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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 7/18

Tô perdendo o medo de guitarra

Max Eluard  O Lira falou que cresceu vendo televisão, acho que todos vocês também.
Clayton
 Ah, sim.
Max Eluard  Na verdade a televisão sempre tenta estabelecer um padrão, o que é o cabelo bonito, a música boa, o que é certo, o que você tem que ouvir.
Emerson – Tudo ligado ao capital, né?
Max Eluard  E num sentido totalmente oposto ao que vocês fazem. Como vocês se viram?
Emerson  É o que eu estava falando. Somente conversando com meus parentes, com as pessoas mais antigas, que eu vim a saber dessas coisas. O processo tecnológico e até mesmo o capitalismo distanciam a gente dessas informações. Na verdade, era até para a gente não saber da existência dessas coisas. Seríamos “pessoas normais” na sociedade se estivéssemos fazendo outra coisa, sei lá, música eletrônica.
Max Eluard  Vocês acabaram negando essas influências da televisão e do rádio ou as incorporaram?
Lirinha  Provavelmente estão incorporadas. Isso aí vem muito do tempo que o grupo era teatro. Vou falar um pouquinho do teatro para explicar melhor. Eu era uma pessoa que estudava em colégio católico, a minha mãe é muito católica e o meu pai também. Eu vivia num mundo ali, já recitava poesia, andava com os cantadores, mas quando descobri o teatro, minha vida mudou completamente. Lá em Arcoverde, mesmo. O teatro marcou profundamente a existência desse grupo na sua intenção, na sua forma, na sua visão, na sua apresentação. E o teatro possibilitou o entendimento da liberdade dos sentimentos. Então, o grupo Cordel do Fogo Encantado prega muito, tanto na sua criação, quanto na execução das músicas, a liberdade dos indivíduos. É uma liberdade real para se atingir um determinado objetivo. O que seria essa liberdade? Que cada um que faz parte do Cordel solte seus pensamentos na música ou na poesia. Com isso o que se provoca? Que Nego viaje e venha para a música que Emerson tem. Então, a televisão e o rádio também estão carregados.
Emerson  Essa coisa de incorporar, que as pessoas falam, é confundida como um grupo que serve de vitrine para elementos rítmicos da tradição popular no Nordeste. A gente já se vê em outra situação, em uma nova geração que vem do Nordeste, trazendo a música do Nordeste, mas não é aquela música. É a nossa visão.
Max Eluard  Mas é uma música modal, uma música ligada ao tempo circular.
Clayton  Tem umas referências que são inegáveis, mas dentro disso existem as mutações que são incontroláveis a ponto de você perder os medos. Eu tô perdendo muitos medos! Medo de guitarra, dessas coisas que caracterizam…
Max Eluard  Mas você tinha medo, Clayton?
Clayton  Com certeza. Medo de se desvirtuar.
Lirinha  A gente vivia uma vigilância terrível, velho!
Clayton  Muito forte.
Lirinha  “Pelo amor de Deus, não coloquem guitarra!”
Max Eluard  Um outro extremo.
Clayton  “Cuidado para vocês não perderem suas raízes”, uma coisa assim. Poxa, bicho, a gente tem, já carregamos a nossa essência, não dá para perder.

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