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Entrevistas de música brasileira

Cordel do Fogo Encantado

O vocalista e compositor Lirinha. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Cordel do Fogo Encantado

parte 4/18

Nossa visão de mundo nunca estará no livro de literatura

Max Eluard  Então, a gente chega a conclusão que a escola não dá espaço para quem quer se expressar, né?
Clayton  A história da própria cidade nunca foi contada na escola. Eu soube de duas coisas, no mínimo, porque a professora quebrou sua aula metódica para falar um pouco da cidade. Era o Dia da Emancipação. Falou um pouquinho. A história que ouvi na escola é da época de Figueiredo.
Max Eluard  Educação Moral e Cívica.
Clayton  Por aí.
Marta  E a história do lugar é a história de vocês.
Clayton  Acho que é por isso que tentamos quebrar esse ciclo de informação que nossos pais tiveram, até inconscientemente. Era um ciclo deles, dos avós, daquela educação rígida, do médico, do advogado, ou não-sei-o-quê, que também tem seus valores, mas minha escolha em casa foi muito difícil.
Lirinha  “Queimai vossa história tão mal contada”, a gente diz isso desde o começo do espetáculo. “Queimai vossa história!”
Nego  É uma coisa muito engraçada. Todo mundo na família quer ter um “doutô”, um advogado. Comecei a trabalhar em um escritório de advocacia e minha mãe e minha vó, “Já que você está com um advogado, apanhe umas coisas”. Nessa época eu não estava muito ligado em música. Pela minha mãe eu seria um advogado, tanto que ela disse que “Se eu tivesse condições você não trabalharia.” Também poderíamos ser um professor de música ou universitário de música. Tudo vem muito da convivência, e se você vem de um bairro onde tem espaço para a comunidade te ensinar aquilo, você freqüenta, já que você não ter uma grana para pagar a universidade de música para estudar. Poderia até ter hoje, mas como você mesmo vê, morar no morro é coisa de periferia. “Vai ter uma oficina de percussão”, eu e meu primo nos interessávamos muito. “Vai ser do quê? De maracatu, de coco?” Íamos. Minha convivência com o estudo de música vem muito de ouvido, de interesse. Minha mãe fica impressionada com isso. Todo mundo na minha família é assim, tanto que não conheço nenhum “doutô” até hoje. [risos]
Emerson  Essa coisa de escola… É tão difícil você estruturar uma vida, plantar algumas coisas se você não tem… é muito difícil. Você tem que ter alguma arte ou é jogador de futebol. Geralmente são essas as pessoas que não estudaram e que têm a oportunidade de ter alguma estabilidade na vida. Mas é uma coisa que você não pode… É muito difícil você dizer “Ah! Não vou optar pela escola”. Você tem a possibilidade de optar por um monte de coisa, ou a opção de não querer fazer um monte de coisa, mas a escola você tem que fazer.
Clayton  Chega a ser por obrigação, bicho!
Lirinha  E uma escola muito distante da gente, principalmente a de Arcoverde. “Você tem que ver a poesia do eixo Rio-São Paulo para poder passar na aula de Literatura”. Mas você tem uma porrada de poesia e de poetas ali perto de você morrendo no álcool em bares. Você acha que aquilo é interessante, leva para a professora, mas o livro não oficializou aquilo. Então, o livro de Literatura Brasileira dá muita vez e voz aos poetas que estavam concentrados nessa região, que era a região que mais conseguia se comunicar, e que até hoje consegue. Para a gente que vive e cresce em outra região fica uma situação de distância. Tudo o que vemos de possibilidade está muito distante, fora do alcance. Nossa visão de mundo transformada em poesia nunca estará naquele livro de literatura, porque naquele momento a gente imagina que seja falta de capacidade do nosso pensamento poético, sabe como é? Depois é que você vai descobrir…
Marta  Que não é nada disso.
Max Eluard  Que é um mecanismo.
Lirinha  Que é uma ordem de domínio por uma determinada força.

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