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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 8/18

A música do Alceu está condenada como música regional

Tacioli  Você falou das referências. Quais são elas?
Clayton  Da existência, da formação da pessoa, da infância, do que você tem, dos frutos colhidos em Arcoverde.
Tacioli  Que artistas que para o eixo Rio-São Paulo acabaram representando a música do Nordeste você elencaria como influência para o grupo? Quinteto Violado?
Clayton  A primeira vez que vi um show de música e teatro foi o do Quinteto Violado. Eu estava tocando na banda do colégio, saí fardado e fui para a quadra assistir. Aí presenciei uma coisa muito diferente do que eu via na TV e nas festas de ano na rua. Era um monte de gente cantando coisas dos outros. Esse show do Quinteto já me deu uma outra vertente de pensamento, como da turma de teatro de Arcoverde que fazia cenas chocantes. Lá em casa a coisa era bem podada, você não podia falar palavrão. Minha mãe é católica, com aquela coisa das datas, do Natal, da roupa de domingo para ir à missa. Hoje em dia essas coisas já não participam da minha cabeça, só como lembrança.
Nego Henrique  E também é muito engraçado, porque você não fica parado no tempo, tudo muda, sempre vem uma coisa diferente. Eu tenho tido isso como exemplo. Vejo a diferença de cabeça de cada um dos cinco do Cordel para muitas bandas. Cada um traz a influência que viveu quando criança, adolescente e até agora. Quando os nossos filhos escutarem o que estamos fazendo agora vão perceber que o nosso som tem um diferencial. Hoje estou vendo assim: se meu filho tivesse a mesma oportunidade que tive de conviver com a minha mãe e com a minha avó, que me criava dentro de terreiro de Umbanda, seria uma fase boa para ele. Mas hoje em dia muita coisa mudou. A televisão e o rádio não vão mostrar isso para você. Você não vai ver uma minissérie mostrar o que acontece através da cultura, o que é realmente um terreiro de Umbanda, o que ela tem de divino. Não vai acontecer isso! Vai sempre puxar para o que está acontecendo hoje, sempre vai colocar em uma linha que é a linha que a mídia está pedindo. Você não vai ter um canal de televisão que vá passar cultura, que vá passar uma manifestação do sertão da Paraíba. Não vai. Vocês vão ver o que eu estou vendo hoje: Big Brother Brasil e Casa dos Artistas. É isso que os adolescentes e o povo adulto vão ver.
Emerson  É importante que as pessoas tenham acesso à cultura até para saber que entre elas existem aquelas que são muito criativas e talentosas, como qualquer outra coisa. E esse acesso também incentiva a pessoa a ser tão criativa quanta aquela. Então, o ideal é que com acesso a sua cultura você não passe a reproduzi-la, mas você também possa fazê-la à sua forma. Se você seguir sua linha, nunca terá aquela coisa padrão. Até as pessoas se confundem… “A terra de vocês é uma terra de cultura muito forte, muito rica”. Parece que o ideal é que nós pegássemos aquela cultura e mostrássemos para o resto do país. Mas nós estamos preocupados em mostrar a nossa visão também. É essa coisa do medo. A gente só tem medo de perder a liberdade de expressão da nossa música.
Lirinha  É foda de perder a liberdade. A vigilância é muito forte. É a coisa da tradição é um grande engano, é uma grande mentira. Vamos conversar o seguinte: Luiz Gonzaga, grande mestre, mas que é foda você ouvir “Asa branca” como hino do Nordeste o resto vida. Isso por que simplesmente quiseram que fosse. “Que braseiro, que fornalha / Nem um pé de plantação”, mas se você tem uma idéia de mudar isso, de ter vários pés de plantação, de ter várias coisas assim… “Que braseiro”, você tem o rio São Francisco ali e você sabe que com a irrigação…
Max Eluard  E mesmo em junho e julho, o sertão fica verde.
Lirinha  É a indústria da seca. Você conhece A invenção do Nordeste? É um livro maravilhoso e extremamente polêmico que está saindo porque coloca exatamente isso. O Sul e Sudeste desenvolvido, antenado e com intenções de modernismo. O Nordeste é arcaico, atrasado, com intenções de tradição. Isso é uma grande invenção! A arte já provou que é uma grande invenção! Mas existe isso bem enraizado na nossa relação. A prisão é tão gigante que, Luiz Gonzaga, o grande mestre, estava na praia de Boa Viagem e viu um vendedor de cavaco tocando triângulo. Ele já tinha gravado dois discos.
Max Eluard  Cavaco que você diz é aquele biju?
Lirinha  Aquela casquinha de sorvete. Vocês tem outro nome aqui?
Max Eluard – Biju.
Lirinha  Biju, né?! Em Recife a turma vende o biju com o triângulo, que é de construção.
Clayton  Aqui geralmente vende-se com a matraca.
Lirinha – Então, Luiz Gonzaga vê aquilo, “Mas rapaz, isso se enquadra perfeitamente na minha viagem, porque é o agudo que eu precisava para o grave que estou fazendo!” Não sei se foi bem assim a viagem dele, não, estou fantasiando, “Leve esse cara para o estúdio!” A partir do terceiro disco o triângulo faz parte do baião de Luiz Gonzaga. Aí começam a dizer pra gente que a tradição da música nordestina [risos] é triângulo, zabumba e sanfona. [risos] Três invenções! E recentes, cara, extremamente recentes!
Clayton  Da década de 40, né?

“Forró pé de serra”, xilogravura de J. Borges

Lirinha  Entendeu? Vou contar outro fato, agora de literatura de cordel. Toda a exposição 100 anos de literatura de cordel, no SESC Pompéia, foi com xilogravura. Isso é uma grande invenção! Os grandes mestres da xilogravura estão vivos e são novos, da década de 60. Os primeiros cordéis eram letras, tipografia, só o título. Os cordéis de 1940, o auge do cordel, eram capas de cinema americano, fotos daqueles beijos. [risos] Xilogravura veio a aparecer agora, na década de 60, com J. Borges, de Bezerros, Dira, de Caruaru, essa turma. E passaram pra gente “Pô, isso é muito tradicional, quantos anos? Cem anos!” Então, existe muito romantismo! Fica um marketing gerado em determinado símbolo para representação daquilo. Tem um fato interessante dessa coisa de prisão, de originalidade, de tradição. É cobrado muito isso, “os ritmos tradicionais”, e a gente não sabe quais são, sinceramente. Aí dizem “Vocês fazem os ritmos tradicionais”, não, é verdade, temos células que estão muito presentes, como o baião, o xote. Você encontra no primeiro disco do Cordel, sem dúvida nenhuma. Agora, não é nem me desculpando, mas o primeiro disco é fruto de uma vivência da gente em uma determinada região. Nenhuma música desse disco foi composta com a gente em São Paulo. E está vendendo até hoje. E já estamos há três anos vindo a São Paulo. Quer dizer, aqui começa a surgir uma outra poesia, outra música, outra coisa. E as pessoas ficam dizendo, “Cuidado para vocês não perderem a essência!” “Mas qual é a essência da gente?”
Emerson  Uma coisa que nos ajudou foi notar que, ao chegar na Europa, a coisa que chamava mais a atenção das pessoas eram as músicas que tocávamos quando estávamos brincando. Chegamos lá com algumas que estarão no próximo disco da gente. Então, as músicas com suingue, diferenciadas, com a gente fugindo das batidas convencionais – não só do Nordeste, mas das batidas latinas, de todo o canto – chamavam muito a atenção das pessoas. Foi interessante. E aqui no Brasil a gente tem aquele negócio de “regionalismo”. Então falam que a gente faz uma música regional. Até dentro do Brasil existe essa divisão. Na Europa, nem tanto. Por exemplo: se no Brooklin surgir um rapper, aquilo não se torna uma música regional do Brooklin. É música universal. Ou qualquer outra tendência musical que surja em cada região. Mas aqui no Brasil, o que nasce no Nordeste é regional. Isso se tornou o quê? Quem gosta da música nordestina é porque gosta da música regional. Na Europa, com a musicalidade da gente, somos aceitos da mesma forma que o brasileiro aceita a música eletrônica ou qualquer outra. Pô, isso aqui também é uma coisa universal. Então, não é visto como universal por conta do preconceito.
Lirinha  Sem dúvida, Alceu Valença está condenado até o final da vida a ser enquadrado em música regional. O Milton Nascimento mesmo quando lança um disco totalmente voltado para os tambores de Minas sempre será enquadrado nos prêmios como “melhor cantor nacional”. Outra situação: Fernanda Abreu faz uma música totalmente baseada tanto no funk quanto no Rio, e a música dela é conhecida como música brasileira. Bezerra da Silva, Chico Buarque e vários outros artistas também. Agora, quem faz uma música com símbolos musicais do Nordeste tem logo esse carimbo de música regional.
Tacioli  Seguindo esse raciocínio, o samba é carioca, e por isso mesmo, regional. Mas isso nasceu com a construção de identidade nacional dos anos 30. A partir daí, tudo que é feito fora da capital é considerado regional. Somente o que é produzido na capital ganha esse status nacional. A música caipira de São Paulo é regional, a música do Sul, a do Nordeste, e mesmo com toda essa diversidade de gêneros e estilos, essa regionalidade no mercado é vista como um único produto. O regional e a MPB, por exemplo.
Emerson  Mas isso se quebra quando uma música vem de fora para dentro do país.

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