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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 11/11

Todo mangueirense é, no fundo, um bom portelense

Zeca – Estas histórias que você está contando são todas de sambistas mais velhos, mas como é que foi o enterro da Clara? Deve ter sido barra pesada.
Cristina Buarque – Da Clara foi uma loucura. Todo mundo ficou sem entender, um negócio absurdo, uma coisa de erro médico. Foi choque anafilático, uma operação besta. Ela era muito nova e muito popular. De Madureira, onde foi velada, para o São João Batista, em Botafogo, tem chão. Não deu nem para chegar perto, tinha muita gente. Uma vez, para você ver como é que é, a Doca, que é pastora da Velha Guarda da Portela, disse, “Cristina, você não foi ao enterro do Mano Décio da Viola?” “Ô Doca, eu nem conhecia o Mano Décio. Conhecia suas músicas, mas não era amiga dele”. Na mesma época tinha morrido o Mijinha, que era um grande compositor da Portela. Falei pra ela, “Fiquei chateada porque não deu para ir ao enterro do Mijinha”. “Ah! Não, do Mijinha tinha pouca gente, mas do Mano Décio foi uma beleza! Tava o Roberto Ribeiro, não-sei-quem, não-sei-quem”, e começou a enumerar. [risos] “Aí fomos para o botequim, acabamos com a cerveja, e partimos para um outro e cantamos até o dia clarear”. É, enterro é assim.
Ana Buarque – E a história do Cabelinho?
Cristina – É, esta está até no livro da Velha Guarda. Foi no enterro do Manacéa. No enterro tem um negócio que é emocionante: as pessoas vão andando, tem o caixão, e o surdo vai fazendo aquela batida. Tum… Tum… Aqueles passos de cemitério, meio “sinistrão”. Aí vai indo, chega no lugar onde vai ser enterrado. Às vezes alguém fala alguma coisa. E botam lá o caixão. Tem sempre que cantar um samba do cara, um sucesso. Do Manacéa, cantaram “Quantas lágrimas”. E o Casquinha lá no surdo. Aí quando acabaram o “Quantas lágrimas”, começaram a jogar aquela cal e cimento, e Cabelinho [sonoriza] “tum ri quis tum, tum tum”. É o final Portela [risos], que ele chama de “pára de cagar, bumbum”. Toda a música da Velha Guarda da Portela termina assim. E ele fez isso no surdo. O Paulinho da Viola falou “Cabelinho, que é isso?!”. Ele disse “Final Portela. O Manacéa me ensinou assim. Acabou, final Portela!”. [risos] Ele acabou com o Manacéa como se acaba uma música. Impressionante! [risos] Final Portela, é muito bom! Foi ele quem me ensinou.

Carlos Cachaça (1902 - 1999) é o primeiro da esq. p/ dir. na capa do LP Fala Mangueira (1968). Foto: Reprodução

Carlos Cachaça (1902 – 1999) é o primeiro da esq. p/ dir. na capa do LP Fala Mangueira (1968). Foto: Reprodução

Tacioli – E do Carlos Cachaça?
Cristina – Eu tive algumas vezes com ele. Mas do enterro fugi porque o Carlos Cachaça virou uma coisa muito badalada. Já vi que ia ficar essa coisa de televisão, e tenho horror quando as pessoas chegam para você assim: “Você pode dar um depoimento?”. Aí vem aquelas frases que são horrorosas, “O Brasil ficou mais pobre sem não-sei-quem”. [risos] Mas fui algumas vezes à casa dele. Ele tinha uma memória impressionante. E já velhinho, com problema nas pernas e surdo, falava rápido, ágil, lembrava de tudo. Parecia um cara de 30 anos falando, isso com noventa e não sei quantos. Tive num aniversário dele um ou dois anos antes dele morrer. Tinha um aparelho de surdez, que ele dizia que não funcionava. Fui nesse dia com o Herminio, que pegou o aparelho. “É a bateria, tem que levar não sei onde!” E mexendo, já querendo entender o negócio, desconfiou. “Tô achando que ele não quer ouvir!” [risos] Ele não estava mais querendo ouvir, não tinha mais saco. Aí começou a chegar gente para tocar e cantar. Coitado! Não pode beber, não tá ouvindo nada, e aquele monte de gente! [risos] Acho que ele já estava meio sem saco, mas continuava falando muito! Ele gostava de contar história. Era um cara impressionante o Carlos Cachaça.
Dafne – Nessa entrevista ao Estadão, você fala que o Herminio, como todo mangueirense, era um bom portelense.
Cristina – Falo pra sacaneá-lo. Essa coisa da rivalidade é tudo brincadeira. Mas, na verdade, todo mangueirense é, no fundo, portelense. [risos] Pelo seguinte: a ala de compositores da Portela tinha uma quantidade enorme de gente boa. Hoje tem pouca gente. Da Mangueira, você conhece um ou outro. E tem até outros que são menos conhecidos que deveriam ser mais, como Gradim, que foi um grande compositor. Aquela coisa de falar de Nelson Cavaquinho, Cartola, Cachaça e não se falar mais de muita gente boa que tinha por lá. Mas a Portela tinha um número maior de bons compositores. Numericamente ainda tem muito. Então, para quem gosta de samba, pode ser mangueirense, mas no fundo é bastante portelense por isso. Tem muito samba bom.
Tacioli – Nessa sua vivência com os sambistas da velha guarda, você sentia que eles ficavam magoados por essa falta de reconhecimento?
Cristina – Não muito, não!
Tacioli – Ou eles compunham independentemente de se gravar ou não?
Cristina – Eles faziam músicas para contar história, para mostrar pra eles. Não tinha essa coisa de música para gravar, não! Nem passava pela cabeça deles, a não ser do Alvaiade, que era um sambista que já havia sido gravado. Não sei se o Alvaiade era um cara que frequentava mais estúdio e rádio, mas suas músicas foram mais gravadas.
Zeca – Você falou que o pessoal que vai à Lapa conhece as músicas que são cantadas lá. “O quitandeiro” é um puta sucesso, todo mundo canta no Semente! E os caras falam que no terreiro também existia esse tipo de sucesso. É um sucesso que independe do rádio, espontâneo. “Esta melodia” é um exemplo.
Cristina – É, “Esta melodia” [n.e. De Bubu e Jamelão, gravada por Cristina em 1976, LP Prato e faca] fez há muito tempo sucesso na Portela, foi gravada e depois ficou esquecida. Agora a Marisa Monte gravou [n.e. No disco Verde anil amarelo cor-de-rosa e carvão, EMI-Odeon, 1994] e voltou a ser um sucessão de novo. Como a Teresa Cristina que canta “Embrulha que eu carrego”, do Alvaiade. Um samba que fez sucesso na década de 40. Agora, quem está na Lapa já conhece.
Tacioli – Bom, então essa falta de reconhecimento existe com todos esses artistas?
Cristina – Existe, existe. De repente sai uma matéria enorme sobre um cara, e todo mundo comenta. Depois se ele precisar de divulgação para alguma coisa, não vai ter porque já apareceu outro dia. Mas se for o show do Caetano Veloso ou do Chico, vão mostrar o ensaio, a estreia, o que for.
Tacioli – Cristina, acho que é isso.
Cristina – Tá tudo certo? Bom, qualquer dúvida, falem com o Zeca. De repente falo meio enrolado, não dá para entender.

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