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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 1/11

Aracy ouvia música clássica e era amiga do Di Cavalcanti

Ricardo Tacioli – Cristina, como é que foi o Boteco do Cabral em homenagem a Aracy de Almeida? [n.e. Show-tributo à intérprete carioca realizado no projeto idealizado pelo jornalista Sérgio Cabral no Sesc Ipiranga, em São Paulo]
Cristina Buarque – Foi muito bom. Ela tinha um bom gosto, um repertório fantástico. Eu e a Marcia cantamos. Foi até difícil escolher as músicas para o show; existe uma exigência do Sesc que diz que tem que se ter as músicas mais conhecidas.
Tacioli – O Sesc faz essa exigência?
Cristina – É, tem isso, mas nós intercalamos as famosas com outras não tão conhecidas, que não fizeram sucesso, mas que são bonitas. A Aracy [n.e. 1914 – 1988] era uma figura muito engraçada. O Sérgio Cabral a conheceu bem; ele contou histórias, mas muitas delas ele não podia contar em público. Contou somente as mais leves. [risos]
Tacioli – Que músicos estavam acompanhando vocês?
Cristina – Estava o pessoal daqui, o Miltinho (Mori), o Edson Alves, o Oswaldinho da Cuíca e o Cebion.
Tacioli – Você chegou a conhecer a Aracy?
Cristina – Muito pouco. Eu a vi num bar naquela época, não me lembro se foi perto do Teatro Paramount, mas ela estava num bar. Assisti também a alguns shows, mas nunca conversei com ela.
Tacioli – É uma das coisas que você lamenta?
Cristina – Eu lamento muito. Tenho a maior pena. Eu era muito nova, mas me metia em música. Eu morava em São Paulo, mas o pessoal do Rio vinha para cá de vez em quando. Então, não calhou de eu estar com ela em algum lugar, alguma festa, uma esbórnia assim. Não aconteceu.

Principal divulgadora da obra de Noel Rosa, a cantora Aracy de Almeida estampou em 1952 a Revista Carioca

Principal divulgadora da obra de Noel Rosa, a cantora Aracy de Almeida estampou em 1952 a Revista Carioca. Foto: Reprodução

Zeca Ferreira – Em festival ela não aparecia?
Cristina – Foi numa coisa dessas assim, não sei se era a Bienal do Samba, se era um show no Teatro Paramount, não lembro o que era. Só sei que ela estava no botequim ao lado, acho que tomando refrigerante, não estava mais bebendo, não! Ela estava meio sozinha, meio quieta, alguém falou alguma coisa, mas o papo não foi adiante. E eu só olhando, nem cheguei perto.
Tacioli – Como ela era vista pelo meio artístico nessa época, Cristina? Infelizmente depois ela ficou muito caricaturada como jurada de programa de auditório.
Cristina – Programa do Silvio Santos, né?! E é como as pessoas lembram dela, aquela criatura enfezada.
Daniel Almeida – É, parecia um personagem.
Cristina – As pessoas que conviveram com ela, que a conheceram, falavam que ela morava numa casa no bairro do Encantado, no Rio, e tinha vários cachorros. Era muito boa, meiga e amorosa com as pessoas. Ficava ouvindo música clássica em casa, que era limpíssima, muito bem decorada e cuidada, com cristaleira e quadros de gente famosa! Ela foi amiga do Di Cavalcanti! [n.e. 1897 – 1976] Ela tinha esse palavreado, que era uma coisa engraçada, com muita gíria e palavrão, mas era uma pessoa muito doce. Por isso tenho pena de não ter convivido com ela. E chegou uma hora em que não queria mais cantar, queria só ficar nesse negócio de programa de auditório, porque era seu sustento. Naquele tempo, a televisão e as gravadoras até davam mais espaço para este tipo de música. Fico pensando se ela estivesse viva hoje como é que seria. Acho que foi a dificuldade de se fazer música boa que deu esse desgosto pra ela, apesar daquela época ser melhor do que hoje. Ela deve ter se deparado com algumas dificuldades e cansou. “Não quero mais cantar!” Parece que ela era muito bem tratada pelo Silvio Santos, ganhava uma grana legal. Mas mesmo assim, mais para o final da vida, ela fez uma coisa ou outra, como o programa de televisão com o Herminio Bello de Carvalho, que está recuperando os programas da TVE. Então, temos algumas coisas dela no final de vida, cantando uma maravilha, não com a mesma voz que ela tinha quando era nova, mas com interpretação muito bonita.

Tacioli – Você tem discos da Aracy?
Cristina – Lá no Rio existe um negócio chamado Collector’s [n.e. Site dedicado à música brasileira das décadas de 1940 e 1950] que tem esses 78 rotações tudo em fita. A qualidade não é boa, é fita cassete. Comprei em fita tudo o que ela gravou em 78 rotações. Depois, um pesquisador amigo meu levantou o que ela fez em LP, pegou as fitas que eu tinha, e o que ele não conseguiu encontrar com uma qualidade melhor, usou dessas fitas mesmo. Assim, fizemos a discografia completa da Aracy de Almeida. Tenho isso em CD, que já deu uma melhorada no som, mas as gravações que eram muito ruins e não se acharam melhores, ficaram assim, ruins mesmo! São 16 CDs, numa média de 24 músicas. Isso é tudo o que ela gravou. Eu tenho isso!
Tacioli – E da Revivendo?
Cristina – Os discos da Revivendo já têm o som melhor, vêm com explicação e com as letras das músicas. Da Collector’s só vem a fita, nome da música e do autor. Mas a Revivendo tem tudo espalhado. Compro muita coisa da Revivendo, mas tem um disco da Aracy com Cyro Monteiro, daqui a pouco tem um da Aracy com não-sei-quem, e repete algumas músicas. Mas a qualidade é melhor, sempre.

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