pai porque na casa dele havia mais paz. Era somente a minha vó, o meu vô e o meu pai. E na minha mãe, não. Eram todos aqueles pensionistas, os meus tios que chegavam doido. Havia dia em que a polícia aparecia procurando coisas. Era foda! Quando meu tio saiu da cadeia – a primeira gestão foi de nove anos -, ficou um ano e meio na rua. Então, esse um ano e meio foi um terror. Aliás, nesse ano eu estava morando com a minha mãe. Era a minha mãe ajudando ele a limpar o nome. Ele aparecia com umas coisas que não devia. Eu via isso. Ele mostrava pra mim. Ele me chamava de truta. “Aí, truta, esse é o esquema. O tio vai pra não-sei-onde agora.” E era assim, cara. Tive o crime na mão dentro da minha casa, mas falava, “Isso, não!” E assim a família toda se despencou, cara!
Gafieiras – E mesmo assim você consegue levar as coisas numa boa, não?
Patife  Graças a Deus, cara.

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