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Entrevistas de música brasileira

Cristina Buarque

Cristina Buarque. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cristina Buarque

parte 0/11

Esquina de vozes, risos e lágrimas

O quarto exalava aquela impessoalidade de flats e residences e coisas afins. Tão pequeno: o banheiro logo em frente à porta, o sofá, um armário, frigobar e, após dois degraus acarpetados, o quarto com duas camas de solteiro. No fim de tudo, no fim do quarto, a sacada. A menor sacada do mundo. E nela, Cristina. Só cabia ela, Cristina Buarque. A primeira mulher a ser entrevistada pelo Gafieiras abriu a porta com poucas palavras, estava acompanhada do filho Zeca e, dormindo, da filha Ana. Tentei em vão pescar algum som que me fizesse lembrar da primeira vez que a ouvi cantando – em um curto espaço de tempo conheci “Chorava no meio da rua” (Paulo Vanzolini) e “Sem fantasia” (Chico Buarque) –, mas havia passado cerca de 35 anos das gravações originais e quem disse “olá, tudo bem?!” era outra, falando era outra.

Aquela voz doce, pequena e sentida, que entoava versos como “ai meu deus, que ingenuidade a sua!”, não estava lá. Trajando shorts, aparentemente à vontade, Cristina seguiu com poucas palavras. Não parecia particularmente interessada em falar ou pensar sobre sua carreira. Reservada, talvez imaginasse que fôssemos perguntar do irmão Chico. Como a pergunta não veio, e nem viria, relaxou. Todos relaxamos. E a voz doce e pequena de tantos sambas surgiu rodopiando pelas paredes impessoais do quarto. A filha que dormia, acordou, o domingo que ia fechar, abriu, os cigarros de filtro branco queimaram e surgiram as inescapáveis cervejas (“Meio-dia já rola!”). O resto é música.

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