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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 6/11

Eu cato, não sou pesquisadora!

Tacioli – Cristina, você se considera uma pesquisadora?
Cristina Buarque – Eu cato, não sou pesquisadora. O pesquisador é aquele cara que tem um material enorme, fruto de anos de levantamento. Muita gente acha que sou pesquisadora, mas não sou, não! Dou umas catadas, ou faço, esporadicamente, uma pesquisa sobre uma coisa ou outra, mas não sou pesquisadora. Para ser pesquisadora tenho que ter um material que eu não disponho, discos que eu não possuo. Também não cuidei muito disso, fui dando, fui emprestando. Não sou pesquisadora.
Tacioli – Mas você tem um método?
Cristina – Conheço muita coisa e tenho boa memória.
Tacioli – Mas como você armazena materialmente essas informações?
Cristina – Estou querendo organizar, mas não sou muito organizada. Se falam de uma música e tenho isso em casa, não sei onde está. Tenho que ficar procurando. Estou querendo listar tudo o que tenho e onde está. Vai ser um trabalho grande, porque muita coisa está em fita.
Tacioli – E como esse tipo de pesquisa, de catação, tem se acentuado nos últimos anos, já que seus discos mais recentes são “temáticos”?
Cristina – São, né?! Os dois do Noel e o do Wilson Baptista. O Noel foi o seguinte: quando saiu aquele livro do João Máximo e do Didier sobre Noel [n.e. Noel Rosa: uma biografia, ed. Universidade de Brasília/Linha Gráfica Editora, 1990], eu e o Henrique Cazes conversávamos muito. Lemos o livro na mesma época. Daí o Henrique teve a ideia de fazer um show só com voz e violão. Fiquei meio apavorada porque nunca tinha feito show assim. Gosto de pôr um monte de gente para cantar! [risos] Dar uma descansada! Além de alguns sucessos, incluímos músicas menos conhecidas. Deu certo e fizemos o segundo. Do Wilson Baptista foi uma ideia do Herminio Bello de Carvalho. Antigamente era uma coisa regular, já que eu gravava disco de carreira e escolhia o repertório. Há muito tempo não faço isso. O último que fiz, gravei em 90, chamado Resgate, do produtor japonês Tanaka. Ele fez o disco e o lançou no Japão. Saiu aqui também, pela SACI, mas com uma tiragem pequena. Acabou.
Tacioli – É o mesmo Tanaka da Velha Guarda?
Cristina – É ele mesmo. Esse foi em 90, o último que escolhi o repertório. Fiz em 74, 76, 78, 80 e 81. Isso dentro das gravadoras. Depois só fui fazer em 85 um independente com o Mauro, e esse em 90. Quer dizer, não existe uma coisa regular. Em seguida fiz esses dois com o Henrique, de Noel Rosa, e o Wilson Baptista, que foi uma ideia do Herminio. A gente estava conversando sobre o Wilson Baptista, e ele perguntou se eu não gostaria de fazer um disco. Da Lei de Incentivo Fiscal até encontrar alguém que se interessasse em bancar o projeto, demorou mais de dois anos.
Tacioli – E a que se deve esse tempo de um disco para o outro? Relação com as gravadoras, como você havia dito?
Cristina – É. Gravadora grande hoje em dia nem pensar. Como é que se diz? Não estou encaixada no perfil. [risos] Tem que ser por selo pequeno. E tem essa coisa de editar música, essa dificuldade.
Tacioli – Mas mesmo para os discos produzidos nas décadas de 70 e 80 existe um espaço de tempo razoável de um para o outro.
Cristina – É.
Tacioli – Por que esse hiato entre os álbuns?
Cristina – Quando gravei em 74 fiz um contrato com a RCA Victor de dois discos. Fiz um em 74, e outro, dois anos depois. Acabou o contrato. Aí o Faro arrumou para eu ir para a Continental. Era um disco. Depois fui para a Ariola, quando ainda era uma gravadora nova. Fiz dois discos em anos seguidos. Acabou o contrato e a gravadora não se interessou pela renovação. O disco não vendeu quase nada, mesmo! O disco que vendeu mesmo foi o compacto de “Quantas lágrimas”. Eles falam “Primeiro sucesso”. Eu digo “Primeiro e último”. [risos]
Dafne – Em 85 foi lançado o álbum Flores em vida, do Nelson Cavaquinho. Como você participou desse disco?
Cristina – Foi a partir dele que comecei a pesquisar mais repertório. O disco foi produzido pelo Carlinhos Vergueiro, que me chamou para ajudá-lo nessa parte. Saí catando essas coisas de Nelson Cavaquinho, tanto com o próprio, que estava vivo, como com as pessoas que tinham fitas com ele. Ele mesmo não se lembrava de tudo. Um dia lembrava-se de uma música, em outro dia, de outra. A obra do Nelson Cavaquinho é imensa e muito boa. O Afonso Machado, do conjunto Galo Preto, fez recentemente um trabalho grande sobre isso. Ele até andou pegando algumas coisas comigo. O Afonso tinha uma música que eu morria de vontade de ouvir, já que ouvi o Nelson cantá-la uma única vez. E o Afonso me arrumou uma gravação dessa música.
Dafne – Qual é a música?
Cristina – Chama-se “Entre a cruz e a espada”, uma música bonita à beça, do Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito, acho. É linda! Então foi aí que comecei a catar músicas por autor. Às vezes penso em fazer isso com os autores menos conhecidos. Ontem, por exemplo, o Sérgio Cabral falou muito do Haroldo Lobo. [n.e. 1910 – 1965] Mas se você falar “Haroldo Lobo”… Não é um Ataulfo Alves, um Noel Rosa. Porém, ele tem muita música que fez sucesso! É muito bom! Existe um monte desses assim, que o nome não é tão conhecido, mas são tão bons quanto os mais conhecidos. Haroldo Lobo, Roberto Martins, Ciro de Souza. Existe um monte.
Dafne – Haroldo Lobo é autor do “Alá-lá-ô”? [n.e. Gravado em 1941 e composto com Antonio Nássara]
Cristina – É. Ele fez muita marcha de Carnaval e samba bonito.
Zeca – Só para pegar esse mote de catação. O Tacioli estava me perguntando o que você tem feito de projeto. Citei o “Eles por Elas”, um show que poucas pessoas tiveram oportunidade de assistir. Algumas ficaram sabendo pela imprensa, que também não colabora muito.
Cristina – A imprensa dificulta muito hoje em dia você fazer qualquer coisa.
Zeca – Esses espetáculos têm uma coisa que você faz muito bem que é roteiro. Não sei se quando você cata ou está ouvindo música, você já está pensando em roteiro. Você poderia falar do roteiro do “Eles por Elas”, que tem um monte de brincadeira de uma música com a outra.
Cristina – É uma coisa que eu gosto muito de fazer. Como tenho a memória boa para esse tipo de música – samba antigo – gosto de fazer essa brincadeira, uma música que cabe em outra. Esse show trouxe músicas que compositores homens fizeram para ser cantadas por mulher. É muito engraçado! Uma das cantoras do grupo falou “Nossa, o que eles pensavam da gente!”. [risos] Tem uma do Wilson Baptista que diz “Estou me desmilinguido igual sabão na mão da lavadeira”. É muito bom, né?! O Herminio me apresentou um samba que eu não conhecia, gravado pela Isaurinha Garcia, que fala “Eu não sou pano de prato para suas mãos enxugarem”. [n.e. “Eu não sou pano de prato” (1941), de Mário Lago e R. Martins] [risos] Eles são muito engraçados. O show tinha várias músicas da mulher sofredora, com dor de cotovelo, mas também das mulheres revoltadas, daquela que bate no cara, daquela que gosta de apanhar. Fomos juntando. Eu me amarro em fazer roteiro de brincadeira.
Tacioli – Nos shows de hoje é difícil você identificar uma linha de condução.
Cristina – É, uma linha, uma historinha. Quem faz isso muito bem é o Herminio Bello de Carvalho. Estou aprendendo muito com ele. Estamos fazendo um trabalho juntos agora! Ele tem essa coisa da historinha. Ele pede para você escrever letras de música e sempre faz uma observação engraçada do lado: “Ela é tinhosa!”, uma coisa assim. [risos] O Herminio vai vendo o que é a letra para encaixar com uma outra. Vira tudo personagem.
Zeca – E sobre o Cabo Laurindo?
Cristina – Comecei a catar essa história por curiosidade de saber quem foi o Cabo Laurindo. Li, acho que em um livro sobre o Wilson Baptista, que esse personagem que aparece em muitas músicas não existiu na verdade. Eu estava cantando um samba desses e o Xangô da Mangueira perguntou “Quem é esse Laurindo? Nunca conheci esse cara! Isso é invenção!”. A primeira música em que se falou de um cara chamado Laurindo foi em “Triste cuíca”, que é um samba de trinta e poucos, do Noel. E o Wilson Baptista, em quarenta e não sei quantos, falava que o Laurindo havia ido para a Guerra. E aí fiquei procurando… Haviam dito que existia um samba em que o Wilson queria matar o Laurindo porque ele não aguentava mais a história dessa figura. Iria matá-lo num crime passional na Mangueira. Ele ia cair na ribanceira, não-sei-o-quê. Fiquei procurando em toda a discografia do Wilson Baptista, pelos nomes, pelas datas, tentando descobrir isso, mas não achei. Então gravei nesse disco do Wilson Baptista uma sequência do Laurindo, que vai e volta da guerra.

Depois de morto, o (cabo) Laurindo foi pra Guerra!

Dafne – Com “O comício em Mangueira”!
Cristina – É! E quem fez muita música falando em Laurindo foi o Herivelto Martins. Até no livro sobre o Wilson Baptista, o autor diz que ele se gabava por ser o compositor que mais falava do Laurindo, mas acho que já encontrei mais músicas do Herivelto. [risos] Uma amiga minha do Rio, a Teresa Cristina, está fazendo uma pesquisa sobre Zé da Zilda. Ela achou um samba que eu tinha lido nesse livro, um samba que o Zé da Zilda fez para gozar o Wilson Baptista. Diz que o Laurindo havia ido para a Guerra, mas ficou lá atrás. [risos] Como é que é? [canta] “Conversa Laurindo / peço que não leve a mal / você não foi onde estava o rival / anda dizendo que lutou como herói / e no entanto nem saiu de Niterói / Aproveitou a nossa vitória / E assim conseguiu o seu nome na História / Agora vejo você falando que viu a cobra fumando / Lá na linha de frente / Nem eu nem você fizemos nada / Ficamos na retaguarda / Aplaudindo nossa gente.” [risos] É muito bom, né?! E agora o Herminio me deu uma gravação da Isaura Garcia – ele está catando umas coisas da Isaurinha Garcia – em que aparece esse samba do Wilson Baptista, de querer matar o Laurindo, só que não está no nome do Wilson Baptista e é anterior ao “Cabo Laurindo”. Encontram o Laurindo morto. É um samba bonito pra caramba! Ele apareceu morto na ribanceira ou no morro da Mangueira. Então deve ser esse samba. Agora, não sei se é do Wilson Baptista. Está em nome de outra pessoa, mas não me lembro agora.
Zeca – Ou roubaram a autoria ou a ideia?
Cristina – É, ou como o Wilson Baptista era malandro pra caramba, de repente já existia o samba e ele… Mas existe esse samba que fiquei procurando para botar no CD. Inclusive não obedece uma sequência cronológica, já que ele foi gravado antes do “Comício em Mangueira”, que é da época da Guerra. Esse é de 41, acho. Quer dizer, mataram o Laurindo, e depois de morto, ele foi para a Guerra!
Tacioli – Dá para fazer uma biografia do Laurindo.
Cristina – É, virou uma brincadeira, um fez um samba sobre o Laurindo, [canta] “Laurindo desce o morro gritando / Não acabou…”, isso é Herivelto. Aí outro fez mais um samba, e assim começou esse negócio sobre o Laurindo, que é um cara que nunca existiu! [risos]
Zeca – Laurindo não é um nome comum, não é um João.
Cristina – É! E esse “Comício em Mangueira” é um negócio emocionante, a volta dele, o discurso, as pessoas chorando. E é tudo mentira! [risos]

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