gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 2/11

A arte era uma coisa mais livre

Tacioli  Você tem um acervo fonográfico legal?
Cristina Buarque –
 Durante muito tempo da minha vida eu fui comprando. Na época do LP, eu tinha 13, 14 anos, eu já comprava coisas como Cyro Monteiro, Aracy, Pixinguinha. Mas também fui perdendo muita coisa pelo caminho. Esse negócio de emprestar, nego não devolve, isso acontece muito. Mas a minha discoteca não é grande coisa, não! Tenho muita coisa porque vou comprando em fita. Em fita tenho o completo da Aracy, do Déo, do Cyro Monteiro. E quando fiz aquele disco do Wilson Baptista comprei muita coisa da Collector’s. Tem muita coisa espalhada com o Quatro Ases e um Coringa, Anjos do Inferno, Roberto Paiva, Gilberto Alves, Odete Amaral. Tem muita coisa espalhada e não dá para comprar tudo, não.
Tacioli – O Zeca me falou que você se preocupa bastante em preservar suas fitas, gravando tudo em CD. Como é isso?
Cristina – Meus filhos me presentearam com um “fazedor de CD pirata” [risos], então agora fico fazendo isso. Dei de presente para um amigo meu o que sobrou do Wilson Baptista. Um CD com coisas muito boas que sobraram do disco que fiz e que não entraram no álbum. Fiz o segundo e acabei gravando seis CDs só com músicas maravilhosas do Wilson Baptista, umas 150. Nessa pesquisa do Wilson não cheguei a tudo, ao repertório completo dele, não! Ele tinha umas duzentas e tantas músicas, e muita coisa eu não encontrei.
Zeca Ferreira – E sem contar as que não estão no nome dele.
Cristina – Tem isso! Mas na Collector’s compro esses cantores mais conhecidos. Daí pintam cantores que gravaram dois 78 rotações, sabe assim?! Não vou achar isso. Quer dizer, se eu procurar muito até acho, sempre tem um pesquisador que tem. Mas do Wilson Baptista deu muita música boa, cerca de 150. E não botei o que não gostei.
Tacioli – Tem planos para se fazer um outro disco?
Cristina – Plano para se fazer disco tenho um monte. O problema é gravadora. Isso aí é que é mais difícil.
Dafne Sampaio – O seu mais recente é o segundo do Noel Rosa, que saiu pela Kuarup, como o primeiro, não?!
Cristina – O primeiro tinha saído por uma gravadora francesa, depois venceu o contrato, e fizemos o relançamento pela Kuarup. E para esse segundo já fizemos direto. Mas é um disco barato de se fazer, somente voz e violão. O Henrique Cazes toca violão e conta as histórias.
Zeca – E foi gravado ao vivo.
Cristina – O primeiro show nós fizemos há 10 anos. Ficamos um tempo fazendo o primeiro e depois mudamos o repertório, bolando o segundo. E foi esse que a gente gravou.
Dafne – Então, uma produção voz e violão poderia ser uma saída para outros discos, aumenta as possibilidades?
Cristina – O que pega mesmo são as editoras das músicas. Como gravo muito samba antigo que foi editado, as editoras tomam contam da música e cobram uma fortuna. Se eu quiser gravar um disco independente, não vou conseguir porque a editora pede muito dinheiro por um samba desses. Agora, se é uma gravadora, tem aquele lance de se pagar depois. A gravadora já tem uma coisa direta com as editoras. Por isso que não dá para fazer um disco independente. Hoje em dia gravar um disco é muito fácil. Tem gente que tem estúdio em casa, dá para gravar legal, gravar digital, fácil para o cara que tem as músicas ou que grava um disco de inéditas que não foram editadas. Aí, com uma autorização direta do compositor, ou se ele mesmo é compositor, não tem problema. Isso dá para fazer tranquilo. Mas você gravar um disco de velharia como eu gosto [risos], já fica difícil. Aí tem que ter uma gravadora.
Zeca – Mas há pouco tempo você se empolgou com um projeto, não?! Como o show estava bom, você pensou em gravar um disco e, quando foi ver, percebeu que era inviável.
Cristina – Eles pedem 500 reais por música, uma coisa assim!
Tacioli – Isso foi com o Eles por elas?
Cristina – Foi. Um show com um monte de mulher cantando músicas feitas por homens para ser cantadas por mulher, e que foram gravadas pela Aracy, Carmen Miranda, Odete Amaral, Dircinha, Linda, Isaurinha Garcia. Tinha muita música engraçada. Mas são músicas que para se gravar tem que ter uma gravadora para liberá-las junto às editoras.
Tacioli – Esse show não passou por São Paulo?
Cristina – Não, não! Fizemos em dois teatros no Rio e em São José do Rio Preto. E era muita gente, aí o negócio fica difícil. Ganhávamos 10 reais por show. [risos] A base do “ganha-se pouco, mas é divertido”. [risos] E todo mundo tem outros trabalhos… Você vai parar para ensaiar e depois ficar no prejuízo? Não dá certo, não!
Tacioli – Cristina, você está falando que precisa de uma gravadora, ainda mais se tratando dessas músicas antigas. Como é sua relação com as gravadoras? Você começou na RCA, né?!
Cristina – É, comecei na RCA, onde gravei dois discos. Depois fui para a Continental, fiz um disco. Em seguida, fui para a Ariola, quando ainda era uma gravadora nova. Hoje pertence à BMG, e assim tenho quatro discos na BMG: dois da RCA e dois da Ariola, que eles não relançam. São discos raros! Eles relançam umas músicas, tipo “Quantas lágrimas”, que sai nessas coletâneas de samba a toda hora. Os discos mesmos, em si, muita gente nem sabe que existem.
Tacioli – Engraçado que com o centenário da RCA uma série de discos voltou ao mercado.
Cristina – É, eles estão lançando.
Tacioli – Mas você não sabe se algum dos seus está nos planos da BMG?
Cristina – Ah! A gente não sabe de nada. E se eles relançam, não avisam. Mas não sei se eles estão pensando nisso. Também não tenho mais contato com ninguém, faz tanto tempo que gravei lá. 74, 76 e depois 80 e 81. Tem mais de 20 anos, já mudou tudo, a gravadora mudou de nome. Não tenho contato com eles, não!
Tacioli – Como foi a experiência nessas gravadoras?
Cristina – Foi um tempo diferente, né?! A gravadora não tinha a menor ideia do que você ia fazer. Eles pagavam tudo, aceitavam tudo. Eu morava ainda em São Paulo quando fiz esses dois primeiros discos, quer dizer, os músicos do Rio vinham a São Paulo para gravar. Hoje em dia nunca que a gravadora faria isso com uma cantora que está começando. Dino, Abel Ferreira, conjunto Época de Ouro, o pessoal da percussão (Luna, Marcal, Eliseu, Jorginho) e César Faria, esse pessoal todo a gravadora mandava vir, pagava hospedagem e tudo. Não existe mais isso! É um outro tempo! Lembro-me que a distribuição dos discos na época não era muito boa, mas você tinha condições de gravar discos sem a gravadora dizer o que você teria que fazer. Hoje é assim: “Agora você vai gravar um disco fazendo isso, fazendo aquilo”.
Zeca – Temático!
Cristina – É, temático! [risos] Naquele tempo não tinha disso, não! No estúdio, a gente e o produtor escolhíamos o repertório, escolhíamos quem ia tocar, quem ia fazer arranjo. Às vezes não tinha arranjo, fazia-se na hora, cada um pegava seu instrumento, dava uma ideia e pronto. Era mais fácil nesse ponto. Por isso os discos antigos são diferentes dos que se tem hoje. A arte era uma coisa mais livre.
Almeida – Tem alguma coisa a ver com o papel do produtor hoje em dia? Hoje parece que o produtor chega e põe uma grife em um disco/artista.
Cristina – É, hoje o produtor é muito ligado à gravadora, que é ligada ao departamento de venda, ao departamento de marketing. Às vezes chamam uma pessoa para gravar um disco e convocam um produtor que ela não conhece. “Você vai chegar, vai fazer esse tipo de música assim, o arranjador vai ser não-sei-quem”. O cantor chega sem conhecer… Isso nas grandes gravadoras. Mas estão pintando os selos pequenos, e muitas pessoas estão partindo para essas alternativas. Isso está acontecendo demais. É bom, porque com o CD ficou mais fácil fazer disco independente. Um tempo atrás, cheguei a fazer disco independente, mas em vinil. Era uma complicação!

Tags
Cristina Buarque
Indústria fonográfica
de 11