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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 8/11

No Brasil não se noticia cultura

Tacioli – Cristina, dá para dizer que essa turma mais nova de sambistas tem um fundo ideológico ao optar por esse repertório e esses artistas da velha guarda? Como uma espécie de resistência?
Cristina Buarque – Ah! Acho que eles cantam o que gostam, mesmo! E de repente um conhece duas ou três músicas do Zé da Zilda, “Pô, vamos procurar mais coisas!”, aí vão no Museu da Imagem e do Som (MIS) e ficam catando, copiando fita, com dificuldade, porque o MIS tem esse negócio de cobrar uma fortuna por música. Essa mocidade faz isso porque tem interesse.
Tacioli – Engraçado, porque a imprensa folcloriza esses estilos mais antigos, considerando-os estáticos, e veste esses artistas novos com nostalgia.
Cristina – Tipo “Que velhinho bonitinho!”. Li outro dia um artigo da Lena Frias, que fez muita coisa boa no Jornal do Brasil, dizendo que se cansou de ver a cultura do Brasil, que é um país que tem tanta coisa boa, ser tratada como uma coisa exótica. Não se noticia o que acontece em cultura. O que existe é “Vamos fazer uma matéria sobre um cara que é bonitinho, um velhinho bonitinho que faz não-sei-o-quê, não-sei-onde”. Isso acontece muito. Hoje a imprensa está nisso, entende?! É muito difícil você divulgar um trabalho legal. Agora, você tem que ter a figura do assessor de imprensa, que muita gente tem [risos], pra ficar mandando aquelas notinhas para o jornal. “Cara, fiz um show, fui aplaudido de pé”, é o próprio assessor de imprensa do artista quem manda. Vira uma coisa de vaidade. Para se fazer um show você tem que ter um assessor de imprensa para ficar em cima, tem que ter o gancho da mídia. [risos] Não adianta você mandar fax e e-mail. E aí tem a reunião de pauta… Então é foda! [risos] Você tem que ter o assessor de imprensa que conhece todo mundo no jornal e que consegue plantar a notícia. É tudo assim. A cultura não interessa mais!
Tacioli – Alguns jornais buscam nas reuniões de pauta definir “a próxima tendência” da cultura. Se acharem que essa moçada nova do Rio pode ser vista como uma tendência, eles vão dar capa e fazer um auê, caso contrário…
Cristina – E é a mesma coisa das gravadoras. De repente, o pagode está vendendo, vamos fazer um monte de disco de pagode. E aí vira esse troço. É um emburrecimento geral! E isso, naturalmente, passa para o leitor, que é o cara que não está por dentro, que não conhece o meio. Ele fica sem saber que existe essas coisas, como a Lapa. Vai para o Rio, fica num hotel querendo ouvir música boa, mas o cara vai mandá-lo ver as mulatas. O que ajuda muito lá no Rio é a Agenda do Samba & Choro. Ali tudo é divulgado.
Tacioli – A Agenda tem “correspondentes” em outros estados.
Cristina – É. Não mexo com computador, não entendo nada disso, mas gostaria só por causa dessas coisas, ver o que está acontecendo, os comentários. É um negócio ótimo, porque na imprensa tradicional você não tem como saber o que está rolando.
Zeca – Mas quando você vai fazer show em outros estados a história muda, não?
Cristina – Em São Paulo já melhora. Fiz um show em Brasília que saiu na primeira página do Caderno de Cultura. Ali também não acontece muita coisa, qualquer novidade na cidade já é notícia. Antigamente isso também virava notícia no Rio, hoje não vira mais.

Não tenho um assessor de imprensa

Tacioli – O Herminio falou em uma entrevista ao Estadão que esse tipo de trabalho que vocês exercem tem muito a ver com formação de público, mas é uma tarefa dolorosa.
Cristina – É muito difícil por causa disso. Já tive momentos de me desanimar. Não tenho um assessor de imprensa! [risos] Aí batalha, batalha e o jornal não dá nada, não tem público, ninguém fica sabendo. Isso para tudo, discos e shows.
Zeca – Mas a terceira idade é fiel, né?! [risos]
Cristina – É, a terceira idade… Ontem você viu, né?! Tudo branquinho na platéia. O meu público é esse! [risos] Também quero o quê? Faço show com o Roberto Silva, faço show cantando o repertório da Aracy de Almeida, Noel Rosa. [risos] Tem muita gente nova que gosta, que se interessa por esse tipo de música, mas também tem muito velho. Gente da minha idade, com 50 anos, não vai muito a esse tipo de show, não! É muita cabecinha branca.
Tacioli – Você já pensou em gravar obras de compositores mais novos?
Cristina – Olha, quando fiz os meus discos de gravadora, eu misturava um pouco. E surgiu uma ideia no tempo da SACI, e que foi conversada com o Maurício Tapajós, em fazer um disco com músicas do Paulo Cesar Pinheiro e seus parceiros. Mas o Maurício morreu, a SACI acabou e essa ideia ficou parada. Esse disco precisa ser feito! De repente não sou eu, mas alguém tem que fazer esse negócio. O Paulinho é um cara que tem muita música no baú. Ele tem uma facilidade impressionante para fazer música, e tem muitos parceiros, do pessoal mais antigo ao mais novo.
Dafne – E fora o Paulo Cesar Pinheiro, teria mais alguém?
Cristina – O Paulinho é meu contemporâneo, não é novo. Dos novos teria a Teresa Cristina, essa menina do grupo Semente. Ela está fazendo muita música bonita. E não conheço mais coisas de gente nova. Ela eu acompanho porque estou sempre na Lapa. Mas ainda não é uma pessoa conhecida em São Paulo.
Tacioli – Mas você também já trabalhou como compositora?
Cristina – Muito pouco. Fiz coisas de brincadeira para blocos de Carnaval.
Tacioli – E com o Mauro Duarte?
Cristina – Com o Mauro fiz a letra de um samba que ele havia feito, mas achava curto. Fiz dentro da melodia e do tema dele, mas assim meio de brincadeira, usando as palavras difíceis. E no Bloco do Barbas eu também fazia uns pedaços, só de brincadeira. Hoje em dia lá no Rio todo mundo está fazendo samba para bloco. Não faço mais, não! Quando não tinha muito quem fizesse, eu até dava uns palpites. Tem tanta música boa que fico achando que se eu fizesse, ou não faria uma tão boa, ou estaria arriscada – como conheço muita música – a fazer um troço que já foi feito. Morro de medo disso! Então, não faço, não! E não sei fazer muito coisa séria, só faço na palhaçada. [risos]
Zeca – Na Europa definem sua música como samba sensual.
Cristina – É, o CD Sem tostão… A crise não é boato foi visto numa loja de lá com a definição “Samba sensual”. [risos] Agora, por que é sensual, eu não sei? [risos] Não tem nada a ver. É muito estranho.
Tacioli – Nós entrevistamos o Mauricio Pereira e ele afirmou seu desencantamento com a arte, com a música. Um dos temas interessantes da conversa foi a perda do sagrado na arte. Segundo ele, por uma série de circunstâncias, hoje não se produz mais clássicos. Como você definiria o sagrado da música dos anos 30 aos 50 com que você tanto flerta? O que se tinha de especial na construção daqueles sambas? Você consegue ver isso?
Cristina – Não sei o que ele está dizendo como sagrado. Acho que existia uma qualidade e um compromisso maior tanto com a melodia quanto com a letra. E como se fazia música boa, o outro compositor tinha que fazer uma boa também, e assim por diante. É completamente diferente o tipo de melodia que se fazia do que se faz hoje na área do samba. Para fazer sucesso hoje não é preciso uma música boa. Aliás, quanto mais fraca, mais se toca.
Almeida – O que ele dizia é que se tinham produções contundentes, coisas que não queriam se passar por nada. Ele falou até que a década de 90 foi a década das coisas quererem ser alguma coisa, ou se passarem por algo, e não serem de fato.
Tacioli – A década da moda, da imagem.
Cristina – É, aí tô um pouco por fora, não sei muito. É uma coisa mais fútil.
Tacioli – Hoje em dia é difícil você falar em grandes discos ou shows antológicos.
Cristina – É. Muitas vezes percebemos que a música é o menos importante. Você tem que ter um monte de coisa acontecendo em volta, bailarinos, cenários e coisas assim.
Almeida – Eu estava vendo na TV um show do Zezé Di Camargo & Luciano e, de repente, desceu um helicóptero. Parecia cenário dos Trapalhões.
Cristina – É tudo megaproduções. É tem muito isso. Na música, ou você tem de um lado isso, essas coisas de mega, tudo mega, ou você tem uma coisa pobrezinha, só com a música mesmo, onde não rola divulgação. E essas coisas mega são um acontecimento, todos os jornais dão. Quer dizer, a música é o menos importante, ela perdeu sua importância.
Tacioli – Você acha que dá para se dizer em modernidade do samba, que existe uma linha evolutiva do gênero?
Cristina – É, todo mundo diz que tem que evoluir, até samba-enredo. A essa altura, não tenho que achar isso, acho que piorou mesmo e pronto! Não tem que evoluir! Se for evoluir para pior, prefiro que fique parado do jeito que está.

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Mauricio Pereira

Tacioli – Fala-se muito isso do choro, mas é curioso porque é um gênero que tem quase 150 anos e sua estrutura é moderna. Dizem que o choro precisa se modernizar para conquistar as gerações mais novas.
Cristina – É, mas hoje você tem o choro mais moderno que é superlegal. E esse cara que toca o mais moderno, também toca o tradicional. Todo mundo do choro conhece e gosta do tradicional. Não tem “Ah! Isso é coisa de velho!”
Tacioli – E isso se encaixa ao samba?!
Cristina – Não, para o samba não dá para dizer isso. O samba-enredo tem que virar marcha. Às vezes um show tem cinco instrumentos de percussão e mais bateria, não tem as coisas da harmonia, o violão, o sopro, o cavaco. É batucada, mesmo! O importante é o ritmo para o pessoal sair dançando. Você não ouve o que a pessoa está cantando, se tem letra, se tem música, isso não é mais importante. O importante é o ritmo e a dança.

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