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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 5/11

Cheguei a estudar Fonoaudiologia

Tacioli – Cristina, você nasceu em São Paulo, mas mora no Rio há anos e grava muito sambista carioca. Como você definiria sua relação com São Paulo e Rio de Janeiro?
Cristina Buarque  Engraçado, não sei te dizer isso, não.
Tacioli – Ao mesmo tempo, sua primeira gravação foi uma música do (Paulo) Vanzolini.
Cristina – Foi. “Chorava no meio da rua”, isso em 67. Vanzolini foi amigo do meu pai e da minha mãe, que é quem tinha maior resistência a esse negócio de música. Ela queria que eu estudasse. Eu era meio vagabunda, e ela tinha medo de “Vai virar cantora de rádio!”, essas coisas assim. Minha mãe tinha um pouco de bronca. E como Paulinho Vanzolini era muito amigo deles, ele conseguiu dobrá-la e me botou no disco cantando essa música. E no outro ano já fiz uma música no disco do Chico. [n.e. “Sem fantasia”, gravada no álbum Chico Buarque de Hollanda – Vol. 3, de 1968] Aí começou a virar bagunça!
Tacioli – Então o Vanzolini foi um dos responsáveis por sua vida artística?
Cristina – O Vanzolini e o Fernando Faro foram os responsáveis pelo começo da minha carreira. O Faro foi quem fez esse negócio de arrumar a gravadora e produzir meus primeiros discos. Eu nunca tinha pensado em ser cantora. Tinha participado de um disco aqui, outro ali, e cantava em casa. Não achava que ia ser uma cantora.

Almeida – Você achava que ia ser outra coisa, Cristina?
Cristina – Cheguei a estudar Fonoaudiologia [risos], mas parei no 3º ano. Também não sei se eu queria ser uma fonoaudióloga! [risos] Achei que era interessante, entende?! Tinha uma parte ligada à Anatomia que eu não conseguia entender, aqueles pedaços de ossos, pedacinhos de nervos. Eu não conseguia decorar, não! Eu gostava de Fonética e de Psicologia. Mas tinha que aprender essa parte ligada à Medicina, e aí fui largando o curso.
Dafne – A que se deve essa distância entre sua participação no disco do Vanzolini e do Chico e a gravação de seu primeiro LP?
Cristina – É, tem um espação aí. 67, 68. Depois fiz uma coisa ou outra, participei do disco do Chico Maranhão, do Carlinhos Vergueiro, mas acho que já foi depois de eu gravar. Eu fazia coisas em televisão com o Fernando Faro, como o programa com o Ismael Silva. [n.e. MPB Especial, 1973] E eu estudava, não pensava que ia ser cantora, não! Em 74 acho que fiz um desses programas com o Faro, e ele perguntou se eu não toparia fazer um disco. Ele conversou com o pessoal da RCA Victor, que se interessou. Fizemos dois discos. E o Faro ainda produziu o terceiro, na Continental.
Tacioli – Que recordações você tem desse primeiro disco? Como é que foi a sensação de estar gravando seu primeiro trabalho, de escolher repertório?
Cristina – É, isso eu adoro fazer. O Fernando Faro apresentava muita coisa que eu não conhecia. E tinha uma pessoa que também ajudava muito com repertório que era o Miécio Caffé. [n.e. Ilustre cartunista e colecionar de discos, 1920 – 2003] Nunca cabe num disco tudo o que a gente gostaria de gravar. Fizemos o primeiro, dois anos depois fizemos o segundo. É, na verdade eu teria que ter gravado muito mais.
Tacioli – Tem uma história interessante desse primeiro disco, Cristina?
Cristina – Eu me lembro de que os músicos do Rio vieram a São Paulo, e o Paulinho da Viola participou tocando cavaquinho em “Quantas lágrimas”.

Estreia familiar - No LP de Paulo Vanzolini (1967) e no disco do irmão de 1968, Cristina dá os primeiros passos na fonografia, que ganha título individual em 1974. Fotos: Reprodução

Estreia familiar – No LP de Paulo Vanzolini (1967) e no disco do irmão de 1968, Cristina dá os primeiros passos na fonografia, que ganha título individual em 1974. Fotos: Reprodução

Zeca – Você conhecia todo esse pessoal do Rio quando eles vieram gravar seu disco?
Cristina – Deixo eu ver… Acho que já conhecia o Luna, o Marçal, o Eliseu, o Dino. Não lembro como os conheci. No Rio sempre tinha “homenagem a…”. Peguei isso uma vez, “Homenagem ao Pixinguinha, Donga e João da Baiana”, no Orfeão Portugal, um lugar lá na Tijuca. Aí eu ia para o Rio. Fui também muitas vezes ao Teatro Opinião. Xangô da Mangueira, Clementina de Jesus, esbarrava com esse pessoal, mas eu não era amiga desses músicos que foram participar do disco. E como eles gravaram o LP e voltaram para o Rio, eu não tinha como lançá-lo, fazer shows, essas coisas. Nessa época eu quase não fazia show. Ao mesmo tempo eu estava começando a ter filhos. Então era mais uma coisa de gravar o disco. Gravei o segundo disco, e o primeiro show que fiz foi com o Carlinhos Vergueiro, na rua Doutor Vila Nova, onde tinha um teatro. É uma travessa da Maria Antonia. E fizemos com músicos do Rio e outros de São Paulo.
Zeca – Quem veio?
Cristina – Xixa do Cavaquinho, Jorginho do Pandeiro, Dino. O Faro arrumou um programa na TV Cultura para descolar as passagens. Eles vieram e fizeram o programa. Acho que até fiz o programa com o Dino, cantando uma música dele, para eles poderem fazer o show. Mas era difícil. Eu não convivia muito com músicos de São Paulo. O meu negócio era com o pessoal do Rio. Eu ia sempre pra lá. Depois que mudei para o Rio comecei a trabalhar mais, fazer shows, uma coisa mais profissional. Esses dois discos que gravei em São Paulo eram “gravar o disco e cuidar de filho”. Não tinha aquela veia artística! [risos]
Tacioli – E “Quantas lágrimas”?
Cristina – “Quantas lágrimas” é desse primeiro disco. Foi engraçado. Peguei aquele LP que o Paulinho da Viola fez com a Velha Guarda em 70. Eu gostava do disco todo. Foi quando cheguei a conclusão de que eu era portelense. Lá no Rio uma escola de samba é como time de futebol. Aqui em São Paulo as pessoas não tem muito disso, ou não tinham. Naquela época eu não tinha muito ideia de escola de samba. E quando vi esse disco, “Pô, a Portela é muito boa, todo mundo é muito bom! Vou gravar uma música!”. Mas fui gravá-la quatro anos depois, não sabia nem qual delas eu gravaria, já que gostava de todas. Regravei o “Quantas lágrimas”. E foi um sucesso. Naquela época não tinha jabá, música de trabalho. Começou a tocar devagarinho e aí a RCA lançou um compacto simples. Já existia o LP. Como lançaram o compacto, muita gente nem sabe que existe esse LP. Tiraram do LP o “Quantas lágrimas” e acho que do outro lado era uma música da Ivone Lara. O que vendeu muito foi o “compactozinho”, não o LP. E só fui conhecer a Velha Guarda depois disso.
Tacioli – Você ainda não conhecia a Velha Guarda da Portela?
Cristina – Não, não conhecia, não! Um dia fui na casa do Manacéa, ele chamou um monte de gente, e ficamos cantando a tarde toda. Volta e meia o Manacéa ligava, “Vou fazer uma peixada aqui”. Aí eu pegava o trem, ia para o Rio, lá para a casa do Manacéa. Fui a vida toda amiga deles. Mas os conheci, acho, em 75.
Tacioli – Se não me engano, o sucesso de “Quantas lágrimas” em seu disco fez com que na reedição do disco da Velha Guarda da Portela a música saísse…
Cristina – É, trocaram a ordem. A música que abria o disco era “Levanta cedo”. “Quantas lágrimas” era a última do lado A, ou do lado B. Daí botaram na frente.
Zeca – Promoveram, né?! [risos]
Cristina – E é uma gravação linda do Manacéa com a Velha Guarda. É bonito! Esse disco é todo bonito!
Tacioli – E você depois voltou a regravar “Quantas lágrimas” em um outro álbum.
Cristina – Não, nesse disco que eu fiz com o Mauro Duarte tinha um pot-pourri que era parte do show da gente, e entrava a primeira parte do “Quantas lágrimas”. Era só porque tinha a seqüência das músicas, uma resposta para a outra.
Tacioli – Pelo jeito você não acompanhou a gravação desse disco da Velha Guarda da Portela, de 1970?
Cristina – Não, não acompanhei de perto, não! Ganhei esse disco no ano em que ele saiu, ano em que a Portela ganhou o Carnaval. Ano também em que “Foi um rio que passou em minha vida” estava fazendo muito sucesso. Naquela época eu ia muito para o Rio, mas não tinha essa grana para ver desfile. Então fui para a concentração sem conhecer ninguém. Dali só conhecia o Paulinho da Viola e um ou outro compositor. Na concentração eles cantavam “Foi um rio que passou em minha vida”. A escola passava – era na Presidente Vargas ainda, não existia o Sambódromo – e conforme ia terminando, os caras iam saindo e começavam a cantar de novo “Foi um rio que …”. Um negócio emocionante! Nesse mesmo ano saiu o disco da Velha Guarda.
Zeca – Ele não fez sucesso, fez?
Cristina – Não, o disco teve uma tiragem muito pequena e foi mal divulgado. Pouquíssimas pessoas tinham esse LP, uma raridade durante muito tempo. Quatro anos depois, “Quantas lágrimas” fez sucesso, e com a morte do Natal (da Portela), a gravadora relançou o disco, mas mudou sua capa. [n.e. O bicheiro Natalino José do Nascimento, mais conhecido por Natal da Portela (1905 – 1975), um dos fundadores e patrocinador da referida escola de samba de Oswaldo Cruz] Botou um desenho ou um retrato, não me lembro, do Natal na capa – originalmente era o Paulo da Portela, mas a gravadora tirou e botou o Natal. [risos]
Zeca – Mas no lugar da foto? Ou era outra capa?
Cristina – Era outra capa.
Zeca – Aquela capa é muito bonita.
Cristina – É bonita! Fizeram isso e ainda trocaram a ordem das músicas. Botaram “Quantas lágrimas” em primeiro lugar. O Paulinho da Viola, que era o produtor do disco, chiou, e a gravadora recolheu. E só agora foi sair em CD com a capa original. Mas com a ordem das músicas trocadas.

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