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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 6/18

O Nordeste é uma grande invenção!

Tacioli  Existe um momento em que esse interesse pela cultura local se materializou em vocês? Ou é uma coisa da atual geração existente em Arcoverde? Enfim, existiu um momento que marcou essa descoberta, ou isso aconteceu de forma fluida?
Lirinha  São coisas diferentes, com certeza. Acho que a gente se utiliza disso para se afirmar; é uma grande invenção. O Nordeste é uma grande invenção! Tudo isso é uma grande invenção, porque na verdade são divisões políticas e territoriais, que não significam muita coisa. “Faço uma música do Nordeste”, a gente sabe que isso é uma análise de uma necessidade de afirmação, mesmo, de falar alto.
Emerson  Em Arcoverde tive primeiro acesso à música estrangeira. Escutava muita música alternativa e underground, e aí conheci um pessoal que fazia um som de hardcore, e lá tinham caras que se identificavam com outras coisas também. Foi quando descobri os elementos da cidade. E vi da forma que o Ariano Suassuna dizia nos jornais, que coisa linda que é o folclore. Na verdade, no dia a dia a gente acabava convivendo com aquilo. Tinha um terreiro de umbanda bem próximo da minha casa e tinham outras manifestações que a acabávamos vendo. Morei no Alto do Cruzeiro algum tempo onde existiam essas coisas.
Lirinha  Há um romantismo na primeira vez que eu vi um Xucuru. Pô, todo mundo diz assim: “Vocês são inspirados nos Xucurus”. “Salve o povo Xucuru”, a gente diz, como utilizamos também muito toré na nossa musicalidade. “Vocês viveram e conviveram com os Xucurus”. Digo “A primeira vez que vi os Xucurus na minha vida foi quando eles fizeram uma intervenção num prédio público, cobrando suas terras”. Eles ocuparam o DeNOx, uma instituição de Arcoverde. E passavam a noite toda. Eu ia passando como um cidadão de Arcoverde, sem saber que nem existia aquela turma e escutei aquele som. Fiquei enlouquecido pelo som. Uma coisa de corpo, mesmo, de ligação, de viagem artística, nada cultural, nada de resgate, nada de viagem de que ali é a salvação, de que ali é a minha vida, o meu passado. Não faço uma idéia assim, não! É bastante interessante porque existe uma ilusão de que a gente vem do meio do mato. Fui totalmente influenciado pela televisão e pelo rádio.
Emerson  Quando falo para as pessoas que o meu bisavô foi cacique dessa tribo Xucuru, as pessoas logo me visualizam com um cocar [risos] no meio do mato. Falo “Não, não tenho essa coisa tão direta”. Sou descendente e uso isso como uma referência super importante. Vejo-me como um índio mas num processo tecnológico da Humanidade. E acabei me enquadrando e me envolvendo com outras coisas, gosto de outras músicas. A música que ouço em casa é música estrangeira, mas tenho essa coisa de toré. Mas existe aquele discurso de “Você não pode perder a sua origem”, “Você é um cara descaracterizado”.
Almeida  Existiu um choque entre você e seu avô?
Emerson  Pois é, o meu avô já falava a língua e também era muito católico. Só depois é que fui me envolver com arte, conversando com a minha família. É uma coisa que eles esqueceram, uma herança que para eles é uma coisa muito natural, não tem aquela coisa “Vamos valorizar porque é uma cultura”, não! Para eles era muito natural eu ser ou não ser, também. Aí foi onde eu tive acesso, quando descobri o que meu bisavô tinha sido, e que no meio das coisas antigas de meu avô existia um dicionário que ele traduzia do português para a língua dos Xucurus.
Almeida  Manuscrito?
Emerson  Isso. Tinha umas coisas desse tipo. Até coisa ligada a cordel, a folhetim.
Lirinha  Ele tem uns cordéis de 1918, não é?
Emerson  O meu avô.

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