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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 7/11

O cara que toca pagode não conhece Ataulfo Alves

Tacioli – Cristina, quando você conheceu o Herminio Bello de Carvalho?
Cristina Buarque – Conheci o Herminio há muito tempo, mas só fiquei mais próxima dele depois da homenagem ao Maurício Tapajós, em 95. Fizemos vários trabalhos juntos. O Maurício queria fazer um lançamento dos discos da gravadora dele, e pediu para o Herminio fazer um roteiro. E o Herminio fez uma pequena traição com o Maurício. O Maurício era um cara tão bom, zelava tanto por tudo e por todos, que deixava de se cuidar. “Vamos fazer um show em homenagem ao Maurício sem ele saber?” O Maurício já estava muito doente. Tínhamos reuniões e tudo, e o Maurício achando que estávamos preparando o show de lançamento da SACI, mas era uma homenagem a ele. E aí ele acabou morrendo, o que facilitou as coisas pra gente, porque eu estava me sentindo muito culpada. “Pô, Herminio, o Maurício não vai gostar disso. Ele não vai querer uma homenagem.” “Não, tá na hora, temos que fazer!” A morte dele facilitou as coisas. Fizemos um show lindíssimo, emocionante. Aí fiquei muito amiga do Herminio, participei bem de perto de coisas que ele fez, como a produção do disco e do show Chico Buarque de Mangueira, vi como é esse negócio de roteiro e roubei algumas ideias dele. Mas às vezes dou umas para ele também.

O músico, compositor e produtor carioca Maurício Tapajós (1943-1995). Foto: Reprodução

O músico, compositor e produtor carioca Maurício Tapajós (1943-1995). Foto: Reprodução

Tacioli – O que você tem a dizer desse pessoal novo do Rio, Cristina?
Cristina – Isso tem muito lá no Rio. Você vai para a Lapa na sexta, sábado e domingo, a mocidade – esse pessoal de vinte e poucos anos – está tocando e cantando um repertório com essas velharias. E o pessoal está se interessando! É gente que não ouve esse tipo de música em rádio e televisão. Eles foram se interessando por essa música, pesquisam coisas, vão ao Museu da Imagem e do Som procurar fitas, trocam informações com outros. E são vários grupos que se misturam e, de repente, forma-se outro conjunto para se apresentar em bares da Lapa, Praça Tiradentes. E o pessoal que vai assistir conhece os sambas e canta junto. Isso é uma coisa que as gravadoras, as rádios, as televisões não estão querendo ver, que esse tipo de música dá o maior pé. E a mídia trata como folclore. Às vezes sai uma matéria com a mocidade, diz que o cara gosta de tocar pandeiro porque as menininhas olham, essas besteiras! Não se olha a importância disso, que é esse pessoal tirar do nada, sair procurando e cantando.
Dafne – Em São Paulo isso também tem acontecido. O Quinteto em Branco e Preto é um dos que mais se destacam.
Cristina – Esse pessoal lá no Rio não faz quase televisão ou rádio, faz bar das 11 da noite às 3 da manhã todo fim de semana. Tem gente que faz três dias, na quinta, sexta e sábado. Não sei como eles aguentam isso num bar, às vezes, com um som ruim, um monte de gente conversando e gritando, mas sambando. Faço isso num dia e fico morta dois. Eles fazem direto e o bar fica muito lotado, dentro e na calçada, e as pessoas aprendem as músicas. O trabalho desse pessoal é muito bonito, porque estão fazendo uma divulgação da música boa e não estão ganhando nada. Claro que é legal quando fica muito cheio, dá uma graninha, mas pelo trabalho que eles têm, não é proporcional.
Tacioli – Quem você destaca desse grupo, Cristina?
Cristina – Principalmente o pessoal que está com a gente nesse trabalho. O grupo Semente, com a Teresa Cristina que é a cantora, e o Dobrando a Esquina. Tem também um grupo chamado Anjos da Lua.
Zeca – Tem o jongo.
Cristina – Tem o pessoal que trabalha com o jongo lá na Serrinha, que até tem viajado, mas não estou tão por dentro disso. Sei que tem muita criança e que esse pessoal fica levantando as músicas para não se perderem. Parece que estão gravando um disco agora.
Tacioli – De uma mesma forma, o choro também está numa fase boa.
Cristina – O choro também. Tem a gravadora do Maurício (Carrilho), a Acari, que todos os discos são maravilhosos. Ele construiu o estúdio na parte de cima da casa do pai dele, que mora no térreo lá em Acari. Na parte de cima tem um teto de amianto. É quente! Peguei aquilo antes do estúdio ser montado. Numa tarde de verão eu ia daqui a ali, pegava um chope, e quando chegava na mesinha, ele já estava quente. [risos] Mas eles construíram o estúdio com ar condicionado. É muito bom, e tudo o que eles fazem lá é muito bom. Fora isso, tem o Choro na Feira que fica cheio de gente. É uma feira normal, lá em Laranjeiras. Eles começaram a sentar lá e tocar.
Zeca – E a passar o chapéu.
Cristina – Passam a caixa do cavaquinho [risos], e nego bota um real, dois reais. No final não dá para nada, mal paga a condução, mas é uma alegria. Já fizeram disco e se apresentam no Rio. Está virando uma coisa profissional.
Zeca – Eles são profissionais!
Cristina – É, são músicos profissionais.
Tacioli – A que se deve esse momento? Você tem alguma teoria?
Cristina – Acho que as pessoas estão meio cansadas de tudo que está se vendo por aí de música. Ao mesmo tempo em que partem para fazer música, elas estão estudando. Por exemplo: o músico que toca choro tem que estudar, tem que conhecer a obra do Pixinguinha, do Jacob, do Ernesto Nazareth. Já o cara que toca pagode não conhece a música do Ataulfo Alves, toca de qualquer jeito, de orelhada. E esse pessoal do samba que está vindo estuda música, porque são esses sambas antigos que têm uns troços mais rebuscados do que essa coisa mais fácil que as gravadoras estão fazendo.

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