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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 16/23

Não construí aquela barrreira que o popstar constrói

Gafieiras – Patife, você vê com otimismo a música eletrônica no Brasil? Há, de fato, uma expansão?
Patife  Vejo crescente num circuito alternativo. É a mesma pergunta de todo jornalista, nenhum passa em branco. “Você acha que a música eletrônica vai se massificar no Brasil, Patife?” Eu falo, “Não! Porque a música eletrônica, nem aqui nem no mundo, vende disco. Então, pra massificar no Brasil a indústria fonográfica precisa ter interesse mesmo.
Gafieiras – Investir.
Patife  Se a indústria fonográfica não acreditar em uma coisa, nada vai se massificar no Brasil. Tudo que é massificado é porque a indústria fonográfica acredita. Então, a música eletrônica não vende disco nem no Brasil nem no mundo. Os maiores discos que eu vi vender… Não, o que foi, cara? Chemical Brothers? O Prodigy acho que vendeu meio milhão, ou algo assim. Um Prodigy que tocou na Jovem Pan, na Globo, não vendeu 50 mil no Brasil! Imagine eu, ou sei lá quem!
Gafieiras – Você vendeu quantas cópias?
Patife  Em torno de quinze, até hoje. E o novo agora tá quase em torno de 50. E eu dou pulo de alegria por saber que tem aí mais de 50 mil pessoas com o meu disco na mão. Prefiro que seja uma opção da galera clubber escutar uma coisa de música brasileira, porque é legal música eletrônica hoje porque se você liga a televisão e põe no Faustão tá a Kelly Key no seu colo. Você muda pro canal 7 tá lá de novo a Kelly Key no seu colo. Põe no canal 21, tá a Kelly Key no seu colo. Então isso enche o saco do cara. Acho que hoje muita gente tá naquela parada do DJ. Uma coisa que muito me chamou a atenção nesses anos todos de DJ é de procurar aquele disco que cê não acha nem fodendo, tá ligado? Aí vai na internet, puta, deixa ver se eu consigo baixar, deixa ver se eu consigo isso. Então hoje tá mó legal isso com a gente, pelo menos no drum’n’bass. Hoje os cara querem um remix do Simoninha que a gente fez. Ninguém acha, cara! Não tem na internet, não tem, não tem, não tem! Então hoje tá todo mundo pegando esse gosto de novo, de ir atrás das coisas. É… pocotó, égua pocotó, não agüenta, tá no rádio, tá em tudo, então o cara enche o saco. Tá legal cê ir atrás das coisas hoje. E eu tô vendo que cada dia mais as pessoas estão com essa história de ir na FNAC, “Deixa eu ver se tem aquele CD lá…”, de ir na galeria e, “Puta, deixa eu ver se tem aquele CD”…
Gafieiras  Patife, o seu público mudou? Antes você tocava em casas da periferia e hoje o pessoal vai na FNAC procurar o seu disco.
Patife  Hoje tá em tudo! E hoje a galera que…
Gafieiras – É forte…
Patife  É muito forte. Se você for em uma festa na periferia, você não acredita, cara, não mudou. E hoje cresceu e eles continuaram atrás, dando suporte. A galera vai atrás. Por exemplo: esses dias a gente fez uma festa, nossa!, quase mil nego cantando as músicas, gente que casou que a gente não via há 4, 5 anos e que ficou sabendo e ia lá… Incrível, todo mundo, aqueles que, meu, tava com você lá em 93, 94. Você via e … o cara gosta, né, meu? Muita gente hoje tá tratando isso como dinheiro, como business e tal, mas somente a gente que é de dentro que vê o quanto é importante aquilo para aquele cara que tá ali na pista que tava cantando em 94 e hoje em 2003. Só a gente sabe que aquilo é um estilo de vida pro cara, uma coisa que o cara cresceu ouvindo aquilo. Quando ele tiver 50 anos, ele vai lembrar, “Puta, quando eu tinha 18, cara, eu escutava um tal de Marky, Patife, com umas músicas…” E tem muita gente que hoje trata somente como business. Na verdade, é um business hoje, como acontece em geral, mas pra mim não é somente um business, é um estilo de vida, é uma coisa com a qual me identifico, que eu gosto de ouvir, que é o meu trabalho, que aí é onde vira business. É um estilo de vida pra mim!
Gafieiras – Como é que foi essa profissionalização pra você, que tocava até há pouco em danceterias amadoras e, de repente, você chegou nos caras, tem um CD, está na Trama?
Patife – É como estávamos falando… Eu não tenho noção, mas tenho que achar algo, e esse algo que eu acho nesse momento…
Gafieiras – Foi assustador?
Patife – Assustador, não. É uma realização muito, muito grande. Como você falou, tocava uns “junglinho” pra galera, gostava e ia dançar, e hoje os caras que são os meus astros faz assim pra gente, “Venha aqui!”. Os caras falam, “Vocês sabem o que vocês construíram?”, “Vocês pegaram a nossa música e plantaram a raiz e hoje tem uma árvore da qual colhemos frutos. Vocês ganham, nós ganhamos, o mundo inteiro ganham. Vocês sabem o que é isso?!” Então, a verdade é uma realização. Não vou dizer um sonho, porque não tínhamos esse sonho. O sonho era ir para Londres, conhecer os caras e comprar discos. Esse era o nosso sonho. Então, isso nós realizamos. Hoje, ser residente em uma noite lá fora, onde toco três, quatro vezes e as pessoas vão me ver, isso é escroto, esquisito. Os caras vão para te ver, cara! Eles falam, “Quando você vem tocar aqui, vem um outro público, gente que não vem regularmente!” Então, é uma ralização. E hoje tento ver o que a gente construiu. Mas não quero ter noção, porque não quero mudar a minha vida de como a vivi até hoje, como agora, de pegar um trenzão, ir para São Caetano. Não quero mudar nada. Não quero ter aquela imagem de um cara da TV, de um pop star. Pelo amor de Deus, isso não pode acontecer comigo. Não que vá rolar uma parada Kurt Cobain, vou me suicidar, mas quero ter liberdade, de andar na rua, ir ao mercado com a minha mãe. Quero que tudo fique normal. As pessoas que conheço falam, “E aí, Patife, beleza?”, “Beleza”, não construí aquela barrreira que o pop star constrói.

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