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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 4/11

O pessoal da Velha Guarda não fazia música pra ser gravada

Tacioli – Queria que você falasse um pouquinho sobre sua infância, como era, e como surgiu sua relação com música. Que tipos de recordação dessa época você tem?
Cristina Buarque – Quem me apresentou essas figuras do samba antigo que gosto até hoje, Mário Reis, Francisco Alves, aquelas coisas de dupla, discos do Noel, Aracy, Cyro Monteiro, foi meu irmão mais velho. [n.e. Sergio Buarque de Holanda Filho, o Sergito] Ele adorava esse tipo de música e eu ouvi muito. Fora isso, tinha o lance da Miúcha… Aí era uma espécie de Família Trapo. Ela tinha mania de juntar todo mundo. Ela tocava violão e distribuía vozes para a gente, as irmãs, uma espécie das Pastoras do Ataulfo Alves. Fizemos isso muitas vezes. Então existia esse negócio de cantar em casa desde meus 6, 7 anos. E, lógico, iam juntando outras pessoas. Essa cantoria em casa rolava muito. Isso é o mais para atrás que me lembro. Depois a Miúcha foi morar fora, e o Chico já estava começando como compositor, quando começamos a fazer isso com ele também. E com o tempo a gente foi juntando, conhecendo amigos em São Paulo que gostavam de música, de samba, um que tocava violão, outro que tocava atabaque, que parecia atabaque de macumba – não se usava tantã naquela época e ainda não tinha o surdo. Era uma coisa de juntar amigo para cantar, e hoje no Rio vejo uma mocidade que faz isso, que gosta de ouvir samba antigo, cavucar, pesquisar. Eu e minhas irmãs fazíamos isso naquela época, quando tínhamos 16, 17, 18 anos. Mas esse negócio de gente nova tocando e cantando não era muito comum nem em São Paulo, nem no Rio. Também não éramos profissionais, fazíamos porque gostávamos mesmo.
Tacioli – Você nasceu em São Paulo?
Cristina – Nasci e morei muito tempo em São Paulo. Fui para o Rio com 26, 27 anos e já com quatro filhos. Só minha filha caçula é que nasceu no Rio.
Tacioli – De que forma essa história de ouvir sambas antigos apresentados por seu irmão mais velho determinou sua carreira, já que ela é, artisticamente, muito coerente?
Cristina – É, de repente foi ficando. Também fui conhecendo o pessoal que naquela época era novo, como o Paulinho da Viola. Tinha muita gente começando, mas, ao mesmo tempo, tinha também os compositores mais antigos que ainda estavam vivos. Com 18, 19 anos eu ia muito para o Rio. Convivia com Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Ismael Silva. Esse é o pedaço que tenho a maior pena de não ter gravado mais coisas. Ainda tenho restos de coisas… Outro dia achei uma fita bem velha, com o Nelson Cavaquinho tocando, eu, minhas irmãs e primas cantando com ele. Na casa do Candeia também gravei alguma coisa, e tenho uma fita com Donga tocando violão. Ele tocava “Patrão, prenda o seu gado”, e a filha dele, Lígia Santos, fazia coro. Ele fazia aquele ponteado e dava aquelas batidas no violão, fazendo o ritmo e tocando ao mesmo tempo. É um negócio lindo! E ainda reclamava dizendo que a mão já não estava mais obedecendo. Ele estava bem velhinho.
Tacioli – Você já tinha essa preocupação em registrar esses encontros?
Cristina – Eu registrava alguma coisa, mas como íamos em grupo, sempre alguém gravava e depois passava a fita para a gente copiar. E não era nem em cassete, era naquele gravador que tinha um rolinho pequeno. Não cabia muita coisa, não! Quando o cassete começou não era todo mundo que tinha. Tenho pena de não ter registrado mais essas coisas. Tive mil vezes com o Nelson Cavaquinho, mas gravei pouco. Tenho coisas, mas muitas se perderam. Esses caras faziam música e se esqueciam. Convivi também com muita gente da Velha Guarda da Portela, gente que já morreu, e hoje ficamos tentando lembrar. O Monarco lembra muito sambas dos outros, mas não é a toda hora. E muita coisa se perdeu com quem morreu. Francisco Santana, que era um grande compositor! Alvaiade é um que teve mais músicas conhecidas por ter sido gravado por cantores da época de discos e rádio. A Velha Guarda apareceu naquele disco que o Paulinho da Viola produziu em 70 [n.e. Portela, passado de glória, RGE, 1970] e depois muitos cantores gravaram músicas deles. Mas Alvaiade é um que já gravava desde mil e novecentos e nada. Ele já tinha sido gravado por um monte de cantor famoso.
Zeca – Agora, você e o Mauro Bolacha (Mauro Duarte) também começaram a registrar sambas de outros da velha guarda.
Cristina – A gente começou com essa ideia com o Francisco Santana, ir na casa dele e ver o que ele tinha no baú. “Vai lembrando, vai lembrando!” Tivemos a ideia, não fizemos e o Francisco Santana morreu um pouco depois. Aí fizemos isso com o Manacéa. Tenho uma fita com o Manacéa que fizemos na casa dele. Ele tem sambas lindíssimos! E com certeza não é tudo, porque eu ficava reclamando. “Lembra mais, lembra mais!” Um tempo antes falei para ele ir anotando as músicas que ele ia se lembrando. O pessoal é muito velho. E tem uma coisa que me falaram por causa do Jair do Cavaquinho, que fez um disco muito bonito agora, mas que ainda não saiu. “Fala uma música!” “Não, essa é muito diferente. O pessoal não vai gostar!” Então tem isso, eles acham que a coisa é diferente, quando não, pintam músicas maravilhosas. Não tem que ser aquela coisa que nego grava, que faz sucesso, não! Tem umas coisas diferentes que também podem fazer um sucesso danado. É que eles têm vergonha de mostrar.
Tacioli – Você acha que essa realidade que a gente vive ou que se vivia os influenciava a mostrarem ou não uma música?
Cristina – O que acontecia antigamente com o pessoal da Velha Guarda é que eles se reuniam sempre e faziam músicas assim, contando coisas que aconteceram, deles, a história de uma mulher, de um amigo. Tudo virava música. Não tinha aquele negócio de fazer música pra ser gravada. Eles nem imaginavam que um dia alguém iria gravar. Era um prazer mostrar música para os outros. Às vezes tinha concurso na Portela, o chamado samba de terreiro, hoje samba de quadra, mas não era música de carnaval, não era nada. Eles ficavam ali, mostrando um para o outro e todo mundo fazia o coro. Por não existir essa ideia de gravar, de fazer sucesso, as músicas eram muito bonitas. Era contando uma história da vida que aconteceu, músicas engraçadas, músicas mais líricas, com a melodia toda trabalhada. Hoje não, é aquele refrãozinho, aquela coisa para aprender rápido, como virou o samba-enredo. A diferença do samba-enredo antigo para o de hoje é enorme. Até no andamento. Hoje é tudo corridinho para dar tempo da multidão passar, tudo naquela marcha. Antes era na cadência, mesmo! Este papo tá virando uma coisa meio saudosista, né?! [risos] [muda a voz, imitando uma velhinha] “No meu tempo, meu filho…”

Tudo virava música!

Almeida – Nessas fitas antigas têm coisas inéditas?
Cristina – Têm! Um grupo muito bom do Rio chamado Dobrando a Esquina está gravando um disco agora, e como existe esse problema das editoras, eles ficaram por muito tempo procurando coisas inéditas. Eles gravaram e eu fiz uma participação nesse disco, cantando um samba inédito do Candeia. Ainda tem muita coisa por aí!
Tacioli – Para o álbum Tudo azul também existiu uma pesquisa prévia, não?
Cristina – Muito, muito!
Tacioli – Como você participou desse disco?
Cristina – Eles fizeram várias reuniões na casa da Marisa Monte para lembrarem de músicas, e ela foi gravando tudo. Tinha também uma equipe que trabalhou com ela que catou tudo que foi gravado. Ela fez uma pesquisa durante um tempão. E como eles falaram que eu tinha alguma coisa, ela me pediu e eu passei o que eu tinha, coisas de compositores que já tinham morrido e que eles não se lembravam. Às vezes eles lembravam da primeira ou da segunda parte. E alguma coisa do que passei foi até usada no disco. A Marisa Monte ficou com um material enorme. Ela disse que pretende fazer um outro disco. É muita coisa boa que eles têm! Ela está fazendo agora um disco com o Argemiro, da Velha Guarda da Portela, e parece que vai lançar o do Jair do Cavaquinho, que já foi gravado. Acho que devem sair pelo selo dela. [n.e. Phonomotor, distribuído pela EMI]
Tacioli – Você sabe dizer quando é que se manifestou sua preocupação em registrar esses encontros com sambistas da velha guarda? Teve um momento específico ou foi uma coisa natural?
Cristina – Não, eu tinha uma coisa ou outra espalhada, mas aí me pediram para ajudar a levantar o repertório do disco do Nelson Cavaquinho, o último que ele fez. Apareceu um amigo meu de São Paulo, o Chicão, que tinha as fitas que gravou em sua casa com o Nelson Cavaquinho. O Chicão me emprestou as fitas que tinham um monte de coisas que nem eu conhecia, e que nem o Nelson se lembrava. Fui também à casa do Nelson e ele se lembrou de várias músicas. Aí juntei muita coisa do Nelson Cavaquinho. E quando as pessoas sabem que você está fazendo um trabalho assim, elas acabam ajudando. Quem tem muita coisa e me ajudou, principalmente no disco do Candeia, foi o Paulo Cesar Pinheiro, por causa da Clara (Nunes). A Clara gravava mesmo. Tanto com a Velha Guarda, como com o Candeia e Nelson Cavaquinho. Ela gravava tudo e o Paulinho tem essas coisas, muita música de compositor antigo. Não é que eu preciso levantar um arquivo ou uma coisa assim. Isso eu não tenho, não! O que eu tenho, está lá. Às vezes pinta um trabalho, e nêgo oferece coisas que ele tem.
Tacioli – Mas você disse que quando era mais nova, você ia para não-sei-aonde e gravava esses sambistas. Esse interesse nasceu por quê? Você consegue identificar?
Cristina – Não era interesse, não! Quando você vai ver um troço que você gosta, você grava e depois fica ouvindo. É legal! Mas não tinha essa ideia de preservar, que é o que eu devia ter tido. Hoje eu teria muito mais coisas. Tenho pena de não ter feito mais isso. Tenho pena!

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