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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 5/18

"Literatura de cordel" é uma interpretação intelectual e pejorativa

Marta  A divulgação da cultura ainda está muito viciada no eixo Rio-São Paulo, mas uma série de referências que chega a esse eixo sinaliza que isto está sendo quebrado, um caminho sem volta. “Opa, aquilo ali é um mar de cultura, de referências!” Vocês sentem isso? Ou não, está tudo muito preso ainda, só pelas brechinhas é que as coisas começam a aparecer?
Lirinha  Eu vejo uma mudança em determinados aspectos, principalmente com a Internet. Não se tem dúvida que você em Arcoverde tem contato com o mundo. Isso mudou realmente a situação. Agora, a Internet é privilégio de pouquíssimos na minha cidade, mas existem algumas instituições como SESC. Inclusive muita gente defende isso em Arcoverde, que uma das características interessantes da cidade foi ter uma instituição como essa que levou muitas apresentações daqui e também do Recife, e começou a rodar um projeto chamado Palco giratório. Isso antecedeu ao surgimento do Cordel. Para mim é muita coincidência. Vimos muita coisa passando em Arcoverde. Outras cidades vizinhas que não têm uma instituição como o SESC desfrutam uma realidade pior ainda. Mas, de qualquer forma, a comunicação existe. Ou, a notícia a gente recebe, mas temos uma dificuldade de mandá-la. Assim, a comunicação é defeituosa. A gente recebia todo tipo de música. Emerson sempre recebia outra música que não era a de Arcoverde. Recebemos toda aquela história de Chico Science. Agora, para mandar… É difícil. A visão das pessoas é de costas para o seu interior – metáfora! [risos] –, mas geralmente as pessoas estão de costas para o seu interior. A visão de Recife é para São Paulo, de São Paulo para Nova Iorque, vamos dizer de costas, e de Nova Iorque eu não sei para onde.
Almeida  Para o umbigo!
Lirinha  Para o umbigo! [risos] E essa situação faz com que ocorra uma necessidade de guerrilha para o surgimento de uma intenção como a nossa. Ao surgir essa organização, rompendo essas barreiras, o grupo torna-se especialmente forte.
Seabra  Só para traçar um painel. Vindo para cá você comentou da quantidade de poesia e de poetas na região do Pajeú.
Lirinha  Essa poesia que chamam de trovadoresca e medieval, que veio no bornal dos colonizadores, essa poesia metrificada e rimada, que tem possivelmente sua origem na poesia árabe, com a invasão da Península Ibérica pelos mouros, chegou no Brasil inteiro. Chegou através de quadrinhas e se desenvolveu no país inteiro. Você mesmo estava me falando de um poeta do interior de Minas. A 120 quilômetros da região em que a gente mora, numa cidade chamada São José do Egito, acontece uma aglomeração muito impressionante dessa forma de se fazer poesia. São várias famílias que se dedicam a isso, e ali se desenvolveu mais de 60 gêneros de formas de métricas e rimas estruturadas, que seguem o ciclo do rio Pajeú. E onde nasce o rio foi onde nasceu os primeiros cantadores. Inácio da Catingueira, um poeta escravo, que nasceu dois anos antes de Castro Alves, mas Castro Alves é conhecido como “Poeta dos Escravos”. A única diferença é que Inácio da Catingueira era escravo. Quando ele ia cantar, pedia licença ao patrão, que deixava porque ele ia representando o engenho. Inácio da Catingueira dizia: “Meu viver é misturado / De sofrer e de alegrias / Sou escravo no roçado / Mas sou rei na cantoria”. E outras coisas. “Pobre não possui calçado / Mas Deus Pai Onipotente / Faz nascer grosso solado / Nas solas dos pés da gente”. E Inácio da Catingueira nasceu onde nasce o rio. Depois veio Zé Limeira, não sei se vocês conhecem, o Poeta do Absurdo, Rumano da Mãe D’Água, Hugolino da Teixeira, todos da Serra da Teixeira, onde nasce o rio Pajeú. E por onde o rio passa, vai se transmitindo essa poesia. Cresci muito perto desse lugar, mas cresci sem nenhuma presença deles na educação oficial. Tudo coisa de bar, tudo coisa de…
Max Eluard  Tudo oral.
Lirinha  Oralidade. Inclusive existe um grande engano, que não é culpa de ninguém. É até falta de possibilidade da gente explicar, que é sobre a palavra Cordel do Fogo Encantado, da palavra “cordel”. Essa poesia que está mais presente no Cordel do Fogo Encantado não é necessariamente a poesia do cordel, da literatura de cordel. Aliás, não tem nenhuma citação de literatura de cordel. Literatura de cordel era herança escrita. O que caracteriza o cordel? Inclusive é uma avaliação pejorativa, uma palavra de quem estuda. Nenhum poeta diz “Eu faço literatura de cordel”. Hoje é que eles estão dizendo isso, mas devido a esse 100 anos de cordel, no SESC Pompéia, que foi uma coisa assombrosa e que trouxe todos os cordelistas e poetas que existiam. Então, eles começaram a incorporar isso ao discurso deles. “Faço literatura de cordel”, mas ninguém dizia isso. Dizia “Faço folheto”, “Faço poesia”, “Faço romance” e pendurava em cordões. Essa origem vem de quem estuda, dos folcloristas, do Câmara Cascudo, é uma interpretação intelectual e pejorativa. Literatura de cordão, literatura de cordel, pendurado num cordão, é só essa a definição. Então, não foi bem essa que fez a cabeça da gente, nem que deu a origem ao grupo. A palavra cordel surge no grupo como uma homenagem, como idéia, como sinônimo de história. Como se fosse “A história do Fogo Encantado”, “Cordel do Fogo Encantado”, utilizando uma metáfora de que a gente estaria expondo num cordão de uma imensa feira, que é o mundo, a nossa poesia e a nossa música. Então, estaria exposto nesse cordão, utilizando até a imagem pejorativa, assumindo como uma coisa de venda, de exposição, de tratamento numa feira onde passam várias pessoas. A idéia dessa poesia, dessa análise da poesia oral, da poesia escrita, ainda pertence a um grupo muito restrito, e a própria literatura de cordel hoje serve… deixa quieto! [risos]
Max Eluard  Mas vocês não tem nenhuma bronca com a cultura livresca, vocês lêem?
Lirinha  Eu não tenho, mas é foda a ausência de comentários mais ligados a essas outras forças, da coisa negra, da coisa indígena. Não tem nada! A gente fica muito ligado a um negócio europeu.
Clayton  É, e tudo fica como se fosse um negócio exótico, bicho novo e bicho antigo. Mas é uma coisa que já existe, perdura e se transforma.

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