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Entrevistas de música brasileira

DJ Patife

DJ Patife. Foto: divulgação

DJ Patife

parte 15/23

Não tenho noção do que a gente construiu

Gafieiras – Outros movimentos e ritmos musicais que surgiram na periferia, como o rap, ou mesmo o pagode, tem uma relação muito forte com a comunidade. Como é sua relação? Você quer ter esse estúdio pra fomentar a criatividade das crianças que estão lá, ou não tem nada a ver com essa história?
Patife  Eu quero ter esse poder de ajudar quem não tem condição. Nem é tanta condição financeira, mas a condição “luz no fim do túnel”, sabe? Pô, principalmente agora, pelo fato de ter rolado esse negócio com a Fernanda, então tem muita gente que olha pra mim e “Ó, cê é o cara pra eu te dar um CD e me levar pra algum lugar”. Mas, às vezes, a pretensão do cara é outra e não rola nada. Mas o que eu tô querendo dizer é o seguinte: vem uma pessoa com talento e, de repente, vou me identificar prum trabalho meu ou pra ajudar aquela pessoa e falar, “Meu, acho que isso é uma coisa diferente, ninguém nunca teve uma sacada pra isso. Vamos experimentar fazer alguma coisa!” Dar um puxão na pessoa. Se minha vida financeira for boa nos próximos anos e não precisar fazer, “Puta, vou ter que produzir isso pra poder ganhar dinheiro e pagar conta”, ajudar os outros, beleza… Eu tenho esse coração, de ajudar. Meu sonho maior é ver o mundo bem, é ver todo mundo bem.
Gafieiras  Numa pista, né?
Patife  É, numa pista. Eu acharia isso demais!
Gafieiras – Você se sente pressionado? Existe alguma pressão quando as pessoas lhe entregam um CD?
Patife  Às vezes existe. “Ô, meu, vê o que cê pode fazer por mim”. Ou a parada é assim, “Ô, vamos fazer uma coisa juntos?” Mas você vê sangue no olho do cara, você não vê brilho. “Quero fazer porque é uma coisa do momento, porque é moda”. Aí, vamos lá, beleza, vamos ver, nunca trato mal ninguém. Você escuta o trampo do cara e sabe quando você vê que está forçando uma coisa? Tá forçando porque quer ir pro rádio… E com a gente nada aconteceu assim. A música do Marky com o Xerxes, “Carolina”. Olhem a história dessa música. Eu estava fazendo o Cool steps e falei, “Porra, tem música da Lady Zu, botei música de não-sei-quem, e, Marky, não ter uma música sua vai ser foda. Faz uma música aí pra eu colocar no meu disco.” “Vou fazer o quê?” “Sampleia um samba-rock rapidinho aí. Você sabe a cara que eu gosto, meu. Uma coisa de r&b, um funk. Sampleia alguma coisa do Jorge Ben, alguma coisa assim.” Passaram-se três dias. Liguei de novo. “E aí, meu, tá fazendo? Vou ter que mixar o disco semana que vem.” “Corre aqui no Xerxes que vou te mostrar. A gente teve uma idéia.” Aí cheguei lá e havia dois compassos, dois canalzinhos, assim ó [solfeja] “tan dan tantã tanrã / tan dan tantan tanrã / tandandã / tantã”. “Uau!” Aí, o segundo compasso era [canta] “Ela mora no meu peito / Ela mora…” “Puta, meu, coloca a segunda parte”. E as outras duas [canta]… “E o vizinho dela…” Cruzinho. Beleza! Passam dois dias, voltei lá e ele, “Se liga aqui”. [solfeja] Com efeito, com tudo. “Nossa!” Cara, sabe quando arrepiou? “Meu, cê gostou?” “Bicho, me dá agora!” Mixei o disco e a gente foi pra Londres. Aí o Xerxes, super desligadão, não tocou a música. Foi uma coisa que me ajudou muito lá fora. Fiz um evento com a BBC chamado I love live London. Estava de dentro do Bar Rumba transmitindo para o mundo. Rádio, internet. Somente na Inglaterra eram 20 milhões de nego ouvindo. Aí toquei essa música. Cara, ninguém nunca havia escutado. Ninguém, nada, nem nosso empresário. Ninguém! O povo foi à loucura! Voltou, tocou do início e ficou todo mundo doido. Aí, um cara chegou na cabine e “Meu, de quem é essa música?” Essa música é do Marky e vai entrar no meu CD”. Quem disse que os caras deixaram a música entrar no CD? Fizeram um puta trampo com a música. Seis meses depois da música daquele jeito, o Stan, que é nosso MC, tinha a mania de fazer “It’s do hei hei / It’s do hei hei”. Só assim, só assim, nada mais. Aí, quando parava, antes de entrar a violinha, ele ficava [canta] “This is wrong me to you / This is wrong me to you”. Aí, [canta] “Let me bring so to you / It’s goes hei hei / Do you play sound / It’s do hei hei”. Tipo, “Esse é o jeito que a gente toca esse som pra você”. Aí, daqui a pouco, “I like, you like, we like too”.
Gafieiras – De improviso?
Patife  De improviso. Ele é MC, tem a manha de fazer rima e improvisar. Passou uma época, “Ô, vai tocar ‘It’s does hei’? Vai tocar ‘it’s does hei?” “Que ‘It’s does hei’?” [canta] “It’s does hei hei”. Cara, olha, eu arrepio por inteiro! Foi muito esquisito isso.
Gafieiras  Essa foi a segunda música brasileira que entrou na parada…
Patife  Foi a terceira. “Garota de Ipanema” no 25º, Sepultura com “Orgasmastron” no 19º, e Marky no 17º.
Gafieiras – É a história.
Patife  Cara, e é foda, porque essa música não tem como não tocar no set até hoje. Vai pra três anos…
Gafieiras  Na parada da BBC?
Patife  Não, no Chat Nacional, as 40 mais. A gente dava risadas. Britney Spears no 28º [risos], “Slave for you”… Pô, foi a única coisa que gostei. Foi produzido pelo N-Tunes. Puta, é o maior bicho do caralho aquela música, mas tem que tirar a voz para ficar linda! Põe a voz, fodeu! A gente dava risada, cara! Não acreditávamos! Quando a gente se junta, fala-se de música, mas também de outras coisas. “Tá saindo com não-sei-com-quem”, “O que está pegando?”, “Ô, e sua mãe?”. Aí quando toca no assunto, a gente fala, “Caraca, né, cara!” Particularmente, não tenho noção do que a gente construiu e o leque que abriu…
Gafieiras – Você está percebendo agora.
Patife – Agora que estou começando a perceber. Vejo uma coisa que me deixa feliz, que acabou ajudando de tabela. Por exemplo, abriu o maior circuito pro DJ. Porra, hoje vejo o Renato Cohen que entrou no mesmo barco da gente – o nosso empresário foi quem fez contato com o Tal Cox. Então, não ajudou somente eu e o Marky, ajudou muita gente. Pô, hoje vejo ele trabalhando o Luis Eurico, trazendo o Groove Armada no ano passado. Abriu o maior leque, criou um movimento de verdade, e não o que a gente tinha, que era o drum’n’bass na periferia. É uma cena brasileira para onde o mundo inteiro olha. Caralho, em Varsóvia nego fala, “Puta, quero ir para o Brasil porque dizem que a cena é legal lá”! Em Tóquio, eu escutava, “O Brasil vai ser o maior mercado de ‘dance music’ mundial nos próximos anos”. Cê acha?

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