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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 18/23

Um dia ainda vou fazer uns rap!

Gafieiras – Por você ter se envolvido com o rap, houve algum constrangimento quando você entrou na música eletrônica, afinal esta não é engajada como a primeira?
Patife – Lá por 90, 91, 92, quando eu era de um grupo de rap, os caras ensaiavam em casa, que era o local onde havia mais espaço. Vira-e-mexe, os caras chegavam para ensaiar e eu estava escutando Altern 8. “Pô, meu, essas músicas de boy!” “Mas eu gosto. Não adianta!” Havia essa coisa, mas eles não chegavam… Davam uma tostadinha de leve. “Pô, essas músicas, esses poperô!” Quando a dance music estourou, eu ficava puto, porque meu primo, minha irmã e os vizinhos eram roqueiros. Até quando rolou a febre de Seattle, com o Red Hot, o Pearl Jam, tudo mais, “Ô, Patife, você vem com esses poperô!”. Eu ficava puto, com a maior raiva. Havia um preconceito. Depois eu larguei o grupo de rap…
Gafieiras – E você ainda carrega essa carga rap?
Patife – Carrego. Compro disco de rap toda semana. Uma das maiores inspirações hoje vem do r&b, do rap, do soul…
Gafieiras – E nacional?
Patife – Nacional eu gosto de muito pouca coisa. Gosto do trabalho do Xis, do RZO. O Silvera não é rap.
Gafieiras – Racionais?
Patife – Alguma coisa. Os três primeiros álbuns eu amo de paixão, mas os caras estão falando de um problema mas não arrumam a solução. Está fudido, está fudido, está fudido, e o governo não faz nada. Sei lá, falando apenas tecnicamente, a produção do rap nacional em geral, com a tecnologia que temos hoje, com os produtores, com a estrutura que eles têm, ainda é muito cru, cara! Um dia ainda vou fazer uns rap. Vou! No meu disco vai ter uns rap!
Gafieiras – Nesse terceiro?
Patife – Vai, lógico.
Gafieiras – Fale um pouco sobre o lance do MC.
Patife – O drum’n’bass é o rap a noite inteira no meu ouvido. E tocar fora do Brasil sem MC não funciona, cara! Tem que ter MC. A cultura do drum’n’bass cresceu assim. Na verdade, eram os sounds system de dub e reggae que sempre tinham. Eram três caras. O selecta, que é o cara que pegava o disco pro DJ, e o MC. Então essa é uma cultura que o drum’n’bass sugou. Por exemplo, dubplate, que é essa coisa que a gente faz antes de prensar o vinil, pra não tocar CD, em que a gente vai ao estúdio, prensa o acetato, uma copiazinha só, é uma coisa que vem do reggae. O nome já diz, dubplate. Eles tocavam. “Vai ter um sound system hoje à noite!” “Ah! Vamos lá para o Music House [n.e. Local onde os DJs cortam os dubplates – discos de acetato prensados por unidade e tocados por tempo limitado] cortar o plate para tocar essa noite!” Não sei se vocês entendem de dub, eu não entendo muito, mas você compra um CD Dubplate session, foi o tune da noite. Música pra os europeus, em vez de song ou track, como americano fala, é tune. Havia um lugar em que a gente costumava cortar em Londres chamado Music House, que era o lugar onde Bob Marley cortava os deles. Até o Bob Marley tocava os plates. É mó interessante. Eu corto em outro lugar porque tem a maior fila no Music House. Você fica 4, 5 horas para cortar um dub. Arrumei um outro lugar em Londres, onde tem um sofazinho, tudo muito mais rápido. Mas tem uma puta história, os autógrafos dos caras, o reggae. Os caras que cortam os dubplate são regueiros que estão há 30 anos com aquelas porra analógicas cortando plate. Maior bom, cara!

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Música eletrônica
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