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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 17/23

A gente faz o drum'n'bass brasileiro

Gafieiras – Patife, você faz música brasileira?
Patife – [silêncio] Eu acho que sim.
Gafieiras – É importante cantar em português? Antes havia um preconceito, não?
Patife – A gente tinha esse preconceito no início. Hoje não tem mais. Verdade, verdade. Mas, é isso que eu falo para a galera que pede dica, para ser produção nacional, não é preciso ter vocal em português, não é preciso ter a viola ou o pandeiro, ou o que for. Por exemplo: tenho várias músicas no CD que não tem nada disso mas que não deixam de ser produção nacional. Faço, sim, música brasileira. Eu creio. Agora, faço drum’n’bass com clima de música brasileira, só que drum’n’bass não é música brasileira. Mas, hoje tem o drum’n’bass brasileiro.
Gafieiras – Pouca coisa nasceu aqui, muito foi transformado.
Patife – Pois é. A gente faz o drum’n’bass brasileiro que soa diferente do drum’n’bass inglês. Falei para um cara de Los Angeles no Rio que fiz uma turnê de 15 dias em outubro e ele não acreditou como perdeu. Ele me disse, “Vi Gilles Peterson nos Estados Unidos, pela Internet, na BBC, tocando DJ Patife e Fernando Porto, ‘Sambassim’. Quem é DJ Patife? Comecei a pesquisar na Internet. Cara, vou lhe pedir, do fundo do meu coração, ‘Não mude! Continue fazendo isso! É muito novo, cheira diferente! Pegue isso que você tem na bagagem do Brasil e ponha no drum’n’bass. Faça isso, mande cantar!” Aí você fala, “Porra!”. Algumas pessoas aqui estão querendo me matar. Por exemplo: ‘Você vai ficar usando vocal? Já cansou, já encheu! Qual é a nova?’ Pô, será que a gente precisa ter uma coisa nova a toda hora? Você não vê lá fora a Bebel arregaçando com a mesma coisa de sempre, mas com uma história diferente, com um timbre diferente? É preciso somente saber usar a tecnologia.
Gafieiras – No meio da música eletrônica imagina-se que seja uma constante mudança. Tudo deve mudar, até pela facilidade da tecnologia.
Patife – Você vê o Trio Mocotó, a gente não ouve muito falar dos caras. Mas fora daqui é incrível como eles arrebentam. Fizeram há pouco Cingapura, Hong Kong, Japão, Austrália. Vai tocar pra brasileiro?
Gafieiras – O “Sambassim” em Londres é cantado em português?
Patife – É. Do mesmo jeito. Toca do mesmo jeito que fizemos na Vila Adelina.
Gafieiras – O caminho foi diferente de bandas de rock que cantam em inglês para chegar lá.
Patife – Não. De brasileiro que eu vi lá até hoje todo mundo faz o daqui. Eu vi João Donato… Tocamos em Montreaux no ano passado… Puta festival de jazz, cara! Vi umas personalidades lá que tremi nas cadeiras! João Donato, meu! Marcos Vale! É muito esquisito como casa a bossa nova com o drum’n’bass. Mas quando vamos produzir, colocamos o metrônomo em cento e setenta e pouco o tempo. Eles, não, em 86. Só que se você dobra o 86, dá 174. Então, muita coisa que pego – essas coisas gravadas, CDs –, nem mudo para 174. Somente jogo no meu tempo, só que ele está [solfeja] “can cancancan / can cancancan”. Só que em 86 ele casa, porque divide por dois. Então você não precisa dar time strange. Vai que é uma maravilha. É muito lindo!
Gafieiras – Vi o Marky tocando na Praça da República no aniversário da cidade.
Patife – Multidão!
Gafieiras – Multidão! Tanto ele, quanto você, parecem ter uma legião de fãs que os acompanham, do pessoal da periferia aos mais novos. Você tem essa consciência? Vocês podem ser exemplos de pessoas que venceram na vida?
Patife – Escuto isso direto, até porque tenho um programa, todo domingo, às 23h. Sempre chega email e carta, principalmente do centro onde moro, Vila Joaniza, avenida Cupecê… Para ficar mais fácil… Passa o Aeroporto de Congonhas, aí na frente tem o viaduto Washington Luís. Se você continuar, tem o Shopping Interlagos. Então você desce, passa debaixo do viaduto e pega sentido Diadema. Do lado esquerdo você tem a Vila Santa Catarina, Jaquabara e, acima, o Aeroporto, e desse lado, onde a gente mora, a Cidade Ademar, a Vila Joaniza, e lá pra dentro, o Jardim Miriam. Depois começa a quebrada nervosa. Então, as pessoas daquela região que sabem que sou dali dizem “Puta, já pensei em desistir da faculdade, mas não vou desistir. Eu via você fazer som aqui na escola, na rua debaixo, não-sei-onde…”. Então, pegam você como espelho. As pessoas viram você crescendo. Não rola essa indiferença. O cara vê na TV e sabe como foi toda a história.
Gafieiras – Não é distante.
Patife – Não é distante e vou manter isso. Agora, vamos mudar para uma outra rua, mas no mesmo bairro, pra nunca ter essa história. Algumas pessoas dizem, “Mas morar nesse bairro não é perigoso?!” “Cara, se eu tiver que ser roubado, serei na Rebouças, em Guarulhos, no Capão Redondo, onde sempre vou consertar o carro… O que tem que acontecer com a gente, acontece em qualquer lugar”. Porra, vejo uma molecada de 12, 13 anos que pira.
Gafieiras – E esse pessoal da periferia freqüenta as casas em que você toca?
Patife – O pessoal da periferia? Vai. Pelo menos uma vez por mês. Vai. O foda é que é na quinta. Eles têm que levantar cedo para trabalhar na sexta. Às vezes é foda pagar 25, 30.
Gafieiras – Mas em véspera de feriado?
Patife – Aí está todo mundo. Logo que abriu a Lov.e, quando meia dúzia começou a ir, época em que havia aquela história de “você entra, você não entra”, uma parte ficou amargurada. Achavam que “Sou pobre, venho da Zona Sul, Zona Leste”. Depois que parou de ter o “dedo”, começou uma discriminação… As pessoas que iam, olhavam os caras de bonezinho… Houve uma época em que ninguém ia. Até uma confissão… Quando tive que ir lá pela primeira vez foi meio esquisito. Muito, muito, muito… “Pô, Marky, não vou naquele lugar, não!” O Marky teve uma concepção melhor sobre esse esquema do Jardins/Periferia. Eu, não, até porque vim de uma formação diferente, do rap. Hoje, com a cabeça que tenho, acho ridículo. Acho que música é feita para branco, preto, azul, japonês, africano e por aí vai. Mas foi meio estranho. Senti que as pessoas te olhavam diferente. As pessoas que têm um poder aquisitivo maior, sabem o que você veste. Isso, para uma pessoa rica, para uma pessoa xarope, é o maior valor do mundo. É você estar de Gucci, Armani e por aí vai. E o moleque que está lá só quer ver o Marky e delirar. Esse é o maior valor pra ele. Mas de uns três anos pra cá, todo mundo está misturado. Os boys com os da perifa, todo mundo troca informação. Tem gente que somente ia em festas no Jardins, agora vai para a periferia, vai em Mauá, na Broadway, que gosta de ver essa agitação. Isso acabou 100%. Eu não vejo mais. Veja as raves. É a maior reunião de classes, de A pra Z.
Gafieiras – Quando você entra no Skol Beats, a tenda do drum’n’bass é um exemplo disso.
Patife – No caso do Skol Beats tem uma diferença muito grande porque a grande massa toma conta. Não é tão misturado como é na Lov.e, mas tem sim, gente de outras classes.
Gafieiras – O drum’n’bass é o som dos adolescentes da periferia?
Patife – Eles gostam de outras coisas, mas se você for lá no fundão, o som da periferia é o drum’n’bass. Ficou, cara. Não sei se é porque a foto do drum’n’bass tem três, quatro caras que vieram da periferia. Não sei se é por isso.

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