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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 3/11

Se algum selo topar, lanço o disco Cristina e Mauro Duarte

Zeca – Como é que foi a distribuição desse disco independente, o Cristina e Mauro Duarte (Coomusa, 1985)?
Cristina Buarque – Foi debaixo do braço mesmo. A gente ia fazendo show e levando LP para vender. Fizemos uma tiragem de 2 mil exemplares, que era o mínimo que se fazia. Chegamos ainda a levar em algumas lojas. Era um negócio engraçado, a gente botava aquelas caixas que cabiam 30 discos em carrinho de feira e íamos para a cidade. Levávamos para uma loja. Aí o dono da loja vinha e conversava com a gente, “Pô, mas como vocês estão fazendo disco independente? As gravadoras não querem? Mas que absurdo!” E botava o disco tocando alto. “Mas que maravilha!” Ficávamos felizes, íamos para o botequim do lado e ficávamos tomando cerveja. A gente deixava os discos em consignação. E depois para receber o dinheiro era uma confusão! [risos] O dono da loja nunca estava. [risos] E aos pouquinhos a gente foi recolhendo os discos que tinham sobrado nas lojas. Ficamos sem dinheiro, pois a maior parte das lojas não pagaram. Vendíamos mesmo em shows.
Zeca – E por esse disco muita gente pergunta, não?!
Cristina – Hoje esse disco é uma raridade.

A parceria e amizade entre Cristina e Mauro Duarte registradas LP de 1985 e compacto de 1987, respectivamente. Fotos: Reprodução

A parceria e amizade entre Cristina e Mauro Duarte registradas em LP de 1985 e compacto de 1987, respectivamente. Fotos: Reprodução

Dafne – Nesse álbum o Mauro Duarte também cantava?
Cristina – Também. Quase todas as músicas eram dele. Fizemos show durante muito tempo, e só depois resolvemos fazer esse disco. Pintou uma grana e gravamos o disco, que foi muito bem cuidado, num estúdio legal, que é o Odeon, no Rio, com técnico, que gravava mais o pessoal de samba. Uma produção que saiu cara, mas ficou legal. E ainda acho que consigo lançar esse disco em CD por algum selo que venha a topar.
Zeca – Desse disco não tem uma história que vocês encontraram o Geraldo Babão?
Cristina – Foi depois que a gente fez o compacto.
Zeca – Era outro disco?
Cristina – Era. Geraldo Babão foi um grande compositor do Salgueiro e a gente o encontrou num ônibus. Ele trabalhava como trocador do ônibus. Disse que estava aposentado, mas que precisava de uma graninha para continuar sobrevivendo. Estava doente, ficou um tempão com câncer, mas ainda trabalhava como trocador de ônibus. Aí pintou a ideia de se fazer esse samba, “Resgate”, que fala desses compositores que tinham outras profissões, já que só a música não dava. Muitos deles morreram sem ser conhecidos.
Tacioli – A quem pertence a matriz do disco Cristina e Mauro Duarte?
Cristina – Pertence a mim e à família do Mauro.
Tacioli – Então basta o interesse de algum selo em relançá-lo?
Cristina – É só pintar um selo a fim de lançá-lo! Muita gente procura por esse disco.
Zeca – Pelo menos na Internet e em shows, muitos ainda perguntam por esse álbum. Você não tem mais?
Cristina – Tenho o “Lpzão”, a matriz não sei onde está ou onde foi parar. Acho que se perdeu pelo caminho.
Zeca – Mas você não tem muitas cópias, tem?
Cristina – Tenho uns três discos. Nenhum zerinho, um arranhadinho, outro sujinho. Se não acho um, pego o outro. Tem um restinho lá. Teve uma época em que saiu uma parte desse LP em um disco de um selo pequeno no Rio chamado SACI, que era do Maurício Tapajós. Ele fez um CD em homenagem ao Mauro Duarte. Pegou uma parte desse disco, como também gravações da Clara Nunes, do Paulinho da Viola, do Paulo Cesar Pinheiro. Também foi uma tiragem pequena. Depois morreu o Maurício Tapajós, acabou o disco, que se tornou uma raridade. Acho que foi lançado em 1994.
Tacioli – Como era o Mauro Duarte, Cristina?
Cristina – Um sambista carioca que, na verdade, era mineiro. Nasceu em um lugar do lado de Juiz de Fora chamado Matias Barbosa. O pai dele trabalhava numa fazenda e foi para o Rio quando ele tinha uns seis anos. Foi morar em São Cristóvão por um ou dois anos, era uma família muito grande. Depois foi para Botafogo, onde morou a vida toda. Aliás, é onde ele está enterrado. Era um compositor muito conhecido daqueles blocos antigos de Carnaval. Botafogo era um bairro muito forte em Carnaval. O Mauro era considerado pelo Paulinho da Viola, que conviveu com ele nessa época, como o melhor compositor de Botafogo. Depois ele teve muita música gravada pela Clara Nunes. Praticamente em todo disco dela tem duas músicas dele. Acho que só em uns dois discos é que não têm samba do Mauro. Ele foi da época do Rosa de Ouro [n.e. Quinteto formado por Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescar do Salgueiro e Jair do Cavaquinho, que foi a base do espetáculo homônimo produzido por Herminio Bello de Carvalho em 1965, que revelou Clementina de Jesus e ressuscitou a ex-vedete Araci Cortes], mas quando o grupo foi gravar mais três discos na Odeon já como Os Cinco Crioulos, o Paulinho da Viola já estava com sua carreira solo, e o Mauro entrou, substituindo-o. Ele também participou de um show chamado Mudando de conversa, com Cyro Monteiro, Nora Ney e Clementina. E depois ficou mais conhecido com os sucessos gravados pela Clara, Paulinho da Viola, João Nogueira e Roberto Ribeiro. Fizemos vários shows, e somente mais tarde gravamos esse disco. Continuamos a fazer shows e vendendo discos. Fizemos muita coisa até 88. Em 89 comecei a fazer parte do coro que acompanhava o Paulinho da Viola. E nesse ano o Mauro morreu.

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