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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 10/11

Enterro no Irajá é uma festa! Sempre saio trêbada!

Tacioli – Em outubro de 2001 Nelson Cavaquinho teria completado 90 anos.
Cristina Buarque – A data de nascimento do Nelson Cavaquinho é muito confusa, porque ele nasceu em um ano, mas foi registrado em outro. Outro dia eu estava comentando que se os 90 anos dele foram em 2000, como o do Adoniran, o show que fizeram aqui em homenagem aos 90 dele e aos 90 do Adoniran, na verdade não seriam 180, e sim 182 anos de samba. Tava esse papo aí, mas não me lembro agora.
Tacioli – Você chegou a participar de alguma dessas comemorações?
Cristina – Não.
Ana Buarque – Tiveram essas comemorações, mas no enterro do Nelson Cavaquinho não tinha gente para segurar o caixão.
Cristina – Isso foi impressionante!
Ana Buarque – Na hora de fazer uma festa que tem o gancho da mídia, tem um monte de gente.
Cristina – Eu soube da morte dele de manhã cedo. Ele morreu de madrugada.
Tacioli – 1986, não?!
Cristina – Não me lembro, acho que foi. Ele morava no Jardim América, e o caixão estava na sala de sua casa. Tinha uns dois carros de jornal – naquele tempo a imprensa ainda se interessava por isso. Não foi aquele tipo de enterro que os cinegrafistas ficam pulando sobre os túmulos. Tinha jornalista sério. Foi um carro com o caixão, dois carros da imprensa, e o carro que eu estava. A viúva dele foi com a gente, não tinha lugar para ela ir. Quando chegou na Mangueira – acho que demorou para se espalhar a notícia da morte do Nelson Cavaquinho –, puxou-se o caixão do papa-defunto, e haviam três pessoas. Faltava uma para carregar o caixão. Não havia ninguém da Mangueira na quadra. Um gari que estava varrendo a rua se ofereceu e levou. Claro que depois foi chegando muita gente. A Zica foi quem providenciou a bandeira para botar no caixão, providenciou suco para dar para a Durvalina, a viúva. Depois é que virou, as pessoas foram chegando. Mas isso é um outro tempo da Mangueira. O pessoal antigo talvez tenha um tratamento melhor lá, não sei. Na morte do Nelson Cavaquinho, fiquei como aquele samba dele na cabeça “Mangueira, quando morre um poeta, tudo chora”. [n.e. “Pranto de poeta”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito] Mas depois chegou todo mundo. Em seguida morreu o Francisco Santana, da Portela. Arrumaram um ônibus para levar o pessoal da Portela ao Irajá, cemitério onde os sambistas geralmente são enterrados. Foi um ônibus cheio. A Kombi com o caixão fez um tour pelos pontos que ele frequentava em Madureira e Oswaldo Cruz. Passou em frente à Portelinha, onde foi fundada a Portela, subiu a rua onde ele morava, e as pessoas acenando. Foi um negócio emocionante!
Ana Buarque – Acho que você vai ter que ser enterrada no Cemitério de Irajá! [risos]
Cristina – Eu falo isso, mas mamãe sempre reclama. [risos] Irajá é um cemitério muito legal porque tem um monte de botequim em volta. [risos] Enterro no Irajá é uma festa! Em todo enterro que fui lá saí trêbada. [risos] Geralmente o pessoal da Velha Guarda é enterrado lá. E o único cemitério que tem na Zona Sul do Rio é o São João Batista, em Botafogo. É ruim de botequim, só tem uma barraquinha na porta. Minha irmã descobriu a casa de uma senhora em que você bate no portão, e ela vende a bebida. Tem um estoque. Fora isso, não existe nada. Mas em Irajá tem botequim um do lado do outro.
Zeca – Enterro de sambista na Zona Sul não dá certo.
Cristina – É, não dá muito, não! Às vezes não tem nem música, ao contrário do Irajá, que sempre tem. O Irajá é sempre uma festa. Se eu morrer amanhã de manhã, quero ser enterrada no Irajá! [risos]
Dafne – São os sambistas da Velha Guarda da Portela que sempre são enterrados no Irajá?
Cristina – Não são todos, mas a maior parte. É automático, morreu, “Já tô indo para o Irajá”.
Tacioli – Você se lembra do enterro do Cartola?
Cristina – Não, não sei onde eu estava quando ele morreu. Não fui ao enterro dele, não!
Zeca – O do Marçal foi bom, não?
Cristina – Do Marçal foi lá no Jardim da Saudade, ruim para chegar, longe. Fui outro dia num enterro lá e as biroscas que havia na porta foram mandadas embora. Então, tem que dar uma bela caminhada para se sentar num botequim e tomar uma cerveja gelada.
Zeca – E ainda joga no bicho, né?!
Cristina – Do Nelson Cavaquinho foi isso. Ganhei no bicho com o número da sepultura dele. [risos] Isso se usa muito no Rio. Quando é enterro de sambista, muitas vezes os jornais botam o número da sepultura. E o do Nelson Cavaquinho ganhei na centena, não foi na milhar, não! Fiz um jogo com o Mauro Duarte. Foi ele quem foi jogar. Eu estava dura pra caramba, ia pegar uma grana emprestada para comprar material escolar. Aí ele foi encontrar comigo e “Não vai pegar dinheiro emprestado nenhum! Está aqui, tamo rico!”. [risos] “Vamos para o botequim!” “Vamos ali?” “Não, vamos ali que tem chope!” Chope é muito mais caro. “Garçom…” [risos] Coisa que a gente não fazia há muito tempo.
Zeca – Que só falava em morte.
Cristina – Que falava muito em morte. Quando comentei isso com a minha mãe “Aí minha filha, que horror!”. “Que horror nada, fiquei com grana! Mesmo dividindo a centena por dois, deu para comprar o material deles [os filhos] e ainda sobrou dinheiro para tomar chope e fazer umas compras para casa”. Foi legal.
Tacioli – Esses assuntos dão um livro.
Cristina – Ah! Dão. Mexer com essas coisas de morte, morte de velho… Tem histórias muito boas e engraçadas. O primeiro deles que peguei foi do Alvaiade. Ele morreu, acho, em 1981. Fiquei impressionada! Foi a primeira vez que fui ao Cemitério do Irajá. Depois, todo mundo foi para um botequim. Mas eles cantaram tanto! Cantaram um samba melhor que o outro. “Ele morreu de quê?!” “Ah! Não sei, tava velho mesmo!” E já se cantava outra música. Morte pra eles não tem uma importância tão… Vive morrendo gente ali. Cada vez que vou lá… “Morreu não-sei-quem, filho de não-sei-quem”.

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