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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 9/11

Tenho fama de boêmia, mas durmo muito cedo

Tacioli – Cristina, estamos quase encerrando.
Cristina Buarque – Vou só ligar pra baixo para, de repente, segurarem um pouco. Às vezes tem aquele negócio de “Meio-dia tem que sair, senão paga outra diária”. Mas nesse hotel eles são ótimos. “Não, qualquer coisa fale com o Tiago”. O Tiago é o próprio! [risos] Aliás, meio-dia já rola. Vocês querem uma cervejinha?
Tacioli – Não posso, estou chumbado!
Daniel – Eu também.
Dafne – Eu vou aceitar.
Zeca – Eu também.
Cristina – Só para pedir o número certo. Sobrou, dançou! Quantas serão?! Tem uma na geladeira. Quorum de um, dois, três, quatro. Meia dúzia! Se for ele mesmo que atender?! [risos] “Olha, daqui a pouco vou embora, mas manda meia dúzia de cervejas!” [risos] [fala com a recepção do hotel] “Bom dia, eu queria te pedir meia dúzia de Brahma Extra, pode ser? Tá?! Isso, obrigado!” [risos] Lá no Rio tem um botequim que sempre leva cerveja em casa. Ligo, “Bom dia!” “Bom dia, quanto tempo, tava com saudade! Quantas vão? Cinco e cinco? Não vai cigarro, não?! Não vai Coca-Cola? Então tá, pode deixar!” Desligo o telefone e daqui a pouco o cara chega. Não preciso dar endereço. Ele já sabe onde é. Agora, aqui é a mesma coisa, “1010, né?!”. E o cara do Rio pergunta “E não vai nenhuma visita na sua casa, não?!”. [risos]
Tacioli – Você consegue ver uma característica do samba de São Paulo?
Cristina – Conheço pouco. Tô morando no Rio, venho para São Paulo nesse negócio de show e aí saio com eles [os filhos]. Normalmente as pessoas não conhecem essa minha faceta. Tenho fama de boêmia, mas durmo muito cedo. Não saio e não vejo o que está acontecendo. Normalmente faço o trabalho e volto para o Rio.
Dafne – Mas pensando Vanzolini, Adoniran, enfim…
Cristina – Pois é, quando eu morava aqui, acompanhava muito o Vanzolini, que ia lá em casa, cantava muito. Adoniran conheci pouco. Conheci porque se gravava muita coisa dele. Ele aparecia muito na televisão. E também o Gudin, que é da minha geração, é um compositor que faz sambas. Isso é o que eu conheço mais.
Tacioli – Mas você vê algo que diferencie o samba de São Paulo do Rio?
Cristina – Vejo assim: o Vanzolini é um tipo de compositor que é totalmente diferente do Adoniran e do Gudin. O Gudin faz um samba muito parecido com o de compositores do Rio. Agora, o Vanzolini e o Adoniran são diferentes de tudo que se tem no Rio, mas não sei se isso é o samba paulista, entende? É a linha do Vanzolini, como o Ataulfo Alves tem a sua. É uma coisa muito característica. O Adoniran ainda mais, porque ele tinha aquele linguajar do Brás, da Mooca. Ele cantando tinha aquele sotaque, que ficou muito caracterizado como samba paulista, mas não sei, acho que é a característica dele, que tem a ver com São Paulo simplesmente porque ele citava os bairros paulistanos. E Vanzolini, outra linha. Eu não sei definir o que é o samba paulista, o que é o samba carioca.

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Tacioli – Você chegou a conhecer o Adoniran?
Cristina – Pouco. Tive uma duas vezes com ele nessas coisas que tem um monte de gente. Acho que foi através do Carlinhos Vergueiro, que trabalhou muito com ele, fomos na esquina beber alguma coisa. Lembro-me que ele conversando era muito engraçado, supersimpático, superlegal. Mas foi uma ou duas vezes que estive com ele.
Tacioli – E você ainda tem contato com o Vanzolini?
Cristina – Há muito não falo com ele, justamente porque estou no Rio e quando venho para cá tenho pouco tempo. Mas recebo sempre notícias dele, porque sou amiga de seus filhos.
Tacioli – Você sabe se ele está compondo alguma coisa?
Cristina – Não sei. Estavam preparando um disco com músicas dele. Não sei em que pé está!
Zeca – Com todas, não?!
Cristina – Com todas as músicas dele. Na verdade, ele nem quer ser considerado um compositor. Ele é zoólogo, como é se que chama isso? Ele não considera muito essa parte da música, mas é um excelente compositor.
Tacioli – Você guarda alguma mágoa na sua trajetória artística?
Cristina – Mágoa?! [respira fundo e começa a chorar, de brincadeira] Nhé, nhé, nhé!! [risos] Hoje, sinto assim, às vezes dá vontade de parar, e aí entendo essa história da Aracy, porque tudo é difícil, você tem que ter o assessor de imprensa. O samba é tratado como uma coisa menor da música brasileira. Tenho visto assim. O tratamento que se dá para gente do samba é diferente do tratamento que a chamada MPB recebe, não sei por quê, já que o samba também é música popular brasileira. Mas isso existe, foi feita essa divisão, e o pessoal do samba é tratado como primo pobre da música. Sempre!
Tacioli – Você acha que o samba sempre foi tratado assim?
Cristina – Sempre, não. Na década de 40, a música brasileira era basicamente o samba, e o sambista às vezes fazia valsa e marcha. [Chega a cerveja] Zeca, agora você faz o serviço de bar!
Zeca – Pode deixar.
Cristina – É meio complicado esse negócio, não sei te dizer, sinto essa diferença no tratamento com o sambista. O equipamento do som não precisa ser de primeira qualidade. Não sei te explicar o que claramente passa na minha cabeça.
Tacioli – Quando você começou sua carreira já existia esse sentimento?
Cristina – Não, estou sentindo hoje, é uma coisa mais recente. Uma elitização da música para um lado. O Paulinho da Viola tem por que reclamar. O samba pode ser uma coisa meio de improviso, sabe?! Não precisa ter um tratamento. Não sei te explicar, fico meio embaraçada.
Zeca – Não precisa de avião, vai de ônibus! [risos]

O samba é tratado como uma coisa menor!

Cristina – É. O cara vai fazer um show “Olha, preciso de um camarim com telefone, frutas tropicais, toalhas, não-sei-o-quê”. Sambista nunca vai pedir essas coisas, imagina, né?! E nem tem! Se tiver uma cervejinha está bom. “Ah! Dá umas cervejas para os velhos que fica tudo certo!” É isso que sinto. E aí fica muito difícil fazer uma coisa de qualidade. Para um determinado artista poder fazer um disco legal, a gravadora dá mordomia e grana. Para um disco de samba, não! “Esse orçamento está muito caro, vamos ter que fazer com menos grana”, entende?!
Dafne – Tira a cuíca!
Cristina – É, tira a cuíca! “Pô, mas vai ter cavaquinho em todas as músicas?!” [risos] É isso. Aí tem que ficar discutindo.
Zeca – Fui ver o show da Velha Guarda da Portela em Campinas. Ela tinha um ônibus para ir e voltar no mesmo dia!
Tacioli – No mesmo dia?!
Cristina – Colocaram todos num Cometão. Na Velha Guarda da Portela tem gente com 70, 80 anos. Nem sei qual foi o cachê que eles receberam para fazer isso.
Ana Buarque – É a mesma história do réveillon em que ia ter a tenda do samba. Ninguém sabia quanto ia ganhar.
Cristina – É, foi em 2000. Ia ter o palco do samba. Nem me avisaram. Depois eu soube que seria depois da meia-noite. Quer dizer, é pedreira. Você vai para lá antes das 10 horas da noite para passar o som à tarde, não tem como sair, tem que ficar por lá. E soca cerveja nas pessoas. Tem uma hora que a cerveja está quente ou não tem mais cerveja, está todo mundo bêbado, e você tem que esperar passar de meia-noite para fazer o show. E aí, disse, “Fazer réveillon é barra pesada! Você não tem como chegar, não tem como sair. Tô precisando de grana, mas… Qual é o cachê?” “A gente ainda não sabe, primeiro estamos fazendo um contato com as pessoas. Você vem aqui, assina um papel e depois a gente vê quanto pode pagar!” [risos] Não existe isso?! Aí quando fui falar com as pessoas que ele disse que estariam nesse palco, todas já tinham assinado. Então, o próprio sambista não se dá valor. Como é que você assina um papel para fazer um show se nem sabe quanto é que você vai receber, para chegar lá às 6 horas da tarde e ficar até às 3 da manhã. É um absurdo! Pô, o próprio sambista fica se sujeitando a essas coisas.
Zeca – Paulo da Portela não vingou, né?
Cristina – Paulo da Portela era longe disso. Ele ficava fazendo a cabeça das pessoas. O cara tem que ser elegante, tem que se valorizar.

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